Ignorância libertária

Um sábio professor da Faculdade de Filosofia me levou ao livro O Mestre Ignorante, do filósofo Jacques Rancière, obra que trata, politicamente, da liberdade. Da leitura resta claro dois tipos de mestre: o “explicador”, com cuja performance estamos bastante habituados, mas que, no entanto, por ser a única fonte a partir da qual emana o saber, merece o adjetivo “embrutecedor”; e outro, o “mestre ignorante”, que, sem ter o que, nem como explicar, conta somente com a vontade dos alunos em aprender, merecendo, com isso, o título de “libertador”, pois assume que o saber não está nele, mas algures. Não pude evitar classificar os meus professores a partir destas duas posturas. Entretanto, mesmo aderindo imediatamente à ideologia libertária do mestre ignorante, reconheci, a contragosto, a sedução oculta dos mestres embrutecedores. Qual seria, então, a resistente vantagem do embrutecimento diante do horizonte da liberdade?

Rancière conta a experiência do professor francês Jacotot que, sem falar a língua dos seus alunos holandeses, e estes, por sua vez, sem falar a dele, mesmo assim alcançou um resultado de aprendizagem muito acima do esperado, ameaçando, dessa forma, a estrutura de ensino sobre a qual a sua sociedade – mas também a nossa – é erigida. Ora, sem falar a língua dos seus alunos, Jacotot nada podia lhes explicar. Restava, então, deixá-los a sós com o conteúdo a ser aprendido. Para a surpresa do mestre isso foi mais que suficiente. Entretanto, tal performance permaneceria oculta caso tivesse sido mantida a tradicional metodologia de ensino que hierarquiza mestre e aluno de acordo com a posse do saber.

Se Jacotot tivesse apenas explicado aos seus alunos o que eles não sabiam, o mestre teria, de antemão, se colocado acima e adiante deles. Esta dianteira, contudo, nunca seria alcançada, pois todo o mestre explicador sempre guarda para si um saber que o aluno não sabe. Só assim este tipo de mestre permanece indefinidamente necessário, porém, ao preço do eterno subjugo do aluno a ele. Por isso não poderíamos chamá-lo de libertador, mas de embrutecedor, uma vez que, sob o pretexto de ensinar, ensinaria, na verdade, que aluno algum jamais saberá mais do que seu mestre.

Agora, pelo fato de não ter explicado nada aos seus alunos, e isso por incapacidade sua, Jacotot assumiu de imediato a sua própria ignorância diante deles, destruindo, com isso, qualquer hierarquia dentro da sala de aula. Não havendo mais o latifúndio do saber, tradicional propriedade do mestre, a ser paulatinamente “usucapiado” pela ignorância passiva dos alunos, restou apenas pessoas em pé de igualdade diante do que elas poderiam ou não aprender, dependendo, contudo, da vontade de cada uma delas. Antes mesmo de os alunos aprenderem algo, para só então galgarem alguma liberdade positiva, eles já foram considerados livres por Jacotot; o que não aconteceria sustentando-se que é somente o aprendizado já dado a carta de alforria.

A ignorância de Jacotot dizia que o saber estava alhures, a ser conquistado livremente, e não homeopaticamente concedido pela superioridade de um mestre qualquer. Rancière nos faz ver que a liberdade é a melhor professora, e a ignorância, sua melhor aluna. Ora, diz o filósofo, uma criança aprende a falar simplesmente ouvindo a língua que é falada em torno de si, sem a obrigação de aprendê-la, mas experimentando-a livremente, a seu bel-prazer e necessidade. Abusando dessa liberdade, como sabemos, todas as crianças dão saltos de aprendizagem dignos de nota. Agora, na escola tradicional, quando à mesma criança é explicada a língua que ela já vinha aprendendo sozinha, sua performance se reduz drasticamente. Há inclusive notas de 1 à 10 para medir o embrutecimento a que o aluno está sujeito mediante a inexorável pressuposição de que só o mestre pode ensiná-lo.

