Impítimam à preguiça cidadã.

Toda dissonância pressupõe uma harmonia fundamental, disse Henri Bergson, e essa verdade também tem expressão política. Se ecoa um acorde forte desse desafinado fantasma de impítiman que assombra o castelo mal administrado do Brasil é o fato de povo estar se ocupando da política vigente, questionando-a, em rede, para muito além do sazonal jardim das eleições. Sempre muito criticado por exercer sua cidadania apenas na urna, hoje o brasileiro ensaia revolucionar esse rótulo de alienação. Seria porventura herança das manifestações de junho de 2013, cujas máscaras também expressavam-escondiam uma latente insatisfação com a representatividade democrática no Brasil?

Ora, é muito pertinente que os representantes eleitos pelo povo após àquelas manifestações estejam sob um novo jugo, ou do contrário elas teriam sido tão inócuas quanto queria o patrimônio público vandalizado. E pouco importa se este novo julgamento tem o radicalismo histérico de uma direita mimada, porém contrariada, ou o cinismo daqueles que optaram por não votar em ninguém além de suas próprias convicções particulares. Com efeito, a representatividade que o cidadão brasileiro passou a desejar desde aquele junho só se realizará sob a árdua e presente intervenção popular mesmo, e não enquanto se compartilha esse desejo frustrado apenas com aqueles que assistem à novela e ao Jornal Nacional conosco.

É inaudito, no entanto extremamente virtuoso, o descontentamento em relação ao governo do Brasil. Uma pena que ele não se estenda com a mesma intensidade aos governadores, aos prefeitos, aos vereadores e, em última instância, a nós mesmos. Afinal, a representatividade degradada que tanto nos incomoda performa através de todos. Entretanto, é melhor que essa atividade inquisidora do cidadão pós junho de 2013 comece por algum lugar. Hoje é a própria presidente da república o boi-de-piranha desse novo exercício. Oxalá isso se institua e seja democratizado sobre todos os demais representantes do povo.

Porém, quando a insatisfação popular, traumatizada por anos de má representatividade política, chega à arena pública já em seu modo extremo, ou seja, na forma de impítimam, essa manifestação esconde um vício terrível, e também histórico, qual seja, aquele que prefere a imediata substituição da dissonância por uma harmonia qualquer, mesmo que fantasmática, em função da qual não seja preciso envolvimento e trabalho político algum por parte dos cidadãos. Substituir um presidente em pleno desafino mente muito bem que os cidadãos estão plenamente consonantes ao Estado harmônico que eles mesmos imaginam. Só que não!

O presente desejo de impítimam contra a atual presidenta reencena a comodidade do cidadão brasileiro perante aquilo que o desagrada. Ora, tirar a Dilma e colocar outro no seu lugar não nos ensina nada de novo; não faz com que saibamos, coletivamente, botar para trabalhar, a nosso favor, aqueles que escolhemos para isso. Se um impítiman fosse uma ferramenta eficaz, depois de Collor o Brasil teria se tornado um país um tanto menos corrupto. Todavia, não foi isso que aconteceu. Ora, exigir do governo que ele cumpra com os compromissos que estabeleceu conosco é o cerne de uma vida política saudável, e é só no presente, com os políticos presentes, que isso pode ser exercitado.

A bandeira do impítimam, portanto, balouça uma desistência: o desejo de não mais ter de lutar, mas de substituir a dissonância presente por uma consonância futura, entretanto improvável. A verdadeira luta deveria ser pelo direito de lutar, diária e imediatamente, e não para que tal luta seja desnecessária ou realocada nalgum amanhã: porque ela não é, nunca, dispensável.

