Vontade e desejo em Spinoza

A única coisa de que não precisamos ter vontade é de ter vontade, pois já a temos, ao modo de sê-la, a despeito dos objetos determinados nos quais ela deságua em forma de desejo. O problema é que tomamos, inadvertidamente, a foz do desejo pela nascente da vontade, como se as coisas específicas que desejamos desejassem primeiro serem desejadas, para só então nós termos vontade delas. Cativos desse engano, elegemos, a partir da nossa plena liberdade, um senhor do qual, doravante, seremos escravos. Por isso é fundamental conhecer a diferença entre vontade e desejo, ou, do contrário, invertendo a hierarquia entre eles, ou ainda fazendo dos dois uma coisa só, circulamos peripateticamente, quiçá avançamos, no entanto tortuosamente, no rio da nossa existência individual.

Para o filósofo Baruch Spinoza, a vontade é a capacidade de afirmar e de negar coisas em geral, antes de elas serem coisas específicas. O desejo, por sua vez, afirma ou nega coisas bem determinadas, pois sua função é saciar necessidades outrossim já determinadas. A vontade, diz Spinoza, é um ente universal, aquilo que é comum a todos os desejos particulares, isto é, uma ideia que explica e sustenta todos eles, e, por conseguinte, não suporta peculiaridade alguma. Somente quando a vontade esclarece-nos a que ela se dirige, ou seja, afirma ou nega uma coisa qualquer, é que surge o desejo. Portanto, quanto temos consciência do que queremos, desejamos. Em contrapartida, enquanto não temos tal consciência, eis a vontade em sua abertura absoluta.

Sendo assim, ao pensarmos que temos vontade, e não desejo, de, por exemplo, comer (batatas-fritas), rezar (a Ave-Maria), amar (a fulano), outra coisa não fazemos senão achatar a universalidade tridimensional da vontade no plano específico do desejo. Spinoza afirma que os homens, ao dizerem que suas ações deliberadas são suas próprias vontades, pronunciam palavras sobre as quais não têm a mínima ideia, pois, ignoram, todos, o que seja a vontade e como ela os move. O filósofo sustenta ainda que, por serem conscientes apenas de seus desejos e dos meios através dos quais realizá-los, as pessoas creem que são livres, mas nem em sonho conhecem a causa, isto é, a vontade que primeiro as dispôs a desejar.

Podemos dizer, então, que a vontade é a abstração, necessária e a priori, daquilo que será, a posteriori, concreto e consciente a ponto de poder ser desejado, todavia apontado pelos nossos sentimentos cotidianos. Como disse Spinoza, a saudade, por exemplo, é o desejo de uma coisa passada; a ira, o desejo de fazer mal a quem odiamos; o temor, o desejo de evitar um mal; a polidez, o desejo de fazer o que agrada aos outros; a ambição, o desejo de glória; a gula e a embriaguez, desejos por comida e por bebida; a luxúria, pela união dos corpos; e assim por diante. Entretanto, é da necessária inconsciência da vontade que nascem todos os nossos desejos particulares.

Para Spinoza, o desejo é a própria essência de cada um de nós à medida que ela é concebida como finita e determinada, ao passo que a vontade é essa mesma essência, porém, infinita e resistente a qualquer determinação. Quando, por confusão nossa, determinamos a vontade, a contrassenso dela, para que funcione como um desejo qualquer, emulamo-nos, isto é, produzimos, pervertidamente, em nós mesmos, desejos, ou porque é mais prático lidar com algo concreto do que com uma abstração, ou pelo simples fato de outros terem tais desejos – como quando desejamos fugir porque vemos outros fugirem, ou tememos ao ver outros temerem.

Com efeito, não há nada de errado em sentir ou desejar algo conquanto isto seja expressão da nossa vontade, ou seja, do nosso inalienável poder de afirmar ou negar as coisas. No entanto, quando tomamos um desejo particular como se fosse a vontade – em si universal – deixamos de ser os senhores do infinito indeterminado que reside em nós mesmos, de cujos confins brota a miríade de desejos, todos genuínos, embora determinados, dos quais somos afetados, para então nos tornarmos escravos subservientes do latifúndio dos desejos, sejam os nossos, sejam os dos outros.

Ora, como existe um universo de desejos particulares em cada ser dotados de vontade, e, conforme Spinoza, como há tantos desejos quantos são os objetos a serem desejados, do império determinante dos desejos não podemos esperar uma democracia, mas, antes, uma tirania egoísta na qual o pragmatismo de uns se sobrepõe aos demais. Entretanto, com a vontade, cuja natureza universal e livre de determinações viabiliza não só o surgimento de todos os desejos particulares como também as suas realizações, com ela podemos, e sobretudo devemos, formar comunidade. Para concluir, parafraseando Spinoza, não é porque desejamos alguma coisa que temos vontade dela, mas, ao contrário, é porque temos uma vontade do tamanho do universo, sempre primeira, que coisas podem ser, sempre posteriormente, objetos de desejo.

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