Do ápeiron ao não-lugar

Na década de 1990, Marc Augé cunhou o conceito de “não-lugar” para tratar de lugares feitos pelo homem, porém, nos quais não há interação humana, onde ninguém desenvolve atividade alguma. Para entender o objeto do antropólogo francês, basta pensar, por exemplo, num trecho de uma autoestrada, ou no corredor do edifício em que moramos: nós os utilizamos por pouquíssimos segundos, somente o tempo de os cruzarmos, mas nunca fazendo deles cenários autênticos das nossas vidas. Também de não-lugares Augé chamou os saguões dos aeroportos, os corredores dos shopping centers, os estacionamentos, os elevadores, isto é, ambientes pelos quais passamos ou permanecemos efemeramente, porém, quanto mais rápido forem deixados, tanto melhor.

Em defesa dos não-lugares, entretanto, pode ser dito que são espaços de circulação, fundamentais à movimentação contemporânea, sem os quais a vida não teria como acontecer adequadamente. O problema é que os não-lugares estão em toda parte, da porta de nossas casas a praticamente todos os nossos destinos, roubando, por conseguinte, uma considerável parcela do espaço total. O que Augé pretendeu mostrar é que os não-lugares são locais construídos e mantidos pelos homens, todavia destinados à não-vida, ou seja, ao não-desenvolvimento de atividades que tenham significância na vida das pessoas que por eles circulam.

Porém, 25 anos depois de Augé ter conceituado os não-lugares, eles já passaram a ser palco de uma série de atividades novas: os “rolezinhos” fazem dos shopping centers a berlinda da vida de milhares de jovens; o lugar onde se estaciona o automóvel já é tão ou mais importante do que o lugar para onde se vai; e o Facebook faz dos elevadores e das salas de embarque lugares perfeitos para se estar em todos os demais lugares. Talvez Augé tivesse, hoje, de chamar os seus não-lugares de semi-lugares. E, quiçá futuramente, devido ao dinamismo da realidade, de lugares propriamente ditos.

O preço disso, contudo, é a transformação dos lugares onde exercemos nossas atividades genuínas, tais como as nossas casas, as nossas salas-de-estar, os nossos escritórios, etc., em lugares de passagem, em instâncias transitórias entre o shopping e o aeroporto – estes sim, os novos lugares-templos da vida pós-moderna. Ao passo que os não-lugares augéanos ganham estatuto, os lugares propriamente ditos perdem o seu, e todos eles são paulatinamente convertidos em semi-lugares. O tédio sentido por se permanecer muitas horas em casa ou no trabalho prova a crescente insuficiência destes lugares. Somente em trânsito, e em meio ao trânsito constante de muitas outras pessoas, sentimos autenticamente estarmos em atividade.

Há 2.500 anos, o filósofo grego Anaximandro já falava de não-lugar, entretanto, chamando-o de ápeiron, isto é, a indeterminação a partir da qual a realidade era criada, mas também destruída sistematicamente. De acordo com o filósofo, uma determinação qualquer surge e retorna à sua indeterminação inicial. Um lugar determinado, portanto, é o que existe a partir da determinação da necessidade humana por ambiência e que dura até o fim dessa necessidade. Em outras palavras, é como se, dando-se as costas para o lugar onde se está, ele desaparecesse e se reintegrasse imediatamente à indeterminação absoluta do ápeiron, que de modo algum pode ser determinada por lugares. Já os não-lugares são compatíveis com a indeterminação proposta por Anaximandro, existindo enquanto lugares apenas efemeramente, mas condenados a desaparecerem com a mesma efemeridade.

25 séculos depois de Anaximandro dizer que no ápeiron lugar algum tem lugar cativo, Marc Augé, 25 anos depois de edificar o seu não-lugar, deve chegar à mesma conclusão: que lugar algum resiste ao dinamismo da realidade, aos movimentos da existência, à fluidez da vida. Só há, portanto, não-lugares, e qualquer determinação espaço-temporal humana que os converta em, por exemplo, autoestradas, shopping centers ou saguões de aeroportos, está fadada à mudança, à indeterminação. Porém, mesmo na efeméride que são, os nossos lugares conseguem ser os palcos de tudo aquilo que determinamos por vida, muito embora todos eles em outro lugar não estão senão na indeterminação absoluta, no ápeiron, no não-lugar supremo.

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