O radicalismo colateral da cidadania pacífica

Tanto as manifestações de junho de 2013 quanto a de março de 2015 contaram com seus próprios vândalos de plantão. As primeiras tinham os Black Bloc que, pilhando latas de lixo, paradas de ônibus e bancos Itaú, espantaram a opinião pública e forneceram à mídia reacionária o precioso material com o qual ela desqualificou estrategicamente o grande movimento. Já a de 2015 também contou com seus radicais imediatamente objetáveis, apelidados de Yellow Bloc e apólogos da ditadura militar, cujo vandalismo, por sua vez, destrói a própria democracia. Assim como os arruaceiros mascarados, os desordeiros verde&amarelo expressaram a pior e mais reprovável face do que estava sendo manifestado democraticamente nas ruas de março.

É importante frisar que os Black e os Yellow Bloc eram minorias absolutas dentro de suas respectivas massas. No entanto, a presença de ambos protagonizou a performance da “multidão de bem”, matizando com cores tirânicas e inaceitáveis as bandeiras e as demandas sociais levadas às ruas pelos dois macro movimentos. Conquanto a maioria dos cidadãos brasileiros reprovou o vandalismo Black Bloc, as manifestações das quais eles participaram não escaparam de tal escrutínio. Outrossim, o jihadismo amarelinho, gritando “intervenção militar já”, imediatamente se ofereceu como pretexto ao desmerecimento do protesto global que, no entanto, lhes deu voz.

Ambas as manifestações, as de junho e as de março, embora antagônicas, também têm em comum o monocórdico grito contra a corrupção política e o polifônico clamor por um Estado eficiente. Todavia, a pertinência destas demandas foi largamente ofuscada: em 2013, pela garatuja de guerra civil que os Black Bloc e a polícia ofereceram à opinião pública, e em 2015, pelo vômito elitista que pretere a democracia à ditadura militar, não obstante, com o agravante de se servir da própria democracia para tal. Não há grito popular por vinte centavos, saúde e educação padrão FIFA, reforma política ou terceiro turno, pleitos absolutamente civilizados, que resista ao intenso ruído da barbárie, seja a performática destrutiva dos Black Bloc, seja a retórica anacrônica dos Yellow Bloc.

2013, apesar de sua pretensão revolucionária, teve de se curvar à reação do velho Brasil que venceu as eleições de 2014. A política maciçamente reeleita nos estados e municípios foi justamente a criticada naquele junho: o “fora PMDB” carioca e o “fora PSDB” paulistano, por exemplo, ecoaram, no ano seguinte, como um irônico “permaneçam”. Isso sem falar do recente crescimento do conservadorismo religioso na nossa política. Diante do quadro atual, é de se perguntar se o movimento de junho, por fim, não acabou produzindo um desserviço a si mesmo. Já o protesto de 2015, que pedia não só o impedimento da presidenta, mas também da democracia, recebeu dela, em apenas dois dias, um pacote anticorrupção e uma sessão televisionada de “Mea culpa”.

Claro, tal pacote também atende aos revoltosos de junho, no entanto, dois longos anos depois. Ora, sob este aspecto, os reacionários de 2015 mostraram um poder revolucionário mais intenso do que os declarados revolucionários de 2013. Diria que a História é irônica, porém, mestre nessa arte é o poder: todos podem democraticamente desfilar nas ruas as suas insatisfações, sejam os pró, sejam os contra o poder, mas somente um dos dois será priorizado.

Agora, se o revolucionário junho e o reacionário março tinham seus vândalos inerentes, cabe aventar se cada cidadão brasileiro também não esconde dentro de si uma dicotomia de mesma espécie e grau. Porventura o manifestante pacífico, seja de que ano for, não refletiria internamente as contradições da multidão a qual se agrega? Inversamente, não seria o radicalismo, impertinentemente representado pelos Black ou Yellow Bloc, a sintomática erupção, na arena social, da barbárie resistente que subjaz na secreta subjetividade de cada cidadão, todavia civilizadamente reprimido? Cabe a cada brasileiro fazer esse “Mea culpa” individual e encontrar o radical fundamentalista solapador de ideais escondido dentro de si mesmo, muito antes de pedir que a figura da presidenta faça isso por todos.

Só então, o cidadão, a partir da ínfima parcela que ele representa na opinião pública, deixará de propagandear o radicalismo como um erro condenável, para então entendê-lo como o inexorável outro lado da única moeda com que se negocia a mudança, seja ela para trás, seja para frente. Ter participado de Junho de 2013 e reprovar os Black Bloc, ou ter desfilado em março de 2015 sem aceitar os Yellow Bloc, é não se unir à massa a qual se diz pertencer; é, sobretudo, enfraquecê-la, não como os seus respectivos vândalos fizeram, mas de outro modo, covardemente.

Entretanto, levando essa lógica ao limite, o cidadão brasileiro, para fazer parte definitiva do “corpus brasilis”, não deve pensar a si mesmo como se não fizesse parte e ao mesmo tempo não produzisse cotidianamente tanto a pacificidade da maioria, quanto a radicalidade das minorias, seja ela Black ou Yellow Bloc, cuja virtude, contudo, é gritar barbaramente, em alto e bom tom, aquilo que a civilização têm vergonha de expressar publicamente. Dessa forma, ser brasileiro é querer, ao mesmo tempo vinte centavos, um Brasil padrão FIFA, a ruína do banco Itaú, o impeachment, a ditadura militar, e todo o resto que não cabe num único discurso pessoal.

Seria ideal se a cidadania fosse algo simples, porém, a realidade nada mais faz do que frustrar esse desejo, afrontando-nos com sua complexidade imanente, cuja pertença, no entanto, exige que não nos coloquemos acima dela, como estrangeiros burgueses que a julgam como se se tratasse de uma republiqueta nalgum terceiro mundo distante. 2013 fez do caos uma nova ordem, todavia temporária. 2015, por sua vez, fez da ordem o pretexto para apologizar o caos. Por fim, o vetor entre as forças revolucionárias e reacionárias aponta para o exato agora, mas também para todos nós, brasileiros que guardam dentro de si o radicalismo que todo desejo de mudança expressa, ainda que colateralmente.

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