Conatus! A gente somos Conatus!

Em uma animada festa nas ruas do centro histórico do Rio, meus amigos e eu falávamos da direita reacionária brasileira, quando, espontaneamente, parodiamos a música “Inútil”, do Ultraje à rigor, substituindo a letra original pela nossa: Coxinhas! A gente somos coxinhas! (a gente não sabemos eleger presidente, a gente não sabemos nem escovar os dentes – e por aí vai). A música se prestou muito bem à nossa crítica. Em um segundo momento, entretanto, falando de Spinoza, não conseguimos deixar de entoar, também ao ritmo de “Inútil”, aquilo que, na teoria do filósofo, nós sentíamos ser absolutamente: Conatus! A gente somos Conatus! Um pouco depois disso, musicando o resultado de uma outra conversa, sobre a linguagem, foi inevitável uma terceira variação da mesma melodia: Discurso! A gente somos Discurso!

Então, depois de mais uma divagação, desta vez sobre o tempo, não escapamos de, ainda na brincadeira musical, cantarmos, todos juntos: Minutos! A gente somos minutos! Porém, diferente das outras vezes, não foi com uma gargalhada coletiva que encerramos a cantata. Um segundo depois de vocalizarmos em coro que éramos nada além de minutos a piada soou extremamente sem graça. Mais do que isso, ela estancou a gratuita alegria que nós vínhamos fruindo, paródia após paródia, naqueles becos do Rio antigo. Assumir, assim, sem anestesia alguma, que “a gente somos minutos” roubou o nosso chão, cuja tectonicidade, aliás, era sustentada justamente porque estávamos, até ali, alienados do fato de que éramos minutos sendo gastos despreocupadamente.

Porém, para restaurarmos a alegria perdida por conta da nossa infeliz última paródia, só Spinoza mesmo para nos salvar. Então, dos olhares graves que silenciosamente trocávamos naqueles minutos que perdíamos ressurgiu, graciosa, em nossas bocas, a musiquinha que há pouco cantávamos: Conatus! A gente somos conatus! Revivificamo-nos instantaneamente com este mantra. Foi nesse momento, aliás, que ele passou a ter, para nós, a sua melhor e mais potente significação. Com efeito, qualquer um de nós pode ser reduzido a um número determinado de minutos. Porém, não é isso o que somos, mas outra coisa. Em outras palavras, somos algo que existe e que age durante todos os nossos parcos minutos, mas de forma alguma apenas minutos.

Spinoza nos garantiu que durante todos esses minutos que parecem se entrincheirar contra a nossa existência, nunca deixamos de ser conatus, isto é, potências singulares para permanecer existindo. Cantar, a plenos pulmões, que somos conatus, a despeito principalmente do impiedoso tic-tac do relógio, foi a nossa revanche musical contra o réquiem que nós mesmos havíamos composto mas que não fez sucesso entre nós, muito pelo contrário, foi um fracasso de público e de crítica. Agora, por que, então, em meio a tantas pessoas e melodias alegres, chegamos àquele triste momento da nossa ópera urbana no qual cantávamos Minutos! A gente somos minutos!, se, conforme o nosso salvador Spinoza, não é isso que somos? Ora, obviamente porque, como também cantamos, duas melodias antes desta: Discurso! A gente somos discurso!

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