É melhor que você não seja Charlie!

A solidariedade, enquanto sentimento abstrato, é corriqueiramente experimentada por quase todas as pessoas – salvo os psicopatas -, dado que a própria família já se incumbiu de gerá-la, todavia na função egoísta de se preservar. Porém, na forma de ação concreta – o modo mais virtuoso da solidariedade -, poucos são aqueles que a vivem. A partir das recentes e massivas manifestações solidárias nas redes sociais, nas quais, por breves instantes e ao mesmo tempo, todos são Charlie “e” crianças nigerianas, cabe perguntar de que tipo é a solidariedade que nos coopta: se aquela que satisfaz e resolve apenas questões do indivíduo que a sente, ou a outra, preferível, que leva solução e satisfação objetivas àqueles com os quais nos solidarizamos.

Solidariedades do tipo “Eu sou Charlie” são fortemente patrocinadas pelo o mal histórico do individualismo. Pois, na verdade, o que é dito, além do tácito e inócuo “eu sou eu”, é que inclusive “Charlie é Eu”. Esse Eu contemporâneo precisa ser tudo para ser simplesmente ele mesmo. Precisa-se até mesmo “ser Charlie” para ser, por exemplo, um ordinário taxista nova-iorquino ou um prosaico porteiro carioca. Dialetizando de forma irredutível e problemática com o individualismo está a globalização, outro mal que leva os indivíduos a se colocarem, ilusória e indiscriminadamente, no lugar dos outros. Porém, pelo fato de o mundo globalizado solapar as antigas e seguras identidades locais e nacionais, restando assim uma perda de identidade generalizada. Então, para que o indivíduo identifique-se consigo mesmo nesse globo “desidentificado”, ele precisa ser todos os demais indivíduos, nem que seja pulando de sujeito-manchete em sujeito-manchete.

Por isso é tentador considerar realmente solidários apenas tipos como, digamos, os médicos sem fronteiras e os ativistas do Greenpeace, pois, ao se solidarizarem com o problema do Outro, eles se colocam em campo, ao lado e em prol dele. Já o tipo de solidariedade que abunda hoje em dia, aquele que tange o mundo através de monocórdicos “Je suis Charlie”, essa solidariedade defende e institui também – senão exclusivamente – a covarde liberdade para não fazer mais nada a respeito. A psicóloga gaúcha Neusa Guareschi reitera que “solidariedade se refere ao ato de juntar-se aos outros de maneira ‘sólida’. Quer dizer, lado ao lado, dividindo as mesmas responsabilidades e consequências”. Ora, nada menos solidário do que se colocar no lugar do Outro sem deixar o conforto do ar-condicionado de casa ou a tranquilidade da “touchscreen” do “smartphone”!

Guareschi sustenta ainda que solidariedade “é uma relação de ação, de compartilhamento”. Mas, veja bem, não o tipo de ação e de compartilhamento feitos nas “timelines” individuais! Trata-se, antes, de compartilhar “do” problema, isto é, da dor do Outro, para só então saber em respeito a que se está se solidarizando. Claro, não é preciso ofender Maomé “e” ser assassinado por isso para ser verdadeiramente solidário à liberdade de expressão roubada dos cartunistas franceses. Isso seria ultrapassar desnecessariamente o céu ideal. Todavia, fazer isso apenas retuitando um “slogan” abstrato é jazer passivamente no extremo oposto, isto é, nas catacumbas do real. E quem age assim deseja ser objeto de solidariedade mais do que sujeito solidário. É quase como dizer: “Je suis moi, solidarizem-se à minha causa”.

No entanto, a histérica humanidade contemporânea tem direito de errar. Todas as “humanidades” passadas abusaram desse direito. Ademais, exigir perfeição do bicho-homem é de um fundamentalismo tão atroz quanto utópico. Então, a princípio, é preciso ser solidário aos que fazem da solidariedade um objeto solipsista, ajudando-os entender o significado de solidariedade. O problema que todos enfrentamos, entretanto, reside no fato de o direito de ser humano implicar, paradoxalmente, o dever de ser humano; mas um humano outro, melhor – como que uma obrigatoriedade do real em tornar-se sistematicamente ideal. Mediante essa difícil dialética caminha a humanidade. Contudo, no momento em que o real solidariza-se com o ideal, colocando-se de fato no lugar dele, eis que, doravante, o ideal já é real. E assim prossegue a humanidade, sempre entre uma realidade e uma idealidade.

Aquela solidariedade em cujo indivíduo que a sente não produz ação concreta alguma no sentido de melhorar a problemática do Outro, e que, remetendo a Freud, é natural ao bicho egoísta que somos, portanto real, deve, por conseguinte, ser apenas o início de uma virtuosa jornada: o abandono do árido solo egoico em direção a uma solidariedade outra, elevada, verdadeiramente altruísta; a ponto de, no mínimo, incluir uma revolução àquele com quem se solidariza, e não apenas ao solidário.

Considerando isso, a solidariedade às crianças da Nigéria que se satisfaz com o singelo compartilhamento de uma imagem-texto que sequer se deu o trabalho de produzir, mas que diz “Eu estou com as crianças da Nigéria”; essa solidariedade que não se coloca “solidamente” no lugar delas, quiçá no lugar das mais de dezessete milhões de outras crianças também nigerianas e igualmente vulneráveis; essa solidariedade deve envergonhar-se de sua falta de evolução. Diante da dura realidade, o mínimo do real não basta. Nestes casos precisamos de um horizonte ideal. Mas devemos caminhar até ele, não apenas mandar e-mails ou tuítes. Outrossim, postar “Je suis Charlie” e esperar que a liberdade de expressão seja restaurada e definitivamente assegurada é uma ingenuidade inútil. Apenas o fato de ser superficialmente performática lhe assegura algum valor.

Não! Dizer “eu sou aquele com que me solidarizo” não muda nada! Muito pelo contrário, deixa a vítima sem salvador. Ora, no momento em que todos forem “as crianças da Nigéria” tal geração estará perdida. Elas precisam de Outros. O filósofo Terry Eagleton afirmou que “indivíduos perfeitamente auto-idênticos, que pudessem se nomear com toda a segurança, não sentiriam necessidade alguma de se revoltar”. “Volià”! É para se alienar da angusta experiência do Outro, ou seja, para não experimentar o seu real sofrimento, que o falso solidário diz o cínico “eu sou ele”. Foge do campo de batalha iludido de que participa da revolta. Entretanto, de forma alguma agente real da revolução. Entre dizer “eu sou aquele com quem me solidarizo” – e depois ir ao “shopping center” – e estar lá onde o objeto da minha solidariedade sofre, ao seu lado, ajudando-o concretamente, claro, há uma procissão virtuosa a ser percorrida. Para começar, no entanto, basta desconfiar da ilusão inerte que reside na primeira manifestação da solidariedade em nós.

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