Dinheiro, abstração, então, Filosofia.

O que o dinheiro tem a ver com a filosofia? Como sabemos, filosofar não leva à riqueza financeira. Aliás, a realidade mostra que o produto do filósofo tem pouco ou nenhum valor no mercado capitalista que, por sua vez, funciona melhor com “mãos invisíveis” do que com filosofias aparentes. Portanto, economicamente, a Filosofia não é um bom negócio. Embora não seja a melhor forma de se ganhar dinheiro, este, entretanto, foi, historicamente, um meio da filosofia.

Na antiguidade, outrossim, a filosofia não enchia os bolsos dos seus praticantes. Sócrates que o diga, pois, terminou a sua vida como um mendigo. Porém, ainda que a relação amorosa daqueles gregos com a sabedoria não lhes trouxesse dinheiro (os que ganhavam com isso foram estigmatizados de sofistas), a Filosofia não teria acontecido sem ele. Com efeito, quando, há 2500 anos, os homens começaram a filosofar, esta atividade era exclusividade de indivíduos que podiam se dar ao luxo do ócio, sustentados, no entanto, pelo trabalho de seus escravos.

Então, com seus corpos dispensados do trabalho braçal, as mentes filosóficas puderam se preocupar com o desnecessário: de que é constituído o real, o que é o não-ser, o que é o cosmos, etc. Foi nesse recreio V.I.P. que Tales de Mileto pôde inaugurar a Filosofia, dizendo que toda a realidade não é aquilo tudo que dela se diz, mas que era tão somente água. Ainda que uma dúzia de aristocratas gregos ociosos pudessem concordar com o sábio de Mileto, para um escravo que quebrasse pedras durante sua vida toda isso pareceria divagações de “mauricinhos”.

Antes de Tales, contudo, os gregos não eram habituados à tais abstrações filosóficas, visto que a concretude objetiva era, e devia ser, a cara da realidade. Nietzsche apontou certeiramente para a dificuldade que os antigos gregos tinham em captar conceitos puros, desprovidos de conteúdo concreto. O alemão disse que, ao contrário de nós, [pós-]modernos, que facilmente sublimamos o particular, o pessoal, em abstrações, para os gregos o mais abstrato retornava sempre a uma coisa ou a uma pessoa concretas. Uma abstração mental que não encontrasse um correlato concreto, portanto, não se sustentava.

Todavia, a ventura econômica grega que passou a sustentar o ócio dos seus nobres filósofos trouxe o dinheiro – o Dracma, a moeda mais antiga do mundo – e a abstração que ele pré-condiciona, substituindo as trocas concretas do tipo coisa-coisa (trigo por sapatos) pela troca coisa-dinheiro-coisa. O dinheiro, portanto, estabeleceu um estágio de abstração no cerne das relações concretas entre as pessoas. E uma vez que determinadas coisas puderam ser economicamente abstraídas, o restante delas não escapou de igual destino.

Por conseguinte, foi possível abstrair também coisas que, até então, sem objetos concretos eram apenas quimeras, tais como o amor, a amizade, o tempo, a beleza, a justiça, etc. Em decorrência disso, a natureza inteira se tornou contingente demais para ter a dignidade de um pensamento filosófico. A Filosofia, portanto, não só cunhou uma nova forma ao pensamento como também fez de qualquer conteúdo que se aventurasse nessa forma algo a priori inadequado. Em outras palavras, fez da realidade concreta imediata precisamente aquilo que afasta e ofusca a verdadeira realidade que, filosoficamente, deve principiar abstrata, livre das refutações de quaisquer particularidades concretas.

A Filosofia, para tornar concretas as suas abstrações, teve, no entanto, de esperar primeiro a abstração da concretude inaugurada pelo dinheiro. Somente depois de alguma coisa poder ser trocada, não por outra, mas por um universal, ou seja, o dinheiro, é que os homens se aventuraram a abstrair e a universalizar aquilo de que, antes, tinham apenas experiências concretas e particulares. A abstração filosófica, por conseguinte, nasceu do ócio inaugurado pela fortuna, alimentado, entretanto, pela escravidão. Foi só quando alguns homens puderam se alienar de suas realidades físicas que eles puderam, então, ocuparem-se de realidades metafísicas.

Entretanto, tempo livre e dinheiro ainda são privilégios de poucos. Assim como na antiguidade grega, a produção intelectual, ao longo da história, sempre precisou de uma massa escravizada que a sustentasse, e tanto faz se essa escravidão for chamada de servidão ou de trabalho assalariado. O dinheiro, portanto, não só comprou o ócio necessário à filosofia como também inaugurou, e doravante sustentou, a abstração das concretudes reais sem a qual a Filosofia seria apenas História da humanidade.

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