Cachorros, pastéis e barbaridades

Rolando o feed de notícias do Facebook, passei os olhos sobre uma postagem que falava de uma lanchonete carioca, porém, de chineses, reutilizando cachorros-quentes na preparação dos seus salgados, o que pareceu mais oportunista do que nojento. Como outros posts me aguardavam logo abaixo, segui adiante sem maiores considerações. Porém, um dia depois, aquela mesma notícia reapareceu várias vezes no mural, o que me levou a relê-la. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que não eram cachorros-quentes, mas sim cachorros que haviam sido usados para rechear os salgados da tal pastelaria.

Imediatamente, intriguei-me pelo fato de ter lido “cachorros-quentes” onde estava escrito somente “cachorros”. Porém, a justificativa que encontrei é que eu jamais imaginaria que carne de cão e pastéis pudessem estar juntos, fosse numa notícia, fosse numa lanchonete, ainda mais em uma na qual eu bem poderia ter ido – se é que não fui. Entretanto, num segundo momento, diante da gravidade do fato, indignei-me tremendamente pelo fato de cachorros terem sido mortos e moídos em troca de, no máximo, três reais o pastel. Por fim, senti nojo ao imaginar a imundície e o perigo à saúde em se consumir carne de um animal urbano, que se alimenta de restos não menos urbanos.

Entretanto, duas considerações bastaram para que eu relativizasse o asco e a indignação que sentia. A primeira delas é que carne de cachorro, ao contrário dos nossos hábitos ocidentais, é consumida normalmente na Ásia, e, sobretudo na China, é uma iguaria oferecida em ocasiões especiais, dita inclusive benéfica para a saúde. Ora, a minha náusea carioca diante do picadinho de cão outra coisa não é que uma frescura cultural. Ademais, se eu tivesse conhecido mais da Ásia além da parte não europeia de Istambul, provavelmente teria provado do bicho, no mínimo, por curiosidade. Então, nojo de carne canina não deveria mais se seguir da polêmica notícia.

Porém, restava ainda a indignação pela morte dos cães. Por que os donos da pastelaria não usaram carne convencional, digamos, da Friboi, ou qualquer outra que se encontra nos supermercados? Então, em segundo lugar, percebi que a minha revolta contra a morte dos cachorros desapareceria caso se tratasse de peixes, frangos, porcos, etc. Ora, no Rio Grande do Sul, de onde eu venho, mas não só lá, as pessoas se se deliciam com um bom churrasco, no entanto, de carne de vaca. Diante de uma suculenta picanha, o gaudério civilizado pouco ou nada se importa com a morte de uma vaquinha.

O fato de, aos meus olhos civilizados, significar uma barbárie matar cachorros para que pastéis sejam recheados apontou para o bárbaro escondido em mim, todavia, do qual me alieno ao sustentar que matar vaca pode, cachorro não! É exatamente essa barbaridade dissimulada que eu alimento sempre que como, por exemplo, um inocente quibe-cru, uma modesta esfirra de frango, um saudável Sushi, e não me insurjo contra a morte dos animais usados nestes quitutes, mas, pelo contrário, deleito-me com os sabores de suas carnes – mortas. Portanto, a indignação com o canicídio da pastelaria carioca-chinesa é só mais uma demão de civilidade com a qual sigo envernizando a minha barbárie inconfessa.

Ora, não foi à toa que, na primeira vez em que passei os olhos sobre a notícia, eu me privei de encarar que, com efeito, se tratava de cachorros. Em troca, o pretenso civilizado que eu sou leu, estrategicamente, “cachorros-quentes”, pois assim os cãezinhos mortos dos pastéis não me levariam às vaquinhas mortas dos meus churrascos, e, por fim, eu não precisaria me deparar com o barbarozinho alienado que se oculta em mim, cuja resistência habilmente contextualizou tanto o consumo quanto a morte dos cachorros cariocas. Difícil, contudo, é reprovar a costelinha de porco que eu terei em seguida para o almoço da mesma forma como desaprovei o pastel canino carioca-chinês. Que barbaridade!

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