Adão, do paraíso à sociedade civil 

Deus proibia Adão de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal para preveni-lo, sobretudo, do medo da morte. Enquanto eram apenas Deus e Adão, este, por saber que a natureza divina era infinitamente mais perfeita e providente que a sua, não tinha motivos para desobedecer àquele. Porém, quando Eva desembarcou no paraíso, Adão apaixonou-se, não só por ela, mas também pela própria natureza humana em si, preterindo, por conseguinte, Deus, a Sua sobrenaturalidade, e principalmente a Sua única proibição: não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Adão inebriou-se com Eva, e depois, com tudo aquilo cuja natureza aproximava-se da sua, até ceder à sedução da serpente que o levou para longe de Deus e de Sua Lei. Pecou, comeu a fruta proibida, soube da própria morte, e foi expulso, juntamente com Eva e a serpente, do paraíso. Por ter se alimentado do bem e do mal, Adão, doravante, teria de, solitária e individualmente, decidir o que era bom e o que era mau, a cada novo passo, assombrado pelo novo e inexorável fantasma que Deus, até então, havia escondido dele: a consciência e o medo da morte.

Uma vez caído no mundo, coube a Adão fazer o possível e o impossível para preservar a si mesmo, e isso, claro, sem a ajuda de Deus. Essa orfandade foi batizada de estado natural, conquanto, sem Deus, restou somente o homem e os limites de sua própria natureza. Diferente do estado paradisíaco, o estado natural, contudo, não estipula previamente o que é bom ou mau. Antes, bem e mal devem ser decisões arbitrárias e individuais que o homem, em cada momento da vida, deve tomar, todavia, sem certeza alguma de que suas escolhas afastam ou aproximam a temida morte.

No estado natural, portanto, não mais é pecado escolher entre o bem e o mal, mas uma obrigação mundana que, não obstante, significa castigo divino. Ora, não havendo bem nem mal absolutos, cada um podia, e sobretudo devia, decidi-los por si, e a partir disso fazer o que pudesse para evitar o derradeiro, inclusive, caso necessário, matar outro homem. No entanto, quando os homens podem tudo para evitar a própria morte, uns correm o risco de serem mortos pelos outros. Diante dos riscos inerentes ao estado natural, portanto, se fez necessária uma nova Lei, todavia humana e não mais divina, que impedisse uns de matar os outros.

Então, emigrando do estado natural, o homem se estabeleceu no estado civil, cuja lei primeira exige que todos cedam parte do seu direito natural, principalmente aquele que os autoriza a matar outros homens. Abdicando do direito natural de decidir, individualmente, o que é bom e o que é mau, e de agir exclusivamente conforme suas paixões, o homem confiou sua preservação ao estado civil que obrigava todos a cumprirem uma mesma Lei, e, mais importante, punia severamente aqueles que a desobedeciam.

Ora, para que houvesse paz entre os homens era preciso que todos renunciassem do seu direito natural e investissem em abstrações tais como justiça, equidade, lealdade, obediência, etc. Tais ideias outra coisa não são que o próprio estado civil, dentro de cujas fronteiras há um arbítrio absoluto acerca do que é o bem, o mal, a justiça e a injustiça, numa espécie de arremedo desesperado de Lei divina. Saudoso da proteção de Deus que o alienava da morte, e preocupado com a sua, o homem passou a cultivar o estado civil como se se tratasse daquele estado paradisíaco perdido em cujo solo vicejava a divina árvore do conhecimento do bem e do mal da qual ele nunca deveria ter experimentado.

Portanto, comer o fruto dessa árvore da civilização, que só nasce no solo do estado civil, e escolher, individual e arbitrariamente, o que é o bem e o que é o mal, deve ser tão proibido ao homem como outrora, no paraíso, era consumir da árvore divina. Abandonados por Deus e ameaçados por sua própria natureza, os homens criaram um paraíso artificial para si mesmos, isto é, um estado civil, um Leviatã que, com suas Leis, promete amenizar o medo da morte.

O paraíso humano durou até quando Adão respeitou a natureza divina. Infringida a Lei dEle, o homem tornou-se um cidadão selvagem no seu próprio estado natural, cujo usufruto lhe obrigava a decidir, de acordo com a necessidade, o que era bom e o que era mau. Porém, como no mais da vezes o mau lhe parecia bom, o homem percebeu que não estaria seguro junto aos seus. Precisou, portanto, reeditar a proibição divina de não desfrutar livremente do conhecimento do bem e do mal, o que resultou na sociedade civil, ou seja, na tentativa de restaurar a ordem paradisíaca perdida na qual a morte, mas também a natureza humana, são males menores.

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