Entre tapas e beijos com Spinoza

O maior “tapa na cara” existencial que eu já levei foi de Spinoza, quando, no início de sua Ética, ele coloca que “se uma coisa pode ser concebida como inexistente, sua essência não envolve a existência”. Ora, como eu fui inexistente até a década de 1970, e, com sorte, também o serei depois da década de 2070, não resta dúvida de que a minha essência particular não envolve a existência, pelo menos, do modo como eu pensava até então. O que Spinoza disse era que eu, enquanto essa essência única que eu sou, apenas usufruo de uma existência que, entretanto, não pertence a mim nem sou eu quem a põe.

Obviamente, não é o caso de a minha existência ser devida à dos meus progenitores, pois, se assim fosse, as existências de cada um deles se reportaria à dos seus próprios progenitores, e, assim, eu chegaria a Adão e Eva, cujas existências, entretanto, não provieram de pais nenhuns, mas de Deus. Quer isso dizer, então, que a minha existência pertence a Ele? A essência laica que eu sou resiste em aceitar essa conversa. Porém, fazendo de Deus aquilo que Spinoza fez d’Ele: “Deus sive natura” – Deus, ou seja, a Natureza -, é mais fácil aceitar o fato de que toda e qualquer existência, inclusive a minha, é parte efêmera da existência eterna da Natureza, pois somente ela não pode ser concebida como inexistente, ainda que a teoria do Big Bang proponha um antes de tudo.

De qualquer forma, essa história de eu existir sem que eu mesmo seja a causa da minha existência foi, de imediato, avassaladora. Já não foi fácil aceitar, ao longo da minha existência, que eu não pudesse trazer à existência várias coisas que desejei. Agora, se Spinoza tem mesmo razão em dizer que a minha essência não envolve a existência, todas as coisas cujas existências eu atribuía à minha, na verdade, devem as suas existências à Natureza, e não a mim. Muito a contragosto, devo aceitar que, se somente a partir de determinado momento eu passei a existir, não só a minha existência, mas também aquelas que eu acreditava que de mim se seguiram, existem, com efeito, apenas por uma força, vontade ou potência da Natureza.

Ok, a existência não é algo que a minha essência envolva necessariamente, dado que eu bem poderia sequer ter existido. Entretanto, uma vez existindo, eu posso abandonar tal existência a qualquer momento, se assim eu decidir, o que significa que alguma ingerência sobre a minha própria existência cabe a mim. Ora, se, por um lado, somente a natureza pôde pôr a minha existência, por outro, não somente ela pode tirá-la de mim; eu também posso! Porém, se com isso eu acho que desfruto de algum assenhoramento existencial sobre a Natureza, igualo-me ao escravo que tenta se libertar de seu Senhor morrendo a chibatadas.

Esse subversivo poder de findar com a minha própria existência, portanto, em nada contribui com a minha essência. Pelo contrário, faz com que ela nada seja nem possa. Sinto-me existencialmente nocauteado pela segunda vez! Entretanto, o tapa de Spinoza vem acompanhado de um beijo. Se, por um lado, o filósofo diz que a essência daquilo que pode não existir não envolve a existência, por outro, afirma que aquilo que em ato existe tem, em sua essência, ao menos a potência para permanecer na sua existência particular. Sendo assim, embora não coubesse a mim decretar a minha própria existência, uma vez envolvido por ela, posso, o tempo todo, nela tentar persistir.

Entretanto, a minha potência particular para permanecer existindo não vai contra a essência da Natureza. Pelo contrário, essa minha potência para existir outra coisa não é senão a própria Natureza compartilhando comigo, contudo efemeramente, a sua exclusiva existência eternal. Essa potência particular para não desaparecer, que eu chamo de “eu”, começou, na verdade, pouco mais de nove meses antes de os meus progenitores darem a ela o meu nome. Afinal, é a Natureza que envolveu, com sua existência eterna, uma essência particular, que, por alguns anos, é tão livre e potente a ponto de chamar a si mesma de Rafael. O tapa de Spinoza revelou que a minha existência não pertencia a mim, mas à Natureza. O beijo do filósofo, entretanto, diz que a minha essência é só minha, e potente até onde eu existir.

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