O último figurino do poder

O poder, historicamente, manifestou-se de diferentes maneiras, e em cada encarnação sua, uma veste distinta. Ele carece, portanto, de uma representação material através da qual performar exitosamente. Sua maior eficácia, entretanto, se dá quando ele atua sem puir a sua fantasia diante dos desempoderados. Desse modo, os figurinos com que o poder protagoniza o drama social, através de um êxtase estético certeiro, são fundamentais à manutenção da passividade e da impotência da plateia espectadora.

Dos músculos do homem pré-histórico desnudo à seminudez divinamente ornamentada do guerreiro grego-romano; passando pela intransponível armadura do cavaleiro medieval e pela sofisticada “roupa do rei” moderno; o costume do poder é feito para causar. Porém, tais vestimentas deixaram de seguiu a tendência histórica de “pavoneamento” descrita acima. Hoje, intrigantemente, os poderosos dispensam distinção através de trajes; e o que vemos é uma uniformização generalizada que, sobretudo, dissimula o poder entre os que não o detêm. Estratégia? Sim, necessária!

O que quer o homem mais poderoso do mundo, qual seja, o presidente dos Estados Unidos, vestindo o mesmo terno azul-marinho usado por todos seus subordinados? Não podemos nos enganar, afinal, o que leva o poder absoluto a “figurinar-se” com os mesmos “fatos” de um ordinário gerente de uma empresa qualquer de modo algum significa anulação ou socialização desse poder. Embora mais pareça um disfarce, devemos, por conseguinte, entender a nova “moda” com que o poder desfila na passarela social enquanto a mais eficiente e planejada alfaiataria.

Outrossim, a moda arquitetônica atual também evidencia a dispensa do poder em se evidenciar. Dos majestosos templos antigos, erigidos para o poder divino, passando pelos labirínticos palácios dos reis absolutos, e findando nos tradicionais edifícios-cofres do capital, isto é, os bancos, todos eles, até bem pouco tempo, utilizavam-se da mais fina arte, técnica e tectonicidade para simbolizarem o abismo entre os que detêm o poder e os que não. Todavia, hoje os deuses se contentam com espeluncas evangélicas e os donos do poder, com casas padronizadas em maçantes Alphavilles suburbanos. Também o capital já não precisa mais das pesadas e estáveis fachadas em “mármore eterno” para expressar poder, contentando-se com os mesmos vidros e alumínios das fachadas dos supermercados e das concessionárias de automóvel.

O poder, portanto, tem desfilado no bulevar social com os fatos daqueles que não logram desse mesmo poder. Isso não significa, contudo, que sua força seja reduzida na adoção dessa moda. Antes, abstraindo-se da representação material, o poder experimenta uma nova e melhor forma de ação. Ora, em um mundo cada vez mais virtualizado é ingenuidade esperar que o poder aja de outra forma. Ou melhor, talvez isso tenha sido inicialmente um vislumbre do próprio poder: abstrair-se da simbolização material distintiva para mais livremente agir. Suas vestes e seus edifícios, portanto, apenas posteriormente expressaram esse novo – e não menos funcional – estilo.

A ordinária uniformização através da qual poder atua hoje em dia significa, por conseguinte, que ele não mais reside em nada nem em ninguém específico. Se o presidente dos Estados Unidos, por exemplo, for assassinado – em seu nada exclusivo uniforme Prada- , outro, usando o mesmo fato, imediatamente ocupará seu lugar, mostrando a todos que o poder não precisa sequer de uma pessoa determinada para representá-lo, quiçá de suas roupas.

Do lado dos que não gozam do poder, o esforço também tende à uniformidade estética – ao menos essa! Da mesma forma que os antigos parisienses, desejando a opulência do Palácio de Versailles para si, fizeram de cada quarteirão da capital francesa um palácio aos moldes do Real, não obstante fatiado em apartamentos minúsculos – símbolos da falta daquele poder -, hoje em dia os homens comuns alienam-se da impossibilidade de alcançarem o poder vestindo o mesmo terno Prada que Obama. Por um lado, a plebe ilude-se de que é poderosa nas vestes do rei; por outro, o rei é mais rei do que nunca nas vestes da plebe.

Contra os desempoderados resta que a dissimulação estética com a qual o poder faz sua contemporânea promenade social o blinda sobremaneira. Como foi dito antes, de nada adianta matar o homem mais poderoso do mundo. Tampouco contra o capital resolve vandalizar as fachadas envidraçadas dos seus bancos. O poder não está mais aqui – nem ali -, ao alcance dos que o reivindicam. Usando a mesma roupa do rei acabamos lutamos uns contra os outros, afinal, quem é ele mesmo? Ora, a roupa não é mais a veste do poder; antes, este figurino distintivo é “démodé”.

O pavão, que com a mesma exuberante plumagem com que atrai a fêmea chama atenção dos seus predadores, mostra que a imponência material é um calcanhar de Aquiles. No propósito de seguir como o rei absoluto da selva, o poder descobriu que é melhor ser um camaleão, presente mas invisível; seu esforço máximo consiste em adquirir a tonalidade do meio em que se encontra – que é o mesmo que domina. Hoje, no entanto, essas cores são ditadas pelas grandes grifes. Prada, por exemplo, é o arlequim que não se contentam em servir apenas a dois patrões, mas também aos funcionários de ambos. Disso resulta que podemos sim nos fantasiar com os trajes do poder conquanto permaneçamos despidos dele na realidade. Já o poder, despindo-se de suas fantasias históricas, encontra uma realidade nua e crua na qual seu falo desnudo fala mais alto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s