#JenesuispasZiraldo

É da essência do cartoon veicular, não sem espirituosidade e ironia, verdades – ou pelo menos algo delas. Aliás, é precisamente esse quê de veracidade que corrobora o desenho crítico. Entretanto, nem sempre o cartunista alcança tal objetivo, seja nos seus cartoons, seja nas suas próprias ideias. Ziraldo, um dos mais conhecidos chargistas brasileiros, em uma entrevista à Record, falou uma asneira absolutamente desnecessária sobre homossexualidade. Nem se ele tivesse desenhado belamente a sua opinião ela mereceria ser contemplada.

Pois bem, sobre a relação lésbica – de terceira idade – entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, da novela Babilônia, da Rede Globo, Ziraldo disse: “A Fernanda Montenegro não tem direito de fazer apologia do afeto homossexual com esse personagem em Babilônia. Mesmo que ela estivesse pensando em ajudar as famílias dos homossexuais, isso não daria resultado. Afinal, qual é a porcentagem de mães de homossexuais? Talvez gere ainda mais preconceito”. Eu não assisto a essa novela, mas em uma ou outra coisa que li – longe das redes evangélicas – a partir da polêmica que ela abriu à opinião pública, foi ressaltado a dignidade e a naturalidade com que as atrizes tratavam a homossexualidade de suas personagens.

Entretanto, em primeiro lugar, Ziraldo esqueceu que Fernanda Montenegro não é uma apologista, e sim uma atriz. Com o mesmo direito com que representou inúmeros tipos, desde nordestinas pobres até paulistanas ricas, a maior atriz brasileira tem todo o direito de representar também tipos com orientação sexual “hetero”, “homo” ou “bi”, sem que isso signifique que ela preste algum desserviço aos gêneros os quais interpreta, tampouco aos seus relativos. Ziraldo defendeu ferrenhamente o direito de Charlie Hebdo desenhar Maomé como bem entendesse, mas, à Fernandona, nega o direito de ela desenhar os tipos que representa. Coé a tua bro?

Em segundo lugar, mas não menos importante, escapou da “filosofia” de Ziraldo a existência de mães homossexuais. Assim como as heterossexuais, que em todas as novelas tem representantes suas nos núcleos principais, as mães homossexuais ganham igual reconhecimento ao se verem representadas na televisão, ainda mais pelas consagradas Fernanda Torres e Nathália Timberg. Entretanto, o que o cartunista quis dizer na sua infeliz colocação é que menos preconceito seria gerado se fosse mantido, na ficção, o arraigado protagonismo de personagens heterossexuais; que melhor à questão da homossexualidade é ela ser “desaparecida” da vista do grande público; que falar de homossexualidade não “ajuda”.

Em terceiro lugar, ainda que se tratasse de “ajuda”, como quer Ziraldo, o fato de o cartunista dizer que reconhecimento, respeito e representação devem surgir somente a partir de determinado contingente estatístico – “Afinal, qual é a porcentagem de mães de homossexuais?” – é ainda mais sério. Por essa lógica, todas as minorias só mereceriam ser “ajudadas” desde que se tornassem maioria, o que é ou um absurdo, ou pura desumanidade. Todavia, Ziraldo se esquece de que um folhetim, ainda mais um da Globo, muito antes de querer “ajudar” seus telespectadores, deseja, sobretudo, entretê-los. Ademais, a “ajuda” engendrada nas novelas é financeira, mediada pela publicidade, dos telespectadores à conta bancária da concessão televisiva.

Portanto, seria bom que Ziraldo tivesse ficado de boca fechada em relação à homossexualidade de mães senhoras folhetinescas – no mínimo, em consideração às mães senhoras homossexuais reais das quais ele, infelizmente, não tem estatística Deveria ter permanecido desenhado suas maluquices apenas no seu famoso Menino. No entanto, mesmo desenhada, uma barbaridade ainda é perigosa, e inclusive indesejável. Os doze mortos no atentado ao Charlie Hebdo, há exatos quatro meses, são prova disso.

Se no atentado parisiense Ziraldo retweetou  #JesuisCharlie, para com isso defender as liberdades de imprensa e de expressão, no atentado homofóbico que ele mesmo promoveu na evangélica Record a sua nova “hashtag” resulta assim: #Jenesuispasmãeslésbicas. Como eu não aderi ao #JesuisCharlie, por achar que nem tudo o que pode ser imaginado merece ser desenhado, outrossim, pelo fato de  acreditar que nem tudo o que é pensado deva ser dito, adiro aqui ao #JenesuisopasZiraldo. Reforço, com isso, a minha crença de que nenhuma expressão é digna conquanto pretenda furtar a livre expressão da diversidade, principalmente das minorias não contempladas pelas estatísticas oficiais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s