Borboletas necrófilas no meu estômago metafísico

É indigesto demais ouvir da própria filosofia que ela está morta e ainda assim seguir apaixonado por ela. Quanto mais não seja, porque o relacionamento que a filosofia estabelece com o seu objeto, isto é, a sabedoria (sophia), deve ser antecedido, como o próprio nome indica, pelo amor (philos). Desse modo, amar a filosofia, ou melhor, amar o amor à sabedoria, sabendo que se trata de um defunto, engendra uma dupla morbidez que, por sua vez, coloca tal envolvimento sob profunda suspeita. Porém, a resiliência desse cadáver filosófico também coloca sob suspeição o seu algoz, dado que a filosofia segue, a despeito da ciência, revivificando-se mediante o amor impertinente de seus suspeitos amantes.

Foi Kant, há exatos 234 anos, que, na sua Crítica da Razão Pura, assassinou a metafísica, provando que ela é incapaz de tocar na verdade acerca do real. No lugar dela, o filósofo alemão colocou a ciência inaugurada por Newton, dizendo que a verdade é exclusivamente científica, matemática, e de modo algum filosófica. Afinal, só a ciência pode dizer, por exemplo, que a terra se formou há 4,56 bilhões de anos. Depois de Kant, a verdade passou a ser exclusivamente física (physis), e não mais metafísica (além da physis), interrompendo, por conseguinte, a promenade filosófica iniciada na Grécia antiga.

Para Kant, a verdade só pode ser produzida pela ciência. Ela é uma produção! Ora, isso derruba o clássico conceito metafísico de verdade enquanto revelação, desvelamento. Antes da ciência newtoniana, a verdade objetiva residia nas coisas, cabendo à razão humana descobri-la. Entretanto, depois da crítica kantiana, a verdade não jaz mais nas coisas, tampouco na razão humana, mas tão somente na relação entre elas, devida e objetivamente traduzida pela matemática.

Agora, o fato de a verdade dever ser produzida pelo cientista, e não mais desvelada pelo filósofo, coloca outra questão: pode ser produzida mais de uma verdade, quiçá muitas delas? O avanço científico mostra que sim. Então, para a ciência, uma verdade é verdadeira somente enquanto não for refutada e substituída por outra. Para a filosofia, com efeito, isso é absurdo, pois uma vez descoberta a verdade oculta das coisas, esta é eterna e insubstituível.

Entretanto, a produção científica “de” verdades não escapa de elevar ao infinito o assassinado processo de desvelamento metafísico “da” verdade. Com efeito, pressupor que a verdade é passível de ser falsa diante de outra verdade que lhe contradiga outra coisa não é senão impor à verdade um horizonte insuperável de sucessivos desvelamentos. Sob este ponto de vista, a ciência é uma sequência infinita de filosofias, contudo parciais e substituíveis, cujos objetos são verdadeiros até suas derradeiras refutações.

Para um filósofo clássico, a ciência moderna pareceria uma filosofia histérica que busca substituir seu objeto de desejo tão logo este seja alcançado, fazendo não da coisa, mas da pulsão que leva a ela, o seu motor libidinal. Dessa patologia a filosofia está livre, pois uma vez desvelada a verdade metafísica, essa existe para ser eternamente fruída. Entretanto, o diagnóstico da filosofia não a livra de outra perversão: o fetichismo em relação às verdades que desvela. Com efeito, a metafísica acredita na eternidade da verdade, e inclusive a ama antes mesmo do seu desvelamento completo. O sintoma desse amor fetichista, todavia, é amar meias-verdades, e inclusive a falsidade, como se fossem verdades absolutas.

Fazendo uma analogia do que Kant fez com a metafísica, é como se eu, representando a ciência-física, em determinado momento dissesse a você, representando a filosofia-metafísica, que a verdade sou eu, que somente eu posso produzi-la, e que você, por não ser eu, não é, portanto, verdadeiro, nem pode tratar de verdade alguma. Porém, qual o direito da física exigir da metafísica que esta seja verdadeira fisicamente? E qual a passividade da metafísica em não ter imediatamente argumentado contra física que esta nunca foi verdadeira metafisicamente?

Ao zumbi metafísico, cuja semivida é mantida pelo mórbido amor à sabedoria sugado daqueles que, como eu, ainda insistem em alimentá-lo, resta ainda a possibilidade de revanche contra a ciência. Além do que, se a verdade fosse interrogada em um tribunal que não fosse nem científico nem filosófico, dificilmente se confessaria exclusivamente física, prescindindo da dimensão metafísica. Se assim o fizesse, a verdade estaria dizendo que só é verdadeira fisicamente. Em outras palavras, assumiria que é apenas meia-verdade.

A verdade, porventura, não receberia o veredito de que é absolutamente verdadeira somente se sua validade fosse, ao mesmo tempo, física e metafisica? Entretanto, se physis e metaphysis são dimensões diversas, e uma está para além da outra, como poderia uma mesma verdade valer para ambas? Essa ambivalência, talvez, só possa se dar como em O Feitiço de Áquila, no qual os amantes impossíveis se encontram efemeramente apenas no instante em que Isabeau deixa de ser mulher e se torna águia, e que o capitão Navarre, inversamente, deixa de ser lobo para virar homem, diariamente, ad aeternum. Sob o mesmo feitiço, a ciência e a filosofia poderiam existir, abençoadas pela maldição do bispo de Áquila: sempre juntas, mas eternamente separadas.

Oscultando o cadáver da filosofia, morto pela cavalar dose científica newtoniana aplicada criticamente por Kant, cá estou eu, tentando polemizar a injustiça que a metafísica sofreu da física. Porém, lá atrás, quando aqueles gregos antigos começaram a filosofar, a physis é que foi subjugada pela impertinente metaphysis, e a verdade, por mais de vinte séculos, até Kant, foi absolutamente filosófica. Sendo assim, o moderno crime da física contra a metafísica foi um acerto de contas em relação antigo crime da metaphysis contra a physis.

Porém, hoje, o zumbi é a filosofia, e a ciência, a vivaz tirana que faz da verdade aquilo que mais precisamente lhe convém. A intensa produção científica, cujas mercadorias são verdades sistematicamente auto-obsolescentes, finda tão abjeta quanto a produção de iphones, válidos até o lançamento do próximo modelo. E assim a Natureza (physis) padece. Já o fetichista desvelamento metafísico da verdade eterna, diagnosticado pela modernidade histérica de dogmático, pelo fato de acreditar na eternidade das verdades dispensa a produção em série delas. Aqui a Natureza (physis) “meta” agradece. Concluindo, pergunto: por que a ciência e as suas verdades, que só são verdadeiras enquanto outras não são produzidas, merecem primazia sobre a filosofia, cuja verdade, ainda que oculta, uma vez desvelada serve para toda a eternidade?

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