Medo do terror: produto de Estado

O investimento midiático em eventos terroristas, como os que atualmente explodem nas grandes metrópoles mundiais, antes de apresentar soluções ao problema, causa sobretudo mais terror. Portanto, é bom averiguar se essa “indústria do medo” está aí para nos proteger do terror ou, ao contrário, apenas gerar necessidade de mais mercadorias suas, ou seja, segurança. Outrossim, é preciso recordar daquilo que perdemos na esteira da evolução social que nos protegia dos perigos dos Outros. Confrontando estas duas formas distintas de lidar com o perigo e com o medo, quais sejam, a contemporânea e a ancestral, é que podemos nos proteger, tanto dos medos que se originam em nós, quanto daqueles imputados de fora.

Em primeiro lugar, o sociólogo Robert Castel atribui o medo que assola os habitantes das grandes cidades ao individualismo moderno, à supervalorização do indivíduo. Isso fica claro quando lembramos que o bando foi a primeira instituição erigida – não só pelos humanos, vale ressaltar! – para proteger os frágeis indivíduos das ameaças dos Outros. Porém, no momento em que essa unidade protetora é historicamente desfeita – e a dissolução da família nuclear humana é um exemplo disso -, ficamos órfãos dos ancestrais laços que nos protegiam, inclusive do próprio medo. Ora, se o individualismo fosse uma boa ferramenta para uma sobrevivência segura, a natureza teria se valido dele desde o início. Mas, como podemos ver, o individualismo é um produto tardio e inócuo para tal fim.

A segurança que os bandos ofereciam aos seus indivíduos levou-nos à instituição urbana por excelência, ou seja, à cidade, lugar onde pagamos caro para ter proximidade com tudo aquilo que soluciona nossas necessidades, inclusive a de não sentirmos medo. Todavia, a cidade expressa a contradição entre o intuito de formar um imenso bando capaz de oferecer uma proteção de mesmo tamanho, e a justaposição asfixiante de muitos bandos distintos, cada um deles com necessidades igualmente distintas, o que, sobremaneira, reencena velhas ameaças, justamente aquelas que a cidade prometia resolver. A materialização dessa contradição, por conseguinte, são as nossas casas, que em vez de servirem para integrar-nos à cidade, hoje estão mais para casamatas invioláveis para nos proteger dela.

Nas megalópoles contemporâneas a contradição é maximizada. Nelas, o indivíduo não escapa da ameaçadora e solitária defrontação não apenas com o ancestral perigo do Outro, mas com o inominável terror do mega Outro, isto é, o resto da cidade inteira. A cidade engendra momentos de não-identificação, e neles o medo do Outro é majorado. O sociólogo Zigmunt Bauman começa dizendo que primeiramente “a gente da cidade não se identifica com a terra que a alimenta”; podemos seguir dizendo que tampouco se identifica com a natureza, visto que é sua negação; e terminar inferindo que a cidade é o instrumento através do qual o indivíduo experimenta a não-identificação absoluta, seja em relação a seus próprios pares, e pior ainda, seja consigo mesmo. A megalópole é uma máquina descontrolada que produz um medo até então inexistente na natureza: o medo de ser inadequado!
Como disse Bauman, “as cidades se transformaram em depósitos de problemas causados pela globalização”. E o capitalismo, motor lubrificado desse processo globalizante, fez das antigas e amistosas relações entre iguais uma plataforma de competição individual, na qual a sórdida busca de riqueza pessoal pressupõe antes de tudo que o indivíduo se coloque propositalmente enquanto um Outro ameaçador em relação a todos os demais. Os que enriquecem cumprem essa tarefa; mas, paradoxalmente, são os que mais sofrem do medo do Outro. Podemos ver que a luta que o capitalismo engendra não é só aquela, clássica, entre classes, mas também entre indivíduos de uma mesma classe, ou seja, a luta de todos contra todos. Portanto, no solitário ringue do capital, o medo de ser nocauteado é capitalizado, findando mais aterrorizante que o próprio golpe; e “o medo em si é o pior e mais penoso sofrimento”, completa Bauman.

