Democracia ancestral ou oligarquia contemporânea?

Sim, os coxinhas também querem uma democracia. Claro, não essa que temos hoje, cuja universalidade os afronta, mas uma bem mais antiga do que qualquer um desses acéfalos paneleiros pode imaginar. Com efeito, o “coxismo” contemporâneo remonta à primeira democracia que o mundo conheceu, inventada na em Atenas em 500 a.C., na qual somente homens ricos comandavam a cidade-Estado. De imediato se conclui que estes reacionários de 2015 são muito mais retrógrados do que se pode supor.

Aristóteles, na sua Política, dizia que numa democracia “deve-se ser prudente com os bens dos ricos e não submeter nem suas propriedades nem suas rendas à partilha. Seria ainda mais sábio não obrigá-los a grandes despesas e até mesmo proibir-lhes serem úteis para o povo”. Podemos muito bem imaginar o que um aristocrata grego diria de um Bolsa família. O repúdio à distribuição de renda, como a experimentada na última década brasileira, é democrática, sem dúvida, mas na sua mais primitiva expressão.

Dos 400 mil habitantes daquela Atenas, somente 30 mil tinham direitos políticos – mulheres, escravos, e não proprietários de terras eram excluídos. Porventura não é algo nestes moldes o que a democracia coxinha quer ao solicitar a anulação do sufrágio universal por intervenção militar? Entretanto, e infelizmente, em vez da poderosa retórica grega que conquistava votos na ágora, os aristocratas de hoje tem o melhor de seus discursos no máximo de ruído que conseguem extrair de suas panelas.

Se democracia, em grego, significava o “governo do povo”, mas de fato ela era propriedade de menos de 8% da população, era porque as ideias de povo e de população não coincidiam. Tampouco deveriam coincidir, pois só assim o povo estaria liberto dos pobres. Essa ideia, todavia, encerrava uma contradição da qual nem Aristóteles escapou ao afirmar que “se são os ricos que comandam, será sempre a oligarquia; se são os pobres, a democracia”; ou que “a oligarquia é para a utilidade dos ricos; a democracia, para a utilidade dos pobres”.

Ora, se democracia é mesmo o governo dos pobres, como apontou o filósofo, nunca houve democracia na Grécia antiga, quiçá depois dela. Se hoje a aristocracia brasileira, preterida em função da pobreza histórica, quer a berlinda de volta para si, busca a mesma coisa que os gregos chamavam de democracia, embora se trate, lá e aqui, de uma oligarquia, ou seja, do governo de poucos. Por isso os nossos coxinhas contemporâneos acreditam realmente defender a democracia quando pedem a deposição de um governante democraticamente eleito e a subjugação da vontade da maioria à tirania militar.

A democracia grega, da qual a brasileira é filha tardia, transmite um ideia virtuosa, mas apenas no seu significado literal, pois na prática sempre carregou consigo os vícios da oligarquia. Por conseguinte, quando todos defendem a democracia, como acontece no Brasil hoje em dia, fala-se, na verdade, de duas coisas bastante distintas: a maioria, de uma velha utopia; e a minoria, de uma realidade, contudo sempre renovada, que a privilegia conquanto use um nome utópico. Os coxinhas, portanto, são ou democratas ancestrais confessos ou oligarcas contemporâneos disfarçados.

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