A platônica goiaba Azul

Num voo da Cia Azul, eu pedi um pacote de “Goiabinha” (aquele biscoito com goiabada dentro). Logo abaixo do nome do produto, em grandes letras, outras, menores, traziam o sedutor slogan: “A Goiaba em todo o seu esplendor”. Porém, não muito longe dali, no outro lado da embalagem, abaixo do obrigatório quadro nutricional, uma ressalva em letras minúsculas, seguindo um tímido asteriscozinho: “*Este produto não contém goiaba”.

Meu espanto foi imediatamente silogístico;
Premissa maior: A goiaba em todo o seu esplendor;
Premissa menor: Este produto não contém goiaba;
Conclusão: Logo, este produto não contém todo o seu esplendor.

Entretanto, lembrei do que disse o filósofo Slavoj Žižek, que nós vivemos na era da dessubstancialização das substâncias básicas das coisas, na qual o café é sem cafeína, o leite sem gordura, a cerveja sem álcool e, a 10 mil metros de altura, a goiaba Azul sem goiaba – paradoxalmente mais saborosa do que a fruta ela mesma. Com efeito, a Goiaba Azul é sempre deliciosa, com a mesma consistência, tonalidade, perfume e, principalmente, sabor, coisa que a fruta natural apenas eventualmente consegue ser. Isso porque qualquer sazonalidade ou defeito da goiaba é excluído quando se exclui a goiaba dela mesma.

Ora, qualquer goiaba natural sempre será um tanto menos goiaba do que desejamos: um tanto ácida, um tanto machucada, um tanto bichada, etc. No entanto, é impossível encontrar qualquer defeito no CH³COOCH²CH³, isto é, a fórmula do gosto da goiaba. Afinal, é somente isso o que queremos quando queremos essa fruta, e não o “hardware” contingente que promete veiculá-lo. Este, na verdade, apenas nos aliena daquilo que a goiaba pode ser em seu esplendor!

Platão já dizia que as coisas reais são apenas degenerações das ideias que delas temos. Portanto, se o filósofo grego tivesse comido uma goiaba real, não se esqueceria de que ela é apenas um simulacro pálido da verdadeira e inatingível fruta ideal. A Azul cia aérea, por sua vez, leva as pessoas a este céu platônico no qual a goiaba é a sua pura e irrepreensível ideia. Servindo o “esplendor da goiaba” sem usar goiaba alguma, a Azul é absolutamente platônica, revelando a excelência da ideia quando livre de sua realidade material.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s