Rio 450

Um gaúcho no aniversário do Rio come do bolo mas não sabe do que ele é feito – só que é uma delícia! É difícil descobrir os ingredientes cariocas porque esse povo, que gosta de confraternizar e que sabe fazer isso como ninguém, não costuma levar forasteiros para suas cozinhas como faz a italianada lá do Sul. O quitute carioca aparece pronto e para ser saboreado na rua, seja numa mesa de bar – ou num caixote que faz as vezes desta -, seja na praia, onde, aliás, sem embalagem, é muito mais apetitoso.

Lá no Sul se diz de um homem com mais de trinta anos que não tenha barriga que ele é “viado”, mas no Rio nem isso nem barriga fazem sentido. Em vez de leite, o carioca toma açaí proteinado no seio materno, e os seus primeiros passos já são uma corrida na areia fofa da praia. Todavia, o culto carioca ao corpo e à saúde não tem mais de cem anos; veio com a invenção de Copacabana, quando uma juventude aristocrática ociosa pôde passar seus dias à beira-mar, com o corpo à mostra.

Parabéns ao malandro carioca que transforma o resto da humanidade em “mané”. Antropônimo de Manuel, mané era como os nascidos nos Rio apelidavam os gringos, que, aliás, sempre foram uma constante na cidade. Não fosse a personagem do malandro, contudo estereotipada, carioca da gema correria o risco de fazer como o portenho que se pensa europeu. A malandragem, portanto, foi a fantasia brasileiríssima com a qual o carioca afirmou sua identidade diante do mundo.

Nesse 1° de março são muitos e diversos cenários aniversariando: a zona sul urbanizada e cosmopolita; o centro verticalizado que ainda cheira à Belle Époque; a zona norte fina-flor suburbana; e também a recente zona oeste canteiro de obras do Rio futuro. No entanto, como certa música disse, “o Rio é uma cidade de cidades misturadas”; e quantas Santas Teresas nos morros de Copacabana; quantos palacetes do antigo centro em Botafogo, quantos Novos Leblons ao longo da interminável Barra da Tijuca!

Entretanto, o único cenário carioca que verdadeiramente comemora 450 anos é aquele visto por Estácio de Sá, na Praia Vermelha, no momento em que ele fundava a cidade de São Sebastião; cenário cujos elementos predominantes eram a natureza e os índios tupinambás. Hoje, contudo, a natureza é coadjuvante paisagística na urbanidade da cidade maravilhosa. Já o índio, esse desfila digna e livremente apenas na Marquês de Sapucaí, e eventualmente.

Todavia, foram os índios, em 1565, vendo o homem branco (em Tupi, cari) construir a primeira casa (oca), que cunharam o nome que seus colonizadores carregam até hoje. Talvez se os tupinambás tivessem sido convidados à intimidade das ocas dos brancos o nome dessa cidadania teria sido outro. Porém, tudo o que um índio podia saber daqueles cariocas – que não é muito mais do que um gaúcho pode saber dos atuais – é o que se vê apenas nas ruas: que eles são cosmopolitas, festeiros, sensuais, malandros, e que colocaram suas ocas no lugar mais lindo do mundo.

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