O desafio petista

O governo do PT enfrenta ao mesmo tempo uma incontrolável queimada econômica e, o que é pior, uma deflagrada corrupção sistemática no seu próprio subsolo. Diante disso, muitos cidadãos e forças políticas, alienados do fato de que todos os partidos políticos são vulneráveis à tais pragas – muitos deles completamente corroídos por elas –, convenientemente gritam “impeachment”. Até parece que é da natureza da política partidária brasileira a imunidade absoluta às adversidades tanto do exercício do poder quando do poder em exercício das demais forças políticas, sociais e econômicas. Ora, tal capacidade e lisura só são adquiridas em parcelas, na lida, sob os olhos democráticos da sociedade, e, como a História ensina, ao passo em que se fazem necessárias. Considerando que nenhuma outra sigla que tenha se assenhorado do “latifundium brasilis” esteve livre de carunchos é no mínimo injusto exigir do PT uma safra absoluta.

Talvez essa onipotência impossível solicitada ao atual governo seja o desejo histérico de uma sociedade que quer a continuidade daquele florescimento econômico experimentado na última década, no qual o Brasil saudava a histórica dívida externa, e a partir do qual os brasileiros tinham gordas colheitas de eletrodomésticos, automóveis, férias no exterior e diplomas universitários, só para citar alguns. Entretanto, durante essa bonança nunca deixou de ser dito que tal fazenda não era obra do PT, mas uma apropriação oportunista das semeaduras do governo FHC. Ainda que seja a mais pura verdade, isso não tira o mérito do partido vermelho, só prova que ele soube honrar, adubar e regar as sementes azuis com um rendimento que governo algum havia alcançado desde a tragédia militar, quiçá antes dela.

Porém, atualmente a lavoura econômica brasileira produz menos arrobas. Com efeito, prevenir o esgotamento do solo é responsabilidade do fazendeiro que o administra. O grito de “impeachment” tem a ingênua virtude de solicitar o revezamento de culturas, mas também o vício oligárquico de substituir uma monocultura por outra. convenhamos, precisa-se de uma boa dose de alienação para desconsiderar as intempéries da economia globalizada, como por exemplo o tsunami crísico de 2008 que solapou as maiores economias mundiais – mas que o segundo Lula soube marolar e a despeito do qual a primeira Dilma manteve o crescimento da nação.

Todavia, a meteorologia petista não foi competente suficiente para prever o refluxo da crise, ou seja, que na recuperação das grandes economias abaladas a tempestade se voltaria para os capachos históricos delas. Mas não só isso, o PT também não soube evitar a erva-daninha da corrupção interna, cuja inimizade declarada foi por muito tempo a sua honrosa pedra de toque. Hoje, portanto, o PT padece das mesmas dificuldades que os demais partidos enfrentaram antes dele: evitar que o país quebre e impedir que a corrupção interna o arruíne.

Dizer que o PT é como os outros partidos tem o primeiro significado, contudo pejorativo e inócuo, de que todos eles roubam igual. Porém, uma significação positiva que escapa disso tudo é que, finalmente, o PT se encontra no horizonte crísico comum a todos os grandes partidos, cujo enfrentamento é absolutamente necessário a uma maturação partidária. Uma vez evidenciada a contaminação do solo petista, que por sua vez o levou à aridez de um descrédito generalizado, esse partido está nu diante de suas próprias contradições. Todavia, essa lixiviação tem a vantagem de estar se dando sob a atenção de todos – claro, com a ajuda erosiva da mídia reacionária -; mas é melhor que seja assim, ou do contrário seria como o artificial canteiro peessedebista, viçoso conquanto as flores sejam de plástico.

Para a felicidade dos seus opositores, o PT não está livre de ruir inteiramente, seja mediante seus próprios antagonismos, seja perante à crise econômica atual. Esta, no entanto, apenas em parte é responsabilidade sua, mas não totalmente, dada a vulnerabilidade imanente à participação no latifúndio liberal globalizado. Todavia, só superando tudo isso é que o Partido dos Trabalhadores provará a que veio. O fato de hoje o PT estar devassado – coisa que os outros partidos evitam por via de mais corrupção – ou fará dele fruta podre, ou essa podridão mesma lhe servirá de adubo revolucionário. A direita brasileira, na histeria em que se encontra, só lhe propõe a primeira opção. A segunda, entretanto, é o mais legítimo e necessário desafio petista.

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