A Cuba de Platão

No intervalo de um curso sobre Kant – autor com quem iniciei um relacionamento sério há três meses -, um colega me disse que ele e a sua esposa estavam estudando este filósofo. Rimos ao imaginar o próprio Kant, em espectro intelectual, circulando pela casa, pelos pensamentos e discussões deles dois. Perguntei, retoricamente, é claro, o que porventura a entidade kantiana estava gerando no ventre do casamento deles. Seu imediato silêncio, e aquela olhadela para cima e à direita de quem vasculha alguma coisa na lembrança, me sugeriram que ele ainda não havia se perguntado sobre isso.

Então, para evitar ser indelicado com o colega, e não mais especular acerca dos efeitos de Kant no seu casamento, eu citei um outro professor nosso, que, juntamente com uma esposa sua, pesquisava Hegel. Concordamos que a presença de um Hegel era mais perigosa a um casamento do que a de um Kant. Afinal, Hegel faz com que o espírito se manifeste em contradições, e que estas, quando finalmente se apaziguam, não apagam as oposições iniciais. Imagine o que isso significa a dois espíritos cônjuges. Uma única paz hegeliana, buscada por duas pessoas, portanto, só seria alcançada no acorde de quatro partes dissonantes!

Já Kant diz que a dialética imanente da razão humana, ainda que não leve às verdades científicas, é responsável, no entanto, pelas resoluções éticas e morais, ou seja, pelos acordos dos humanos consigo mesmos e com os demais. Ora, nesse sentido Kant pode ser visto como um filósofo mais casamenteiro, afinal, as inexoráveis “deérres” (discussões de relacionamento) que todo casal enfrenta ao longo da vida conjugal acabam sendo o processo através do qual é instituída, racionalmente, a harmonia conjugal.

Entretanto, não pude evitar de sugerir que, quando um casal estuda o mesmo filósofo, seja ele Hegel ou Kant, este é transformado numa espécie de cachorro da família. Este cão filosófico, então, circularia da poltrona na qual o marido o lê à escrivaninha na qual a esposa escreve sobre ele, e vice-versa. Pararia, às vezes, no meio do corredor e latiria conceitos indecifráveis. Seus donos, juntos, perambulariam peripateticamente em torno do Pet intelectual, especulando sobre o que ele quer. Conquanto esse bichano metafísico seria bem mais hermético do que um cachorro natural, marido e mulher estariam tremendamente mobilizados em função dele.

Como eu não sou casado, achei que estava livre de tal entidade filosófica esperando por mim em casa. Todavia, os animais de estimação são um antídoto largamente utilizado no combate à solidão urbana-contemporânea. Ora, assim como os casais adotam cachorros – para em seguida tratá-los como filhos -, os solteiros projetam cônjuges, contudo transcendentes, nos seu bichos. Com efeito, mesmo solteiro, eu tinha uma matilha metafísica me fazendo companhia no aconchego do lar, latindo ontologicamente, sempre faminta por mais uma ração de leitura, e ansiosa para rolar comigo – ou me enrolar – no tapete de suas célebres ideias.

A meu ver, o cão e a Filosofia disputam o título de melhor amigo do homem. Quanto mais não seja porque ambos são produções da humanidade: o cachorro doméstico é o artesanato humano a partir da matéria bruta do lobo selvagem, e a Filosofia, um artesanato da razão humana sobre sua própria irracionalidade. Entretanto, como também somos criaturas das nossas próprias criações, não escapamos de ser os “humanos de estimação” dos nossos cachorros e filósofos. Sem nós, ambos minguariam na face da terra. Os cães, entretanto, contam com as surpresas da Natureza, infinitamente mais sábia do que qualquer metafísico que já tenha existido. Já a Filosofia, coitada, sem seus donos-leitores é apenas manchas pretas em folhas brancas, espalhada pelo planeta pela tempestade da razão.

Eu, no momento, crio quatro Pets filosóficos: um kantiano, um espinosano, um marxiano, e um bergsoniano; mas tenho de cuidar desse canil sozinho. A vantagem do meu colega é dividir com sua esposa os cuidados com o Kant de estimação deles. Uma semana depois da primeira conversa, meu colega e sua esposa anunciaram à turma que estavam esperando um bebê. Imediatamente pensei que o metafísico de estimação que eu havia idealizado para eles ficaria com ciúmes desse neonato humano. Entretanto, os cachorros adoram as crianças da mesma forma como a Filosofia ama os homens. Além do mais, assim caminha a humanidade: fazendo filhos, cachorros e Filosofia.

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