Dessubstancializações contemporâneas

Dessubstancializações contemporâneas

Žižek, ao falar da “dessubstancialização das substâncias essências das coisas”, concretamente realizada no café descafeinado, no leite sem gordura, na cerveja sem álcool, etc., toca na alienação sistemática do homem contemporâneo em relação ao que é essencial. Trata-se, segundo o filósofo, não de medir a quantidade da coisa consumida pela sua qualidade, mas de privilegiar a quantidade em detrimento da qualidade. A joia-da-coroa atual, aponta Žižek, é o chocolate diet com laxante: veneno e antídotos, juntos e disponíveis à pós-moderna vontade comer, porém, estrategicamente dissociados dos efeitos desse consumo, justamente por não se pautar pelas coisas em si, mas pela presença de suas ausências.

As relações de amizade como as conhecemos estão sendo esvaziadas, por exemplo, pelo massivo relacionamento em rede social virtual. Amigos, hoje em dia, também são coisas rasas, impessoais, distantes e inodoras, corroborados, não obstante, pela abjeta acessibilidade disponível em um simples clique. Os convites virtuais – para eventos que prometem ser reais – que pupulam nas timelines facebookianas são o ícone da dessubstancialização dos encontros entre pessoas. Agora, os “amigos” só precisam confirmar presença nos eventos para sentirem que confraternizam com os demais. Ir até eles, fisicamente, é apenas a cereja, absolutamente dispensável, quiçá indigesta, do imenso bolo diet dessa nova socialização esvaziada de sociabilidade.

Os eventos do Facebook, portanto, encontram suas mais expressivas substancialidades nos seus convites, e os seus mais abissais esvaziamentos, nos eventos em si. Afinal, na babilônia contemporânea, só comparecendo ao ato do convite é possível participar de todas as convocações! Apenas ali todos os “amigos” se encontram, pois todos, com efeito, comparecem efetivamente ao convidamento, mas não ao encontro propriamente dito. É como se a ágora contemporânea, cada vez mais virtual, num movimento diametralmente oposto à grega antiga, se constituísse pela ausência física das pessoas, ou, o que dá no mesmo, nas suas exclusivas presenças virtuais. Desse modo, o espaço oficial de convivência pode ser dessubstancializado de sua substância essencial, qual seja: a convivência.

Esse esvaziamento substancial a outro lugar não nos leva senão ao empanturramento com vazio; à saciedade, entretanto, alcançada através do nada das coisas. Entretanto, para lidarmos com essa realidade dessubstancializada, precisamos necessariamente de uma postura e de uma nova gramática. Ora, se chamamos de “X” aquilo em que não há mais “X” algum, além de falarmos de quimeras, queimarmos as nossas preciosas e precisas palavras com aquilo para o que elas não servem mais. Somente quando realizarmos que, por exemplo, o café sem cafeína não é café, mas uma “coisa” outra, que por sua vez precisa de um outro nome e de uma outra ideia, o café, ele mesmo, terá a sua essência preservada. Assim, nós, as palavras, bem como aquilo a que elas referem, seja café, seja amizade, estaremos todos protegidos da dessubstancialização, do esvaziamento, do nada.

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