Fundamentalismo tupiniquim

É muito mais fácil se escandalizar com as barbáries do Estado Islâmico, cujo objetivo radical é retornar o Islã aos seus primórdios, do que se aterrorizar com os ventos reacionários que assoviam uma re-intervenção militar no Brasil. Porém, o que significa almejar a anulação de uma eleição democraticamente dada e o retorno da ditadura militar senão fazer como os fundamentalistas jihadistas, ou seja, querer impertinentemente o retrocesso? Em que medida o radicalismo tupiniquim é mais bárbaro do que o islamita?

O que está sendo “panelado” nas varandas mais abastadas da Terra Brasilis é a insatisfação de uma velha aristocracia com o fato de ser somente a nova classe alta, em um mundo democrático que, por um lado, faz de um proletário o presidente da república e, por outro, doutores os filhos dos proletários. O atual “basta reacionário”, fantasiado de indignação em relação a uma filha sua, isto é, a mui arraigada corrupção brasileira, tem em sua nudez o deflagrado vício de repetir a maquiavélica virtude de fazer dos príncipes fins, e do povo, apenas meios.

É um novo velho mundo no qual a elite reencena seu papel histórico que está por trás dos gritos de “impítimam” e de “Intervenção Militar Já”. Enganam-se aquele que acreditam que tais anseios visem alguém que não os tradicionais detentores do poder – intrigantemente, os mesmos que detêm o capital. Aliás, esse clamor retrógrado tomou seu maior fôlego na recente ascensão das classes mais pobres à média e, também estas, deterem um tanto do capital acostumado a jazer em poucas e mesmas mãos.

Da mesma forma como a jornalista-socialite-coxíssima Danuza Leão, no pleno florescimento econômico brasileiro de 2012, disse que Nova York perdera seu glamour quando soube que até o porteiro do seu prédio estava indo para lá, a elite tupiniquim também não vê mais graça nenhuma em viver num país onde os outros também podem ser doutores, turistas internacionais e, sobretudo, decidir democraticamente os governantes do país.

O fundamentalismo reacionário brasileiro tem muito mais em comum com o islâmico do que revelam os recrutadores memes das redes sociais. Aliás, a banalização do retrocesso se disfarça muito bem de evolução na superfície do mundo virtual. Entretanto, sob essa pele digital se escondem tanto o desprezo pela democracia como também o louvor ao vertical horizonte que toda ditadura encerra; e tanto faz se esse lobo sob pele de cordeiro é latino-americano ou árabe, ambos querem o ontem o califa do amanhã, quiçá do hoje.

O impítimam, seguido de intervenção militar, pretere o pobre ao rico, os gays aos heterossexuais, a mulher ao homem, o indivíduo à família, e, principalmente, o presente ao passado. Essa empresa do retrocesso tem a única vantagem de não ser utópica, pois baseia-se numa realidade histórica empírica, contudo abjeta, dos mais de vinte anos de ditadura militar no Brasil. Todavia, imediatamente revela uma covardia tremenda diante da imprevisibilidade do agora, principalmente porque ele é democrático, ou seja, produzido pela maioria.

Deve-se especular sobre esse projeto de Brasil no qual a validade do voto democrático cede espaço à pretensa validade do não-voto oligárquico cujo valor é historicamente lastreado no capital. Portanto, abandonar a aventura do presente só porque ela é nauseante e incerta, para se refugiar no estático, entretanto conhecido solo do passado, é coisa que tanto os bárbaros jihadistas quanto os fundamentalistas políticos brasileiros encampam.

Aqueles, entretanto, têm ao menos a dignidade de não esconder seus verdadeiros objetivos sob fabulações mentirosas. Por menos civilizado que seja, os bárbaros jihadistas assumem no Youtube que são assassinos do progresso e promotores do regresso. Já os radicais reacionários brasileiros mentem, primeiramente aos outros, porém, também a si mesmos, que a luta deles é por um novo futuro ao país quando na verdade a guerra é pela vitória de um passado cuja “cracia” era patrimônio exclusivo da minoria.

Os paneleiros aristocratas brasileiros não arremessam gays vendados de suas varandas nem destroem sítios arqueológicos patrimoniais da humanidade para retornarem ao passado. Entretanto, nem por isso os nossos radicais deixam de ser tão bárbaros quanto os do Estado Islâmico. Ora, vendar uma população inteira para que ela não veja a presente crise da nossa economia sobre o pano de fundo da economia global, histérica e necessariamente crísica, para então atirá-la da cobertura do novo edifício democrático brasileiro, e isso em nome de velhos valores, é em nada menos terrorista.

Os fundamentalistas brasileiros se perdem na babel democrática porque ela não fala apenas a língua deles. Por isso precisam solapar essa torre pública que comporta todos os discursos para que o velho texto da desigualdade possa ser declamado sem ruídos paralelos. Não são as milenares ruínas assírias que os bárbaros tupiniquins destroem, mas o jovem templo da democracia brasileira. Entretanto, e felizmente, apenas a virtualidade desse vandalismo engana, não os escombros materiais dessa destruição, cujo objetivo estratégico é soterrar a recente igualdade aventada contra o velho e oligárquico Brasil.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s