Contemporaneísmo

Como será chamada a nossa Idade Contemporânea, inaugurada na Revolução Francesa, quando contemporâneas forem as Idades futuras? Chamar a si mesma de contemporânea é pertinente a qualquer idade histórica: os antigos eram contemporâneos de sua antiguidade; os medievais, do seu medievo; e os modernos, da modernidade. Por nossa vez, também somos contemporâneos da nossa contemporaneidade. No entanto, o fato de rotularmos o nosso período histórico determinado com o nome “contemporâneo” trará dificuldade às contemporaneidades futuras, pois, ou elas terão de se chamar outra coisa, ou terão de roubar, de nós, esse nome.

Ora, daqui a três mil anos, a antiguidade dos gregos, por exemplo, e a nossa contemporaneidade serão igualmente antigas. Entretanto, ambas, cada qual em seu tempo, obviamente, terão sido igualmente contemporâneas. Aristóteles já se diferenciava dos seus “antiquíssimos” chamando a si mesmo de contemporâneo. Ler um Aristóteles contemporâneo de há 2300 anos é experienciar a relatividade da contemporaneidade. Se, por um lado, não podemos negar uma contemporaneidade a cada idade histórica, por outro, não há contemporaneidade que se encaixe noutra senão mediante uma descontemporaneização, no mínimo, de uma das duas.

Somente enquanto contemporâneos de uma época determinada é que podemos saber o que é contemporaneidade; mas somente essa. O que, então, de uma contemporaneidade, é exclusivo dela mesma e, em troca, incompatível com todas as outras? Não temos como saber o que se perdeu das contemporaneidades da antiguidade, do medievo e da modernidade. Outrossim, a essência da nossa contemporaneidade jazerá oculta às demais. Por isso a posteridade crerá piamente que contemporâneas serão as idades delas, e não a nossa, cuja essência, aliás, lhes escapará.

Em remédio a isso, vale perguntar o que, da nossa idade, é já ininteligível a nós mesmos, e que, por conta disso, também será obscuro a todas as outras. Trata-se, portanto, de procurar o ser da nossa época na sua ausência, ou seja, no seu não-ser. O que será a nossa contemporaneidade quando contemporâneo disser respeito, digamos, aos anos 4000? Para responder a isso, entretanto, é preciso invadir a fronteira leste da linha histórica até podermos dialogar com a idade subsequente, para só então saber dela, numa efeméride ao estilo “O Feitiço de Áquila”, o que ela sabe e pensa da nossa.

Quando for virada a próxima esquina das Idades, visto que são tantas as contemporaneidades quantas são as “quebradas de esquina” históricas, a nossa será reduzida a um trecho determinado da linha do tempo. Então, uma vez irremediavelmente cativos dessa abstração, estaremos tão dessubstancializados da nossa contemporaneidade quanto carentes de um novo nome. Para Aristóteles, substância é aquilo que não é predicado de nada, mas que, por sua vez, recebe as predicações. Portanto, a substancialidade da nossa Idade Contemporânea é cognoscível, seja a nós mesmos, seja aos futuros, somente através de suas predicações. Porém, as idades futura nos trarão seus próprios predicados, e o que nos é substancial será visto, por elas, apenas como circunstancial.

Por um lado, fomos extremamente precipitados e redundantes ao nomear a nossa experiência de contemporaneidade com esse mesmo nome. Ora, chamar de contemporâneo um período histórico, sabendo que todos são passageiros, outra coisa não é que adiar a responsabilidade de defini-lo. Agora, por outro lado, e por isso mesmo, autointitularmo-nos “contemporâneos” revela uma espécie de generosidade à posteridade, pois, ao ser dito que somos contemporâneos não dizemos, de fato, nada acerca de nós mesmos. Oferecemos, portanto, mais liberdade aos “futuros” quando estes forem nomear essa nossa idade.

Nossos antecessores da Idade Moderna assim se denominaram porquanto apólogos das modas, por conseguinte, modernos. Desse modo, a contemporaneidade deles, todavia não mais contemporânea, não conflita com o nome sob o qual jaz. Em relação a nós, Umberto Eco, no livro “História da Beleza”, acredita que essa nossa Idade Contemporânea será predicada, pelo porvir, como a da “mass media”, ou seja, a época na qual somente o que é massivamente divulgado é digno de existência. Como se chamará, então, essa nossa contemporaneidade quando ela não for mais contemporânea? Idade da Mídia; Idade Contemporaneísta; ou, em vez disso, a idade daqueles que não disseram outra coisa senão que eram apenas contemporâneos de si mesmos?

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