Bárbaros civilizados e radicais

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O ocidente nunca precisou sair de casa para saber o que é barbárie. Porém, diante do ultrarradicalismo do Estado Islâmico nosso conhecimento e nossas categorias de entendimento parecem não bastar. Como categorizar, por exemplo, a destruição de sítios arqueológicos milenares, as decapitações transmitidas “worldwide” pelo Youtube e os arremessos de homossexuais vendados de cima de prédios cometidos por “aqueles bárbaros”? As nossas barbaridades ocidentais, que não são poucas, e, diga-se de passagem, muitas delas mais graves do que as do EI, basta lembrar o nazismo, ainda assim não são capazes de fazer-nos entender a empresa jihadista. Então, como se fôssemos seres sempiternamente virtuosos e desconhecedores do mal, perguntamo-nos: “o que eles querem?”

Ora, isso até a Wikipedia responde: afirmar autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos do mundo; voltar para os primórdios do Islã; etc. Porém, retórica alguma nos tranquiliza. Mesmo que nos seja dito “é exatamente isso o que eles querem”, seguimos perguntando: “mas o que é essa coisa que eles querem”? Desconhecer os objetivos do Estado Islâmico é uma ignorância que sem demora pode ser resolvida. Entretanto, sabê-los e ainda assim não compreendê-los é mais do que falta de inteligência ou de conhecimento. Trata-se de uma fronteira intuitiva cujo atravessamento exige categorias de entendimento que o ocidente ou não cunhou ainda para si, ou, o que é mais provável, prefira fazer de conta que não as têm.

Mesmo que condenemos barbaridades ocidentais cada vez mais banalizadas, tais como a destruição de conjuntos arquitetônicos de valor histórico inestimável, para, no lugar delas, a especulação imobiliária construir arranha-céus  ou condomínios de luxo, ou ainda a homofobia, que em plena Avenida Paulista -mas não só lá- espanca e assassina gays, somos perfeitamente capazes de entendê-las, classificá-las, categorizá-las, sem o quê, aliás, não poderíamos condená-las propriamente. Agora, quando a especulação destrutiva é cometida pelo radicalismo religioso muçulmano, e arquiteturas e gays são eliminados para no lugar deles serem edificados os mandamentos de Alá, aí nosso horizonte intuitivo e nossa capacidade de compreensão parecem não ser suficientes.

Diante do radical fenômeno do Estado Islâmico não conseguimos intuir o que pode significar distribuir “pen drives” com cânticos jihadistas religiosos-militares e vídeos antidemocráticos, homofóbicos e xenófobos para, em seguida, torturar, mutilar ou matar cruelmente quem não canta tal musiqueta. Buscamos em vão compreender essas ações através dos nossos correlatos ocidentais, mas nossos feitos, imagens ou palavras resistem em explicam tal realidade. O colorido ensanguentado das bandeiras dos nossos Estados nacionais, a liberdade absolutamente vigiada da nossa internet, e o fato de os nossos direitos humanos ainda serem latifúndio apenas dos ricos e poderosos, tudo isso, somado e potencializado, parece ainda distanciar-nos irremediavelmente da compreensão do fundamentalismo do E.I. Claro, e nessa distância mantêmo-nos estrategicamente no lado “bom” da irresoluta questão.

O fato de não conseguirmos transpor o muro que até aqui nos aliena da  barbárie radical, no entanto, deixa duas coisas bem claras: a presença dessa fronteira intransponível e a nossa incapacidade em transpô-la com o ferramental categórico de que dispomos. Entretanto, nós, que habitamos o lado “bom e livre” do mundo, que pregamos cegamente o laico fundamento da globalização, diante da nossa incapacidade de compreender e de dialogar com lado “mau e fundamentalista” do mundo, entrevemos, a contra-gosto nosso, é claro, a mentira do fundamentalismo capitalista que prega que a única fronteira entre os homens é e deve ser aquela riscada pelo capital, e que basta dinheiro para se comprar o “Green Card” global.

Tal falácia fica clara na animosidade cada vez mais impagável e incompreensível entre o império dito civilizado e o império dito bárbaro. Diante disso, o ocidental civilizado, crente de que sua civilidade deveria lhe garantir tapetes vermelhos estendidos aos quatro cantos do mundo, sente-se ultrajado por não poder “comprar”, sequer compreender a parte do globo a qual chama de bárbara que se lhe opõe terminantemente. Pior ainda, como entender que para “estes bárbaros”, bárbaros são os próprios ocidentais civilizados? Então, talvez para compreender onde está e qual é essa barbárie ocidental de que “aqueles bárbaros” nos acusam, muitos dos nossos civilizados estão indo buscar respostas emigrando às forças do Estado Islâmico e à sua bárbara jihad. Nesse passaporte radical, além da marca polegar da ignorância, está carimbada a incipiente, mas não totalmente mentirosa certeza de que o ocidente é tão ou mais bárbaro do que os bárbaros da imigração jihadista.

A experiência que esses desertores ocidentais buscam nessa abjeta cidadania jihadista, por mais que seja reprovada pelo ocidente desertado, outra coisa não compra que a mercadoria mais rara, e talvez a mais cara do mercado mundial, qual seja: a lente capaz de fazer um civilizado tardio ver a realidade através dos olhos de um bárbaro primitivo. Videogame nem viagem turística alguns são capazes disso! Somente deixando radicalmente a pretensa civilização para trás é que o sujeito laico&ocidental poderá saber o que é o pacotão formado por uma Lei, um Estado e um Deus incondicionalmente absolutos que não se vendem à moeda, tempo ou costume alguns.

Seriam mesmo esses civilizados retirantes, uma vez cidadãos da urbe da barbárie radical, os primeiros ocidentais a cunharem as categorias de entendimento que faltam ao ocidente no sentido de compreender o radicalismo do Estado Islâmico? Do ponto de vista da etiqueta laica&liberal do ocidente, entender com essa profundidade os objetivos do E.I. é uma gafe imperdoável. Porém, por mais “deselegante” e incompreensível que seja para os padrões ocidentais-liberais, os muitos Belgas, dinamarqueses, franceses, holandeses, australianos e ingleses, só para citar alguns cidadãos que aderem ao E.I., estes são os ocidentais a verdadeiramente compreenderem os objetivos dos chamados bárbaros radicais, entendendo, primeiramente, que o mal reside também no cerne da civilização ocidental, e, em segundo lugar, que o mal dos pretensos civilizados é pior que o dos bárbaros radicais.

O que os novos cidadãos do Estado Islâmico podem estar querendo nos dizer é que nossa falta de compreensão a respeito da barbárie radical não se dá porque eles são de outra categoria que a barbárie civilizada. São apenas o outro lado da mesma moeda humana. Por isso não devemos deixar de perguntar a nós mesmos, civilizados ocidentais, se essa nossa manifesta carência de categorias de entendimento capazes de compreender “o bárbaro radical” não é apenas o nosso latente desejo de não enxergarmos que ele está iludido por suas próprias leis, Estado e Deus, assim como nós, pelos nossos. Até onde nos “faremos de burros” e não reconheceremos que todos estamos imersos numa realidade assaz radicalizada, em relação a qual basta ser humano para ser vítima fundamentalista dela?

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