Nave mãe patológica

Um avião cai nos Alpes suíços matando 150 pessoas. Mais uma das muitas e trágicas notícias com que somos informados sobre o funcionamento da realidade. Um simbólico minuto de silêncio foi tudo o que nós, passageiros da descontrolada nave Terra, pudemos oferecer, afinal, diferente do voo da Germanwings, a vida não parou. Entretanto, num segundo momento, foi divulgado que o copiloto, que estava sozinho no “cockpit”, deliberadamente arremessou a aeronave contra as montanhas europeias. Então, fomos inexoravelmente remetidos àquela velha notícia de somente algumas horas, pois já não se tratava de um acidente qualquer, mas de um acidente da própria natureza humana.

Doravante, a contragosto nosso, não foi mais possível culpar somente os secretos meandros do real pela desventura daquela centena e meia de pessoas, em cujo contingente poderia muito bem estar qualquer um de nós. Então, apressados em absolver a humanidade do sinistro, a especulação subsequente sobre o copiloto limitou-se a duas siamesas opções: ou ele era terrorista, ou doente; afinal, não podemos aceitar que uma pessoa normal e civilizada, e principalmente alemã, pudesse ser responsável por deliberada barbárie. Somente Hitler havia conseguido ser absolutamente terrorista e doente ao mesmo tempo.

Porém, como não foi verificado nenhum envolvimento do copiloto com organizações terroristas – o que nos devolveria de imediato a rota tessitura da nossa crísica contemporaneidade -, restou somente a opção da doença: ou o copiloto sofreu algum mal súbito enquanto voava, ou ele já havia feito o seu “check-in” trazendo na bagagem a sua própria patologia. Para corroborar com esta última hipótese, antes mesmo de os destroços do Boeing serem tocados, a casa e a vida de Andreas Lübitz já haviam sido devidamente vasculhadas.

Todavia, como a vaca profana de Caetano Veloso não nos deixa esquecer, “de perto, ninguém é normal”. Então, meia dúzia de gavetas e de namoradas foram suficiente para construir um psicopata sob medida para assinar postumamente a obra trágica que não gostaríamos de ver na vernissage desse março de 2015. As novas manchetes trouxeram, em letras garrafais, que Lübitz sofria de transtornos psiquiátricos – porque passava por um tratamento psiquiátrico –, simples assim. Todavia, em letras de bula de remédio, foi dito que o copiloto tratava de uma angústia referente a um recente problema de visão, que, em breve, o impediria de ser comandante.

Se Lübitz não fosse nem doente nem terrorista, ele seria apenas um ser humano como outro qualquer, no entanto, revelando, em cadeia internacional, uma conhecida, porém estrategicamente alienada, face da humanidade com cujo “selfie” reconhecemos as caretas que os bichos homens fazem uns aos outros. Portanto, algum erro irredimível deveria ser atribuído somente ao copiloto da Germanwings, pois assim, aos demais seres humanos que copilotam a turbulenta nave mundo não seria informado que dentro da caixa-preta de cada um deles também se entrincheira um terrorista-doente em potencial.

Da mesma forma que muitos ainda tentam provar que foi Geroge Bush o bárbaro-mor do ataque às Torres Gêmeas, a qualquer momento pode ser divulgado que Andreas Lübitz, além de maluco, era também terrorista, afinal, quanto maior o demônio, mais seguro parecerá o paraíso artificial no qual nos refugiamos. Agora, se Lübitz não fosse nem psicopata nem terrorista, mas tivesse padecido apenas de um mal súbito, as nossas certezas sobre o copiloto se voltariam contra nós mesmos. Teríamos, então, num primeiro momento, uma pessoa desmaiando solitariamente numa cabine de controle, para em seguida, no gatilho da tragédia, a humanidade inteira disparar seu terror patológico intrínseco contra um cadáver inocente, chamando-o de doente e terrorista.

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