Revolução, reação e o vetor histórico.

De junho de 2013 a março de 2015 duas forças antagônicas encarnaram no povo brasileiro. A primeira, chamada por muitos de vândala, protestava contra tudo o que lá estava e sempre esteve, clamando por um novo Brasil. As máscaras dos black bloc simbolizavam nada mais nada menos do que a face ainda ausente do país a ser inventado futuramente. A segunda e mais recente força, cujo símbolo é a panela ruidosa – que, entretanto, quem nela bate não a lava – também vai contra o que aí está, mas não contra o que até aqui esteve, pois tal levante simpatiza com um velho e traumático passado no qual a democracia foi suspensa por força maior, qual seja, a militar.

Ora, revolução e reação são movimentos diametralmente distintos, cada um apontando para um lado da linha histórica. O primeiro, explodindo do agora em direção ao desconhecido futuro, e o segundo, ao contrário, fugindo tanto do presente quanto do futuro, passado adentro. A pecha que se desenrola pelas avenidas e pelas timelines brasileiras entre tendências revolucionárias e reacionárias pressupõe um resultado vetorial, até aqui desconhecido, porém de máximo valor, que, por conseguinte, empurrará o Brasil ou um tanto para o futuro ou um tanto para o passado.

Claro, resta ainda a possibilidade de tais forças terem o mesmo valor, o que sobremaneira as anularia, não gerando assim movimento final algum. Esse seria o horizonte mais crítico à democracia: a ausência de uma maioria na presença irredutível de duas metades de mesmo peso. O quase empate no resultado final da última disputa presidencial é o melhor exemplo de como a maioria e a minoria podem se emparelhar numericamente, instigando assim a própria democracia.

Entretanto, quando não é o poder da maioria o desígnio absoluto outros poderes entram no concurso, e a força do capital, adaptável a qualquer rinha, é a primeira a fortalecer um dos lados empatados. Bem, na adversidade o capital é absolutamente reacionário; na ventura, apenas finge revolucionar. Então, quando o sonho da horizontalidade começa ganhar substantivas pinceladas de materialidade – e o quadro da última década tupiniquim foi esse “work in process” -, o capital abandona imediatamente os apólogos do “agora em diante” para se enfileirar verticalmente aos demagogos do grande ontem.

A força revolucionária ensaiada em 2013 começou tímida, pedindo seus vinte centavos de volta, mas não tardou a engrossar sua demanda, a ponto de ser necessário todo um novo Brasil para atendê-la. Já a força reacionária em performance nesse 2015 crísico irrompe impetuosa, indignada, com demandas que também extrapolam um punhado de centavos, porém, com a diferença de não almejar um país novo, mas clamar pela velharia política passada que desmerece a democracia e sobreleva a tirânica presença militar. Porém, nem tudo está perdido, pois ainda que a reação conte com generoso patrocínio do capital, a revolução tem como aliado inexorável o próprio sentido da história que aponta apenas para o futuro. Felizmente, o capital é só uma página, e recente, dessa história.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s