Ciência, Psicanálise, e Eu.

O físico alemão Werner Heisenberg esbarrou com um paradoxo crítico: quanto mais pesquisava alguma coisa, menos do que era analisado era descoberto, e mais daquilo que ele próprio desejava encontrar era evidenciado. Logo, o limite de suas respostas atendia ao seu desejo, todavia expresso em perguntas científicas. Saciar uma dúvida, portanto, outra coisa não visa senão à origem curiosa que a fomenta. Como quem pergunta é sempre um Eu, a verdade, com efeito, é o antídoto desse Eu contra aquilo que o inquieta.

Na psicanálise, contudo, nenhuma verdade afora o próprio Eu analisado permanece muito tempo no consultório. Porém, quando é inquirido pelo psicanalista, esse Eu primeiramente procura por respostas às suas questões fundamentais naquilo que ele não compreende do mundo, em seguida nos outros, e por fim nas coisas, na quimérica esperança de que algo que não ele mesmo explique o caos que angustia e ameaça a sua harmoniosa ideia de Eu.

Entretanto, esse Eu que, por um lado, adora se esconder de suas próprias perguntas, mas que, por outro, é o único que permanece até o final de todos os questionamentos, esse Eu é apenas uma ficção funcional, não existindo para além da colcha de retalhos de suas próprias experiências. Acreditamos possuir o um Eu simplesmente porque alguma coisa acompanha todas as nossas perguntas, ou, como diria Kant, todas as nossas representações. Porém, sem perguntas nem representações não há nada através do qual um eu possa existir.

Todavia, encontrar réplicas que não o Eu às interrogações fundamentais, fim da ciência, mas não da psicanálise, serve, contudo, para livrar esse Eu de confrontar-se com sua própria contingência. Por conseguinte, recusando-se como resposta última às suas questões profundas, além sustentar a ilusão da existência, o Eu lucra com um mundo de coisas cientificamente comprovadas e de muita utilidade.

Entretanto, a estreita via dos dados científicos, das precisões milhonesimamente aferidas, leva para longe da ágora qualitativa que reúne, a um só tempo, as verdades universais, a quimera apelidada de Eu, e a eterna polêmica entre elas. Kant coloca que a verdade sobre o universo é o que jamais alcançaremos enquanto carregarmos essa contingência chamada Eu, visto que as coisas não existem para nós, quiçá para elas mesmas.

Freud, o pai da psicanálise, por sua vez, diz que o Eu é aquele que quer se livrar do desconforto de suas próprias perguntas, mas também aquele que deseja se satisfazer com as respostas que encontra. Portanto, as verdades com as quais o Eu freudiano se depara em suas tentativas de existir são, por um lado, o que o inquietam, e, por outro, o que o apaziguam. Entretanto, no divã, esse Eu não desvelará os segredos do universo, mas, com sorte, sua inconsistências.

Ora, se, como diz Kant, o Eu é uma ilusão funcional, permiti-lo no laboratório científico é deixar que a ficção inquira a realidade, o que é um absurdo. Ou ainda, se, como pensa Freud, o Eu é apenas uma instância dialética que faz do universo ora uma falta angustiante, ora uma recompensa prazerosa, no divã esse Eu só potencializará sua histeria intrínseca.

A ciência tem por função corrigir a relação problemática que o pensamento estabelece com as verdades universais da qual a ilusão do Eu é plateia cativa, porém, acusando esse Eu ficcional por gerar tal problema. Já a Psicanálise se interessa mais pela relação polêmica do pensamento consigo mesmo, todavia, a partir do que ele padece por preferir-se às verdades universais, isto é, fazer delas moeda de troca da sua economia do prazer.

Se, como afirmou Heisenberg, o Eu insiste em ser resposta às suas próprias perguntas, Kant tinha razão em afirmar que a única ciência digna do Eu é a lógica, cuja equação final é sempre o árido Eu=Eu. Para este filósofo, o Eu principia e finda necessariamente no princípio da identidade, e, fora disso, é apenas ficção. Para Freud, a ciência do Eu é psico-lógica, pois só esta abarca o absurdo Eu≠Eu, todavia, até que essa diferença se reconheça enquanto fuga da identidade fundamental na qual, sempre, Eu=Eu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s