Passando em revista os meus professores, quase só encontrei os do tipo explicador, portanto embrutecedor, pois pouquíssimos são aqueles que fazem de suas próprias ignorâncias a alavanca para libertar os alunos das suas. Antes, do topo da torre de marfim de seus saberes, tais mestres explicam que sempre estaremos presos, não só a eles, mas também ao saber que nos falta. Entretanto, dentre estes docentes embrutecedores, há, contudo, explicadores maravilhosos pelos quais tenho não só grande admiração, mas também gratidão. Ora, uma vez ciente da diferença que Jacotot estabeleceu entre o mestre explicador e o mestre ignorante, como podem os meus mestres embrutecedores ainda parecerem, a mim, libertadores?

É precisamente nessa contradição que reside a histórica supremacia da sabedoria privada, propriedade virtuosa dos mestres, em relação à ignorância pública, espólio maldito dos alunos. Não é somente pelo fato de sistematicamente embrutecer que os mestres explicadores dominam as salas de aula, mas também porque tal embrutecimento aliena confortavelmente os alunos do fato de que somente a vontade individual de aprender é a verdadeira mestra. Há, por conseguinte, um o gozo, no entanto passivo, em se esquecer da solidão e da intransferível vontade pessoal que qualquer aprendizado verdadeiro engendra. Uma vez acorrentado voluntariamente aos desígnios do mestre explicador, o aluno pode mentir a si mesmo um algoz que não a sua própria falta de vontade e de empenho como responsável pelos fracassos de sua busca individual por saber.

Avesso da liberdade, porém, filho do embrutecimento que emana do mestre explicador, é o imediato conforto de uma tutela externa, segura e certificada. No entanto, o mestre ignorante de Rancière afronta essa preguiça sustentada pelo mestre explicador ensinando a todos que somente a vontade e o empenho individuais libertam o indivíduo de sua própria ignorância. Isso porque, para Jacotot, o saber é professor menos virtuoso do que a ignorância, pois esta, por sua natureza, põe todas as inteligências em pé de igualdade. Assumindo que todos são igualmente inteligentes, o professor francês somente precisou retirar o primeiro obstáculo à plena performance dessas inteligências potenciais: o mestre explicador.

Ora, se pelo método do embrutecimento uns sempre findam sabendo mais do que outros, espelhando com isso a arraigada desigualdade social, é porque este processo educacional reproduz, basilarmente, a pressuposta hierarquia entre mestre e aluno, entre rico e pobre, entre capaz e incapaz. Infelizmente, a verdadeira igualdade, seja ela entre os cidadãos, seja entre suas inteligências, vive apenas na vil retórica política de um poder que deseja sobretudo manter a assimetria social que o justifica. Se todos forem considerados igualmente inteligentes, e portanto capazes de galgar qualquer sabedoria, como justificar que uns saibam, e por conseguinte tenham, mais do que outros, a não ser na assunção de que é justamente o modo como se ensina o carrasco da igualdade primeira?

Porém, a liberdade gratuitamente oferecida pelos mestres ignorantes não está morta. Segue viva, contudo, no horizonte revolucionário de quem se recusa em aceitar que o bruto saber, por si só, valha mais do que as inteligências que livremente o conquistam e por suas vontades o possuem. Contra a ideologia explicadora-embrutecedora, que faz da quantidade de peixes pescados, e não da capacidade da rede que os pesca, o valor com que se compra uma distintiva posição social, temos a resistente e libertária ideia do mestre ignorante que não divide as pessoas pelo que elas sabem a partir dos seus mestres explicadores, mas exclusivamente pelo que podem saber por si mesmas, a partir da inteligência de suas ignorâncias.

Em respeito aos meus professores-embrutecedores, devo buscar não por suas sabedorias, ou por mais explicação, porquanto não é aí que, segundo Rancière, reside a libertação, mas justamente por suas ignorâncias, isto é, por todas e quaisquer dificuldades que eles próprios enfrentam ao lidar com o mesmo saber que a minha inteligência, por outro lado, pretende alcançar. Só fazendo da vertical explicação que meus mestres declamam à minha pressuposta inteligência vazia aquilo que eles mesmos carecem para saber o que me ensinam chegarei à ignorância deles. Dessa forma, nossas inteligências se emparelham. Então, se, mediante suas próprias ignorâncias, as inteligências dos meus mestres ainda apontarem para o saber que eu, por minha vez, desejo aprender, terei substituído, subversivamente, meus mestres explicadores pelos libertários mestres ignorantes de Rancière e Jacotot.

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