Tirar Dilma do seu cargo rouba a imediata possibilidade de aprendermos a lidar, presentemente, com os nossos governantes a ponto de fazê-los, sem escapatória, responder e agir de acordo com nossos anseios. Ora, o tabagista não resolve o risco de câncer extirpando seus pulmões intoxicados, mas mantendo-os e aceitando que ambos são um mesmo organismo. Tampouco um transplante de pulmão resolveria conquanto não se parasse de fumar. Sendo assim, mais vale uma a presença de uma Dilma desacreditada, no entanto encurralada pelo povo, do que mais um presidente da república, aparentemente descontaminado das vicissitudes políticas atuais, cuja verdade, no entanto, conheceremos, e também protestaremos contra, só na próxima esquina política.

O momento para desnudar a paraplégica representatividade política brasileira é agora. Todavia, não é com o próximo representante do poder que aprenderemos a assediar politicamente senão com aqueles que agora vestem a sofisticada fantasia que pretende representar o uniforme roto do povo. Portanto, tirar uma Dilma e permitir que um Michel Temer ocupe o lugar dela nada mais é que reagendar para amanhã a revista que devemos e podemos fazer hoje. Tudo isso, claro, em nome de uma arraigada preguiça política, esquecida de uma antiga, porém pertinente, afirmação de Aristóteles que diz: “a qualidade de um Estado é a qualidade dos seus cidadãos”, e não o contrário.

A banalização do impítimam reflete o desejo histérico do cidadão de ser qualificado a partir do Estado, e não o fato de serem as mínimas e ininterruptas ações individuais, incluso nisso o voto, que, por fim, somadas, instituem esse Estado. Como admitir que o problema do brasil nasce dos próprios brasileiros? Por conseguinte, culpar Dilma isoladamente, ou qualquer outro indivíduo, é uma forma de o cidadão se alienar do fato de que ele também é responsável pelas desventuras brasileiras.

Encarar e questionar os nossos governantes quadrienalmente, somente em época de eleições, era até aqui a generalizada, porém ineficaz, performance política do brasileiro. Porém, cada vez mais isso se mostra insuficiente para nos trazer o Estado que merecemos. Essa emergência, entretanto, gera também o desejo de trocar, imediatamente, a oculta virtuosidade de qualquer dissonância concreta pelo vício de uma nova e promissora harmonia, todavia abstrata.

Isso é preguiça cidadã. Por isso essa ideia de impítimam é reacionária na medida em que crê na existência de um governante em relação ao qual o povo possa seguir confiante e, sobretudo, alienado. Ora, nenhum representante poderá ser onisciente como Deus, atento a todos, incondicionalmente. Tampouco Ele cumpriu tal tarefa! Essa coisa da qual estamos tão carentes, isto é, uma representatividade política de qualidade, expressa tanto nas manifestações daquele junho quanto no atual grito de impítimam desse março, não vem de graça. Antes, deve ser solicitada, por mais paradoxal que pareça lutar arduamente pelo que nós é de direito.

Revolucionário mesmo seria o cidadão lutar pela possibilidade de lutar, diária e ininterruptamente, contra qualquer politicagem que o represente mal, inclusive, e principalmente, contra a política em vigência. Tirá-la da jogada para seguir o jogo não qualifica o cidadão, apenas transfere a batalha para amanhã. Michel Temer, ou até o próprio Aécio, porventura saciariam a nossa inquietude em relação a uma representatividade política consoante às nossas necessidades? Provavelmente não.

A única vantagem, contudo paliativa, de um novo e imediato presidente da república seria a projeção no abstrato amanhã da luta fundamental que, entretanto, se desenrola na concretude do agora. Peitar a atual presidente, insistindo que ela ocupe o lugar a que se propôs, é o aprendizado que impítimam algum pode ensinar ao politicamente mal-educado cidadão brasileiro. Desistir do presente é uma utopia sempre disponível que seduz primeiramente os mais fracos. Ao contrário, tomar responsabilidade pela realidade, sem destruí-la na adversidade, somente os fortes encampam. Que a presidente Dilma fique por mais quatro anos e que nós, o povo, cobremo-la insistentemente até que ela faça jus à responsabilidade a que se propôs.

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