Suicídio interditado 

A Cultura, a Lei, e Deus proíbem o suicídio. Mesmo vivendo em um mundo superpopulado, cujos sete bilhões de pessoas exaurem a Natureza a ponto ameaçarmos mortalmente uns aos outros, ainda assim tirar a própria vida é um tabu. David Hume, entretanto, afirmava que “o suicídio é um poder do homem, não mais ímpio que o de construir casas, e que deve ser utilizado em circunstâncias excepcionais”. Da colocação do empirista escocês decorrem duas questões: quais são essas “circunstâncias excepcionais”, e por que é imoral e ilegal elas serem decretadas particularmente pelo indivíduo.

O carma propriamente humano é saber da própria morte, porém, não quando ela acontecerá. Os demais animais, inversamente, vivem sem saber que vão morrer, no entanto, eles têm conhecimento de “quando” isso está para acontecer, visto que abandonam seus grupos, ou mesmo as suas jornadas solitárias, para esperarem, passiva e naturalmente, a morte. Diferente deles, nós, cativos da cultura, perdemos o direito de não cultuarmos a nós mesmos. O tabu do suicídio, portanto, interdita que saibamos ao mesmo tempo “que” e “quando” vamos morrer. A subversiva consciência dos dois, entretanto, ainda é o suicídio.

Deleuze colocou que “a sociedade não pode garantir direitos preexistentes: se o homem entra em sociedade, é justamente porque ele não tem mais direitos preexistentes”. Dentre eles, portanto, o direito de decidir quando morrerá. Seria então o suicídio um comunicado anárquico à sociedade? Como disse Hume, “Todo homem particular tem uma posição particular a respeito dos outros”. Todavia, caso essa posição particular seja de oposição absoluta (circunstâncias excepcionais), só o suicídio para dizer tudo o que em uma vida inteira seria impossível. O silêncio irremediável fala eternamente.

A vontade de morte não é extrínseca às nossas muitas paixões. Segundo Hume, as paixões são existências primitivas, modos primitivos de existência. Seria, então, a paixão pela inexistência, vitoriosa no suicídio, sobrenatural? De acordo com o empirista, obviamente não. Portanto, as paixões naturais não deveriam, logicamente, ser interditadas pela sociedade que lhes sucede cronologicamente. Caso sejam, a alternativa em que se encontram as paixões é satisfazerem-se obliquamente, aponta Deleuze. E qual a mais oblíqua das paixões senão a vontade de não ter mais paixões?

Para Deleuze, o problema do eu sem solução deve solucionar-se unicamente na cultura, e não fora dela. Ou seja, o suicida deve, antes, consumir a própria cultura, até a sua morte, cuja data, entretanto, ele não tem o direito de precisar. Para tanto, psicanálise, medicamentos, eletrodomésticos, turismo, e toda a sorte de recursos artificiais. Por isso deve ser vedado ao indivíduo, mesmo em circunstâncias excepcionais, suicidar-se, pois assim ele deixa de se alimentar do $i$tema, e, consequentemente, de retroalimentá-lo.  E o suicídio é o fim dessa cadeia.

Entrementes, uma vez sistematizados, socializados, “não somos apenas sujeito, somos outra coisa ainda, somos um Eu, sempre escravo de sua origem”, coloca Deleuze. Tornamo-nos escravos da nossa origem cultural assim que abandonamos a nossa origem primeira, natural, animal. Doravante, devemos suprir e cultuar a senhora cultura de acordo com suas regras e necessidades. E ela precisa de escravos vivos, não mortos.

Ter consciência da morte nos alienou, sintomaticamente, da ingerência sobre ela, pois sabê-la passou a significar evitá-la, e, colateralmente, idolatrar a vida, inclusive para além dela mesma. Crer na vida eterna é o que senão a maior e mais artificial idolatria? Contudo, provoca Hume, “o idólatra é o homem das “vidas artificiais”. E uma vida artificial vale a pena ser mantida? Ora, se a vida é a ordem da natureza à qual ninguém que vive teve a oportunidade de descumprir, o suicídio deveria ser uma opção; uma saída de emergência não estigmatizada para escaparmos tanto da naturalidade da vida quanto da artificialidade da cultura.

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