Rastros dos rastros dos rastros da felicidade

Um amigo budista me disse que, desejando-se a felicidade, devemos seguir as pistas que a vida nos dá, pois somente nelas, e a partir delas, é que a ventura se revela e se realiza. Disse-me ainda que, enquanto estivermos cegos à tais pistas, circunvagaremos por caminhos que a outro lugar não levam senão à tristeza. Pois bem, como eu desejo ser feliz, e não triste, e constatando que a minha busca por felicidade segue sistematicamente os juízos últimos que faço da vida, e não as pegadas que ela primeiramente coloca diante dos meus passos, achei que devia procurar por tais indícios.

Então, imaginei que bastaria olhar em volta para perceber os rastros que me levariam à desejada bem-aventurança, como se eu estivesse partindo de um deserto estéril, em cujas areias alisadas pelo vento estaria riscada, clara e distintamente, a trilha da minha felicidade – essa égua selvagem sempre fugidia. Porém, diferente do cenário que eu projetei à epopeia venturosa a ser empreendida por mim, ao meu redor insistia, indiferente e imperiosa, a selva de pedra urbana de sempre, povoada de pessoas, de descaminhos e, sobretudo, da miríade de marcas densamente sobrepostas, para todos os lados e em todas as direções.

Não é que eu deixe de atentar às pistas que a vida, segundo o amigo budista, tem para me dar, senão que elas, anãs que são, permanecem ocultadas pela multidão de gigantescas confusões que mais desviam da felicidade do que atalham a ela. Como, então, seguir tais pistas se elas são pisoteadas antes mesmo de serem notadas? Eu mesmo, na minha fuga peripatética para longe da tristeza, inadvertidamente sulco a terra em tantos outros sentidos, apagando o mapa que me levaria ao acampamento da minha felicidade cigana, e, sobre o borrão que dele resta, riscando rotas de emergência.

Antes de seguir os felizes indícios que, Buda afirma, a vida me dá, preciso, não obstante, encontrá-los. Devo, portanto, procurar primeiro por pistas que me levem às pistas daquilo pelo que procuro, ou seja, a felicidade. Ingenuamente, achei que a evidência da evidência fosse mais fácil de ser encontrada. Entretanto, o mistério não desapareceu, mas se antecipou, todo ele, no meu estratégico passo antecedente. Porventura deveria eu repetir a operação e procurar por pistas que me levassem às pistas das pistas da minha felicidade? Desconfiei dessa investigação que, à medida em que a solução era vislumbrada ao longe, desdobrava o seu mistério e duplicava o percurso a ser percorrido.

No entanto, a dificuldade em achar o rastro do rastro que levaria ao rastro da felicidade não revelava mais dificuldade. Antes, era a projetação da dificuldade primeira, contudo, nos passos que eu fazia anteceder a já difícil caminhada. Ora, o caminho que leva ao caminho é ele mesmo o próprio caminho. Dividi-lo em muitos estágios, como que em preâmbulos, não encurtará a promenade. Pelo contrário, apenas fará do paraíso uma terra ainda mais distante.

Sendo assim, a pista feliz, que o meu amigo budista afirmou que a vida sempre dá, e à qual basta atentar para se alcançar a felicidade, não deve ser procurada, pois, vasculhando por ela, nos tornamos cativos do círculo vicioso que, a cada ciclo seu, distancia-nos um passo do objetivo primeiro. Para estar livre das charadas da tristeza, portanto, mais vale se embrenhar em qualquer carreira, sem medo de que se trate de um desvio, pois mais vale errar na busca pelo acerto do que se afastar da tentativa. Desconfio, agora, que, talvez, a única pista que a vida nos dê, de fato, seja a de que a felicidade é o destino do qual não conseguimos nos desviar. Todo resto é apenas álibi peripatético.

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