Laboratorium mortis

Vasculhando pelas causas de uma angustiante apatia profissional que me usucapia há um ano e meio, e que coloca sob suspeita a o artesão que até então eu fui, aproximei-me da ideia do falecimento da minha irmã, também há um ano e meio. Embora eu já tivesse perdido outros familiares, e, racionalmente, muita coisa soubesse sobre a morte, foi no velório da Graziela, contudo, que eu percebi que os meus sentimentos e a morte não estabeleciam diálogo. Desde lá, essa questão-ferida permaneceu aberta. Então, vi-me cativo dessa ideia que atrelava a descoberta da minha ignorância em relação à morte, revelada, infelizmente, pela perda da minha irmã, ao cinismo em respeito ao meu próprio trabalho.

Como nem sempre acreditamos ser verdadeiro tudo que pensamos, visto que nossas ideias podem ser adequadas ou inadequadas, questionei a pertinência da relação entre os dois males estares que há mais e um ano conviviam em mim. Entretanto, uma vez feita tal relação, eu não conseguia mais tirá-la da cabeça: seria a morte da minha irmã a causa do efeito apático que atravessa a minha vida profissional? Mesmo sem essa resposta, mas instigado pela sua necessidade, fui levado a pensar no direito à existência que as ideias, uma vez ideadas, angariam para si.

Depois de anos de psicanálise, aprendi que tudo o que é dito por nós conquista entidade e, a partir de então, passa a existir entre as demais coisas. Inclusive um inocente ato falho, isto é, um equívoco na fala ou na memória, é considerado uma ação precisa do inconsciente no sentido de expressar sentimentos que, sem a inicial aparência de erro, não teriam lugar na realidade. Portanto, tudo o que é falado ou pensado, ou melhor, tudo o que se se estrutura e se expressa através da linguagem, mesmo que, a princípio, pareça uma besteira, põe-se irremediavelmente no mundo, e, doravante, com essa existência temos de lidar.

Entretanto, as ideias ou discursos que pomos no mundo, embora sejam produções nossas, não podem ser tirados com a mesma facilidade com que são colocados. Uma vez pensado que, por exemplo, invejamos ou desejamos determinada pessoa ou coisa, esse ser, de alma sentimental e corpo linguístico, resiste às nossas investidas para “desaparecê-lo”, como se fosse um império autônomo. Sendo assim, de onde tais seres sentimentais-linguísticos angariam independência, a ponto de não poderem mais ser retirados por aqueles que os colocam?

O esquecimento, com efeito, é uma estratégia para lidar, contudo covardemente, com ideias cujos conteúdos são indesejados ou insuportáveis. Esquecer não é padecer passivamente de um logro à memória, mas uma atividade deliberada do inconsciente no sentido de ofuscar uma existência mental determinada. Ora, não é por não mais lembrarmos de alguma coisa que ela não existe! Aliás, o esquecimento depõe conta si mesmo: por um lado, apontando para o vazio deixado por aquilo que foi olvidado, e, por outro, colocando sob terminante suspeita o conteúdo fujão.

Entretanto, se a existência de algum pensamento não pode mais ser tirada por aquele que a pensou – pelo menos sem a covardia engendrada pelo esquecimento -, essa criatura mental ou já é um ser independente do seu criador, ou, ao contrário, é o novo modo de ser desse que a pensa. Na primeira hipótese, a autonomia do ideado nos deixa de mãos atadas. Na segunda, entretanto, o pensado continua sob a jurisdição do pensante, ainda que este não perceba essa intrínseca relação.

Então, não é pela independência, em relação a nós, de um pensamento que queremos ver desaparecido, que ele desaparecerá. Antes, esse é o seu mais subversivo modo de sobrevivência. Inversamente, é concebendo todos os nossos pensados enquanto o rol de argumentos de um único diálogo, íntimo, do pensamento consigo mesmo, que podemos contra argumentar uma ideia ruim, inadequada, e quiçá vencê-la através de ideias melhores, mais adequadas.

Em respeito à morte da minha irmã ser causa do efeito apático na minha vida profissional – ideia que eu não consigo mais fazer inexistir -, decorre uma outra, que tampouco pode ser excluída, e que por isso mesmo deve ser integrada ao diálogo aberto há um ano e meio pela a morte da Graziela, e que permanece inconcluso até aqui, na aparente morte do artesão que eu sou. Essa nova ideia é a seguinte: para entender a morte em si, e assim entender a morte da minha irmã, eu precisava experimentar a morte em mim – porém, obviamente, em vida. Só desse modo eu poderia dar a essa abstração que é a morte uma concretude que lhe fizesse jus.

Logo, para sentir verdadeiramente a morte da minha irmã, foi preciso sentir a morte de algo extremamente vivo e necessário em mim: a minha vida profissional. De fato, apenas a angústia proveniente dessa última morte se aproximou da angústia da primeira, sem, no entanto, abarcá-la totalmente. O falecimento da Graziela tornou tácito que eu nada sabia da morte, mas que precisava saber, pois, apesar da ausência da ideia da morte em si, com a qual eu convivera despreocupadamente por tanto tempo, a presença da ideia da morte da minha irmã não tinha mais como ser tirada, e em relação a esta eu era todo preocupação. Portanto, foi preciso ensaiar uma espécie de morte, em mim mesmo, entretanto, até onde a vida permitiu.

Todavia, a minha conclusão, a partir do laboratório mortífero que durou mais de um ano, é que a morte em vida é muito pior do que a morte em morte. Experimentar a morte em vida só é possível às custas do que vive. Já a morte, na morte, nada mais tem a ver com a vida. Epicuro tinha razão: a morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais. Laboratoriando a morte, eu fui apenas um canastrão, encenando um pós-vida que, no entanto, de forma alguma poderia ser tão sofrível, pois o sofrimento, bem como todos os outros sentimentos, só são na vida, e não na morte.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s