Uma filosofia do ciúme

O ciúme não é um sentimento puro, mas, segundo o filósofo Spinoza, um composto volátil e de difícil administração entre amor, ódio, tristeza e inveja. Ora, basta ter amado alguém verdadeiramente para saber do que se trata essa bagunça atordoante de sentimentos que o ciúme engendra. Porém, só sentimos ciúme de quem amamos e porque amamos. Seria, então, o amor, ele mesmo, a causa do ciúme, ou, em vez disso, tal causa venha de outro afeto, que, passando-se por amor, contamine a mais sublime das nossas paixões?

Spinoza diz que quando eu imagino o ser amado ligado a um outro com o mesmo vínculo com o qual só eu o desfrutava, primeiramente sou afetado de tristeza pelo fato de o meu amor amar também a um outro. Em seguida, sinto ódio, contudo triplo: do ser que eu amo, por este não amar somente a mim; desse outro que, contra a minha vontade, deleita-se do meu amor; e, inclusive, do par que ambos formam a despeito de mim. Por fim, padecerei de inveja desse outro porque, ao mesmo tempo em que ele é amado por quem deveria amar somente a mim, também desfruta, a seu bel-prazer, do meu objeto de desejo.

A intensidade da tristeza que o ciúme provoca, coloca Spinoza, é diretamente proporcional à alegria que o ser que eu amo provoca em mim. Então, antes mesmo de o ciúme vir à tona sua amplitude já me aguarda, sorrateiramente. Logo, pelo fato de esse amor presente ser a medida exata do meu ciúme futuro, portanto da minha tristeza, ódio e inveja, começo culpando e odiando o ser amado pelo meu infortúnio, pois, como disse Spinoza, o ódio é uma tristeza acompanhada da ideia de uma causa exterior. Imediatamente fora do meu ciúme está o ser que eu amo. Vasculhando essa exterioridade, por conseguinte, deparo-me com esse outro que, a contragosto meu, também é amado pelo ser que eu amo, e a este também culpo e odeio.

Agora, pelo fato de eu odiar àquele que amo, porquanto ele ama também a um outro, esse ódio passa a fazer parte do meu relacionamento, e, doravante, não mais me relacionarei com o ser amado da mesma maneira, isto é, só pela via do amor, mas também pela via do ódio. Ademais, ao odiar a cópula entre o meu amor e um outro, não autorizando, com isso, a felicidade que eles dois usufruem a despeito de mim, desaprovo, consequentemente, a alegria que o meu amado encontra independente de mim. Ora, entristecer-me com as alegrias do ser que eu amo, sejam elas quais forem, não tem como ser motivo de felicidade para ele.

Porém, é bom não esquecer que, apesar de ser um “mix” de sentimentos pouco alegres, e inclusive baixos, o ciúme é uma queda a partir do alto de uma Atlântida amorosa, isto é, do topo de um amor verdadeiramente sentido. Como o amor, para Spinoza, outra coisa não é que uma alegria acompanhada da ideia de uma causa externa – portanto algo que eu, por esforço individual, não posso causar em mim mesmo – o ser amado divide comigo o protagonismo da minha felicidade. Por isso o responsabilizo, e o odeio, pela tristeza que ele me causa por amar também a um outro e não somente a mim.

Seguindo a lógica spinozana que diz ser o ciúme que sinto de alguém uma tristeza proporcional à felicidade que o amor que esse mesmo alguém me causa, eu seria levado a pensar que quanto menos amar, menos ciúme sentirei. Entretanto, não é desse amor que fala o filósofo, mas de outra espécie. Diferente do amor que sentimos por alguém, o amor-próprio é uma felicidade que acompanha a ideia de uma causa interior, sustenta Spinoza. Então, se o ciúme é uma afeto que surge em mim conquanto eu mesmo posso produzi-lo, sua causa, portanto, é interna e em função do meu amor-próprio.

Ora, ao atrelar minha felicidade a uma causa interior nada encontro senão eu mesmo, ou seja, o meu próprio ego sempre desejoso de felicidade. Por isso o ciúme é um círculo vicioso egoico que parte da aparente inocência do amor-próprio, contamina o amor que me une ao meu objeto de desejo, e retorna ao amor-próprio, para então recomeçar a roda novamente. Em troca, desinvestindo desse amor a si, e preferindo o amor em si, ou seja, aquele que acompanha a ideia de uma causa externa, não só escapo do círculo das minhas próprias carências como também fruo da liberdade na qual eu e o ser que eu amo não somos as causas exclusivas da felicidade um do outro, mas seres cujas ideias de felicidade acompanham muitas causas.

A família do ciúme, cujos integrantes são o amor, o ódio, a felicidade, a tristeza e a inveja tem o amor-próprio como sobrenome. É desse núcleo instável que surge a ideia de um amor devotado exclusivamente a mim, indiferente a todo resto, ainda que isso resulte, contudo, em infelicidade, tanto a mim como também ao ser que eu amo. Em contrapartida, esquecendo-me de mim e das minhas causas internas, que a outro lugar não levam senão ao amor egoico, para então amar preferencialmente as causas externas que acompanham ideias de felicidade, não tenho como sofrer pelo fato de o ser que eu amo ser feliz não somente comigo. Talvez seja precisamente essa natureza incontrolável e propensa à felicidades que insiste dentro do ser que eu amo, a despeito do meu egoísta amor-próprio, a causa externa que me leva a amá-lo verdadeiramente.

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