Greve de estudantes contra as más lições

Eu participo, há alguns dias, de uma greve nacional de estudantes que luta sobretudo contra o sucateamento das universidades públicas em face dos atuais ajustes econômicos que tanto o governo brasileiro, quanto o desgoverno do capital, tentam impor ao sistema de educação. Dentre os objetivos deste movimento estudantil, dois deles me parecem os mais nevrálgicos: o primeiro, a não aceitação do corte orçamentário de 9.4 bilhões de reais à educação brasileira, e o segundo, a não instauração da terceirização na contratação de professores para as universidades federais, cujo efeito – ou defeito – imediato é o fim dos concursos para docentes, e a consequente perda, por parte das universidades, do controle sobre esse processo de seleção.

Um corte de verbas na educação já é inadmissível antes mesmo de ser pensado, pois, do analfabeto ao doutor, todos sabemos que a educação no Brasil carece, e historicamente, de investimento, não de mais limitação. Ainda mais num momento em que os bancos estão tendo lucratividades recordes, mesmo nesse momento de crise econômica. O banco Itaú, por exemplo, o alvo preferido de dez entre dez Black Blocs, só no primeiro trimestre de 2015 lucrou 5.3 bilhões de reais. O banco Santander também não tem do que reclamar! Ora, pelo visto, dinheiro há, e muito! Portanto, é inadmissível aceitar, sem protestar, essa redução da verba destinada às universidades enquanto banqueiros expandem seus paraí$o$.

Já a terceirização, que afeta diretamente o futuro daqueles que, como eu, pretendem ser professores-pesquisadores nalguma universidade pública, o problema é que, com o fim dos concursos para docentes, serão privilegiados aqueles que já está no mercado de trabalho, e não os recém pós-graduados que, pelas suas primeiras vezes, buscarão, futuramente, trabalho nas universidades. Além disso, como, e por quem serão selecionados os docentes com as universidades alienadas desse processo? Abre-se, no mínimo, uma via àquela velha forma de negociação, velha conhecida nossa, plena de “jeitinhos”, que, certamente, não se privará de valer-se da mais abjeta politicagem marrom.

Entretanto, quando oficialmente informamos aos nossos professores que os alunos estavam em greve, solicitando, com isso, a adesão deles à nossa causa, quão decepcionante não foi ouvir deles, em tácito desestímulo, que “aluno não faz greve”. Porém, como bem disse o amigo-colega-companheiro Filipe Fortuna, se as pessoas podem fazer greve de fome, de sexo, e até de silêncio, greve de estudante, portanto, tem de poder também! Além do que, os estudantes são a imensa maioria em uma universidade, cerca de 95%, além de serem o fim desta instituição. Sendo assim, os alunos são aqueles a quem deve ser garantido mais direitos, inclusive o de greve.

Disseram-nos ainda que as nossas demandas eram utópicas, que não as alcançaríamos com uma paralisação, e que, portanto, deveríamos desistir da greve. Tal ensinamento, vindo de professores universitários, sobretudo filósofos, descortina mais um grande fracasso da educação no Brasil. A infeliz lição que tais mestres tentaram nos passam é a de que seria melhor para todos, inclusive para o calendário acadêmico, que desistíssemos, enquanto estudantes, das nossas reivindicações. Querem, portanto, que voltemos às aulas, confortavelmente derrotados, antes mesmo de tentar a justa vitória. Será que estes professores, diferente de nós, alunos, acreditam que será o banco Itaú ou a Rede Globo que se mobilizarão e lutarão por nós todos? Os lucros destes mostram exatamente o oposto disso.

Ao contrário do que nos foi dito, nossas demandas não são utópicas. Seriam, caso estivéssemos exigindo a paz mundial, o comunismo já, ou a legalização das drogas. E olha que muita gente pé no chão investe em objetivos como estes de forma bastante concreta! Agora, pedir que a verba à educação não seja reduzida, que as contratações dos nossos professores não sejam terceirizadas, que as bolsas acadêmicas dos graduandos valham, no mínimo, um salário mínimo, só para citar algumas, são demandas absolutamente viáveis, mas que só parecem utópicas porque alienadas de nós pelos ímpetos de um capital e de uma política que preferem muito mais os bancos privados às carteiras escolares públicas. Desse modo, incluo entre as minhas demandas a total rejeição ao conceito de utopia dos meus professores filósofos.

Outro mestre, com o qual recentemente vínhamos lendo sobre o Maio de 1968 e suas greves estudantis, sem pestanejar deslegitimou a nossa paralisação. Abriu, com isso, um infrutífero abismo entre a teoria estimulante que ele mesmo nos apresenta e a possibilidade de nós a praticarmos, diária e concretamente, na nossa realidade. Por um lado, ensina-nos sobre revolução, mas, por outro, diz-nos que, se formos revolucionários, reprovaremos no seu curso. Esquizofrenia também se aprende na universidade! Outro mestre, ainda, ouvindo que a decisão pela greve havia sido tomada por uma assembleia soberana, feita pelos os alunos, disse-nos, não apenas jocosamente: fiquem com a “soberaniazinha” de vocês que eu fico com a minha. O que aprendemos com ele? Que, de um lado, ou muito acima, estão os deuses doutores-universitários, e de outro, ou muito abaixo, os anjos-estudantes caídos.

A decisão dos professores da Faculdade de Filosofia da Unirio de não apoiarem nem aderirem à greve estudantil, mas, pelo contrário, muitos deles ameaçarem com a reprovação aqueles que insistirem na paralisação, mostra, contudo, que aquilo que para muitos estudantes é insuportável, para eles, professores, pelo jeito, não está tão ruim assim. Ou, talvez, só estejam querendo nos ensinar algo que eles mesmos aprenderam, nas muitas greves pelas quais já passaram, e das quais, aliás, na grande maioria das vezes saíram derrotados: não adianta reclamar, não adianta se organizar e lutar; afinal, até os módicos aumentos de salários que eles sempre pediram, ou nunca chegaram, ou foram convertidos em migalhas antes mesmo de caírem nos seus bolsos. Se querem nos ensinar essa triste história, parabéns!, os meus professores estão fazendo um excelente trabalho.

Felizmente, a universidade, ainda que tão carente de investimento, e inclusive correndo o risco de ter seus doutores contratados como se fossem entregadores de pizza, tem mais a ensinar do que só aquilo que os professores tem a doutrinar. Se nós, alunos, permanecêssemos somente em aula aprenderíamos dos nossos mestres inclusive as suas derrotas, o que não nos interessa. Vale, então, descartar todos os ensinamentos derrotistas que eles porventura tenham a nos passar.

Uma greve estudantil, portanto, precisa nascer livre de quaisquer derrotas prévias. Não porque os estudantes não devam se deparar com elas, mas porque este não é o caminho para encontrarem as suas próprias derrotas, com as quais aprender, e não as dos seuss professores, derrotados catedráticos. Ainda que, finalmente, nos seja negado o que quer que seja que tenhamos a pedir, de modo algum os nossos mestres devem começar ensinando que não temos o direito de pedir o que nos falta e o que acreditamos nos ser de direito.

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