Manifesto copo plástico

“Um espectro ronda o planeta” – o espectro do plástico. No Pacífico Norte há uma formação artificial contínua e visível formada por garrafas PET, copos e sacos plásticos, que ora tem setecentos mil, ora quinze milhões de quilômetros quadrados, dependendo da disposição do tempo e também da dos humanos em reciclar ou não seus próprios resíduos. Considerando que o copo plástico é o principal ícone da indústria de descartáveis, e também o resíduo sólido menos reciclado ao redor do planeta, aquela ilha venenosa e dinâmica é majoritariamente alimentada pelos nosso copinhos cotidianos.

Um singelo copo plástico, aparentemente inofensivo e efemeramente útil nas mãos de um indivíduo, perde toda sua inocência quando são 48 bilhões deles produzidos anualmente. A partir desse dado lidamos com um monstro horrendo. Esteja onde estiver, contendo o nosso cafezinho, lambuzado na lixeira ao nosso lado, perdido entre as árvores, enterrado, entupindo bueiros, ou finalmente boiando nos mares do mundo, essa Tiamat sintética acompanhará a humanidade por no mínimo duzentos anos, quiçá testemunhará o ocaso dela.

O copo plástico é o polímero que mais facilmente se decompõe em microplástico, e essas abundantes partículas-pragas já compõem o ecossistema global. Especialistas afirmam que esse material já faz parte inclusive da composição da água. Plânctons e crustáceos se alimentam de microplástico; por conseguinte, os peixes que os comem; “long story short”: o próprio ser humano – mas injustamente não só ele – come os bilhões de copos plásticos que recentemente usou. Fala-se muito em reciclagem, mas não há retórica que dê conta do fato de estarmos comendo os nossos copinhos descartados

O poliestireno, matéria prima com a qual é feita o copo plástico, é tão barato que não compensa a reciclagem. De acordo com os ambientalistas também não é sustentável lavá-los devido ao nosso frágil horizonte hídrico. Como até agora não encontramos solução para esse dilema, a Mãe Natureza, subversiva como ela só, já vai dando o seu jeito. Então, depois de os nossos copos plásticos permanecerem não mais de quinze minutos nas nossas mãos, e por alguns anos boiando clandestinamente nalgum oceano, é de uma providência supernatural que estejamos ingerindo os nossos próprios descuidos.

Ao contrário do que parece, o acesso universal a um copo plástico não entrou para o rol dos nossos direitos humanos. Porém, ele é distribuído indiscriminada e gratuitamente, seja ao se comprar uma cerveja em uma esquina qualquer – e pouco importa se vêm dois copos juntos para uma única dose -, seja nas torres plásticas – não vigiadas!!! – formadas por centenas de copinhos ao lado dos bebedores espalhados pelos corredores da civilização, onde, aliás, as pessoas se servem deles como bem desejam.

Por isso o manifesto: que os copos plásticos não sejam mais gratuitos. Ora, se o valor deles não compensa a reciclagem, e o custo ambiental é tremendo, essa conta é nossa conquanto precisemos de um ambiente para viver. Que o copo plástico custe aos seus sedentos usuários mais do que ele custa ao planeta, e já! Somente no momento em que este abjeto objeto sair mais caro que a bebida que ele serve o civilizado descartador verá a si próprio como o verdadeiro bárbaro ecológico que é.

BEBEDORES DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!

E pagai não somente pelo que beberdes, mas pelo ignóbil graal polimérico que reencontrardes a cada gole. Pois o copo plástico que agora usais não tardará a reencontrar-vos logo ali, na quimérica saúde que buscardes num filé de peixe ou na fantasiosa hidratação que esperardes de um copo d’água, ambos, contudo, microplastificados por obra vossa e de mais ninguém!

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