Em função dos perigos decorrentes do Outro, da cidade e do capitalismo, historicamente foi instituído o Estado, a máquina maior que, entre suas controversas e duvidosas tarefas, tem, segundo Thomas Hobbes, o dever de atender ao anseio máximo dos indivíduos, qual seja: a proteção contra a morte violenta. O Estado é aquele que promete segurança do berço ao túmulo, mesmo todos sabendo que proteção absoluta é tão utópico quanto impossível. Então, para o Estado permanecer como herói possível, a culpa pela insegurança persistente deve ser atribuída a um Outro, isto é, a alguém de fora desse Estado. Quem primeiro recebe essa culpa é o estrangeiro. Para Bauman, a xenofobia serve para alienar os indivíduos da falta de solidariedade local. O Estado, por sua vez, precisa da xenofobia para justificar a sua incapacidade de cumprir a tarefa a que se propõe.

Daí a “indústria do medo”, produzindo e distribuindo massivamente medos-mercadorias objetivos, com os quais dissimula a incapacidade do Estado de suprimir a insegurança e o medo subjetivos. E no mundo capitalista globalizado não é de se espantar que tal mercadoria seja produzida no exterior, mas para o consumo interno. Hoje, o atual medo do terrorismo, que o Estado e o capital produzem para poderem seguir em pé diante de suas próprias e insustentáveis contradições, vem do mundo árabe, mais especificamente das fábricas clandestinas do islamismo radical. Basta ver a declaração do presidente François Hollande na esteira dos atentados que sacudiram recentemente a França: “Uma economia forte é o que precisamos para combater o terrorismo”.

Então, para separarmos o joio do trigo, e identificarmos quais medos provém dos indivíduos, e quais são produzidos e distribuídos pelo Estado capitalista, basta perceber o absurdo que se esconde na expressão-mercadoria “medo do terror”. Medo e terror são sinônimos; ambos apontam para a mesma coisa: a necessidade individual de proteção. Entretanto, a justaposição das duas palavras, em vez de reforçar o conceito, aumenta apenas o efeito. Ora, por que o indivíduo, diante do medo, iria duplicá-lo? Esse “sobre medo” é produzido pelo do Estado, sob o ditame capitalista, em uma época histórica em que a nova guerra contra o terror é mais lucrativa do que a velha guerra contra outro Estados. Isso porque, hoje, um Estado pode entrar em guerra apenas contra alguns indivíduos de outro, sem com isso interromper as fundamentais negociações comerciais entre eles.

O terrorismo que atualmente amedronta os indivíduos das grandes cidades é sintoma tanto de um individualismo supervalorizado, como dizia Castel, quanto da necessidade do capitalismo, encarnado em Estado, de se sustentar economicamente. Entretanto, para um Estado, a guerra contra o terrorismo é menor, mais facilmente administrável e mais barata do que a guerra contra outro Estado. Ao passo que para os indivíduos, essa sórdida estratégia significa uma dupla desvantagem, visto que, primeiro, são eles que objetivamente se defrontam como terror em ação, e não os abstratos corpos do Estado e do capital; e, segundo, mesmo antes de se defrontarem com o evento terrorista em si, os indivíduos já o amargam subjetivamente, conforme o Estado precisa.

Como, então, deixar Estado e capital a sós com os terrores que eles mesmos produzem, visto que ambos são apenas grandes abstrações, oriundas da interação real entre indivíduos concretos? Ora, forçar o terror generalizado apenas aos indivíduos que o geram! Quem são estes, contudo? Os proprietários das grandes fortunas mundiais, ora bolas! Pois são estes que, através do terror imputado aos outros, nada mais fazem do que assegurar suas próprias fortunas, ao lucro de não se aterrorizarem-se por isso. Por conseguinte, é só no descolamento em relação a esse macro terror funcional que os indivíduos podem escapar do “medo do terror”, para assim lidarem apenas com o medo, isto é, com seus medos. Desdramatizando propositalmente Hobbes, tais medos significam os ordinários medos de ser desrespeitado pelo vizinho, ludibriado pelo sócio de empreitada, ir mal de saúde, etc. Esses medos tem grão humano e, mais importante, foram os que primeiro instituíram os bandos, as cidades… e só então esse Estado aterrorizante.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s