Sete bilhões de smartproblemas

Parabéns, humanidade, pelos sete bilhões de smartphones produzidos: um para cada pessoa do planeta! A despeito dos desafios mais críticos que temos de enfrentar, tais como a exaustão da Natureza, os fundamentalismos religioso e econômico, a gentrificação dos nossos espaços urbanos, só para citar alguns, necessidades diante das quais, aliás, parecemos tão impotentes quanto conformados, a despeito de tudo isso, pelo menos conseguimos uma marca histórica, contudo abjeta, com a qual afirmar a nossa suspeita potência: um smartphone por ser humano.

Seria no mínimo cômico e igualitário se não fosse maximamente trágico e desigual este dado que hoje é divulgado, pois, obviamente, estamos muito longe de termos, cada um de nós, um desses desejados e inclusivos gadgets que nos conecte com os demais seres humanos e com as oportunidades do mundo globalizado. Sem falar que tal recorde produtivo, por sua vez, significa mais exaustão da Natureza (extração de matéria-prima, geração de energia para a produção, consumo de mais combustível para o transporte das mercadorias, etc.), e também mais gentrificação, pois, pelo preço que os smartphones chegam às lojas, certamente não é para todos que eles forma feitos.

Ao menos a minoria da população mundial, quiçá metade dela, pode se conectar como nunca para não só visualizar, mas também curtir, comentar e compartilhar a destruição da Natureza e a desigualdade crescente que também sabemos produzir tão bem quanto smartphones. Ao passo em que água falta a cada vez mais pessoas no mundo, temos uma abundância de artificialidades, largamente “publicitarizadas”, que possibilitam àqueles a quem nada falta a oportunidade de se alienarem, no toque de um display digital, do que falta a muitos e também do que afeta a todos, como, novamente, a destruição da Natureza.

A famigerada notícia sobre o recorde histórico de sete bilhões de smartphones produzidos pode facilmente ser lido a partir de qualquer um dos dois, três, ou mais, gadgets inteligentes que você e eu, individualmente, já tivemos nos últimos anos. Isso basta para deixar tácito que dois, três, ou mais de nós não tiveram os seus como o anúncio da paridade humanos-smartphones tenta mentir. Cabe salientar, outrossim, que tampouco nos importamos em saber para onde os nossos “celulares espertos” velhos foram parar com a chegada dos nossos últimos modelos. Ora, para onde iriam senão para a Natureza; senão para poluí-la mais um pouco?

O recorde “smartphonado”, portanto, é bem mais grave do que somente produzir eletrônicos inteligentes em vez de produzir sustentabilidade e igualdade. Na verdade, essa quantidade absurda de smartphones espalhados pelo mundo só aumenta a crise ecológica e a gentrificação da acessibilidade à informação. Se esta marca histórica é uma vitória, o é apenas para o capitalismo e suas demandas nada sustentáveis e igualitárias. Porém, se é a derrota que eu não consigo deixar de ver, esta é da humanidade inteira, que produz sete bilhões de soluções portáteis e inteligentes que, em vez de resolver problemas gerais, cria, por sua vez, sete bilhões de novos problemas individuais.

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