A pele cortada da civilização

Em arquitetura, corte de pele é o desenho que evidencia a presença e a relação de todos os elementos do projeto que são ocultados pelas claras, vendáveis e adornadas plantas-baixas e fachadas. Podemos dizer que o corte de pele é a contemplação de toda a materialidade intrínseca da ideia arquitetônica. Outrossim, um projeto de civilização é formado por uma complexidade de elementos que se inter-relacionam, mas que permanecem ocultos sob a sua promissora ideia geral. Assim como o sujeito que compra uma casa em cujo corte de pele projetual estavam ausentes itens essenciais, digamos, a impermeabilização adequada entre o solo úmido e o piso da sala-de-estar, o indivíduo que “compra” uma civilização para si, alienado dos pormenores subterrâneos que a formam, somente descobrirá os defeitos desse projeto quando o belo e confortável tapete persa comprado num “Mall” em Miami estiver completamente encharcado.

Em respeito ao projeto civilizatório ocidental moderno, vendido através de plantas-baixas e fachadas ideais, graficadas pela mais sórdida especulação cristã-capitalista, não temos ideia de suas falhas estruturais até que se materializem problematicamente no devir dessa civilização. Um exemplo atual e polêmico é o defeito – recorrente e indesejado – proveniente da irredutível relação entre civilização e barbárie. É como se o corte de pele projetual da civilização à qual pertencemos tivesse subestimado a penetrante umidade selvagem, mas mesmo assim tivesse assentado o mais fino assoalho diretamente sobre um pântano movediço ancestral. Agora nossa cara mobília afunda na lama, e em vez de processar os projetistas da frágil casa, atônita e apressadamente demonizamos o lodo. Porém, é no corte de pele detalhado desse edifício que desde o início estava ausente o elemento essencial para conter ou lidar com a areia movediça da selva humana.

Uma vez habitando essa civilização defeituosa, sem que dela se possamos fugir, pois, rejeitando-a somos convertidos em selvagens rebeldes – Edward Snowden que o diga -, e devido ao desejo civilizado de resolver imediatamente tal conjuntura, resta-nos apenas analisar os elementos defeituosos dessa civilização, não no corte de pele do seu projeto, dado que há muito soterrado pelo reboco caído, mas na própria civilização partida. Pois bem, em relação às “goteiras” selvagens que insistem em pingar no meio do salão de espelhos da civilização pode ser dito o seguinte: a civilização, na receita de sua feitura, isto é, no seu corte de pele, não contemplou elementos que pudessem lidar com a intrusão e com a presença do selvagem, do radical, do extremista, sem, no entanto, na presença indesejada deles, agir como um.

Como aquilo que de antemão impediria a selvageria, o radicalismo e o extremismo de corroerem o nosso lar-doce-lar não se fez presente no projeto nem na construção da nossa civilização, talvez pelo fato dessa mesma civilização, desde lá, desconhecer soluções para a sua própria selvageria extrema, nós, civilizados, seguimos sem saber como lidar com ela, findando, por conseguinte, mais vulneráveis à selvageria do que ela a nós.

Hakim Bey, autor que nunca foi visto, sequer confirmado se é uma única pessoa ou um coletivo, colocou(caram) em seu livro, “TAZ – Zona autônoma temporária”, que “qualquer sociedade que você construir terá os seus limites. E para além dos limites de qualquer sociedade, … os selvagens – aqueles que não podem viver sem constantemente planejar novas e terríveis rebeliões.” Entretanto, há um desagradável agravante que sobremaneira nos compromete, pois a pretensa civilização deveria ser capaz de contemplar harmoniosamente o selvagem, coisa de que, logicamente, ele está dispensado.

A falha da má relação entre, por exemplo, o civilizado liberal e o selvagem fundamentalista, portanto, diz respeito mais àquele do que a este. Porém, para nos alienarmos disso, culpamos apenas a selvageria, seja pela sua irrupção impertinentes (fora dos programas da Natgeo ou longe das favelas), seja pela incapacidade da própria civilização em lidar com ela. Isso é evidente quando vemos o líder do “Partido pela Liberdade Holandês”, Geert Wilders, dizer que é preciso “limpar os marroquinos do país”; ou em movimentos nada diplomáticos, porém defendidos por forças de Estado, como o “Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente”.

Outra coisa que fez falta no projeto da nossa civilização foi algum elemento que soubesse tratar melhor dos os efeitos da globalização de que essa mesma civilização tanto promove. Os primeiros rascunhos do nosso mundo globalizado, feitos sobre a remota e desconexa superfície medieval composta por pontos isolados, separados entre si por milhares de quilômetros, subestimou o potencial problemático de uma interconexão generalizada e ostensiva como a que vivemos hoje. Na separação física e na desconexão estrutural do mundo feudal, os grandes contrastes sociais, embora tão reais quanto os nossos, decompunham-se em cinquenta ou mais tons de cinza até se alcançarem. Porém, na justaposição sufocante do mundo globalizado não há espaço para esmaecimento de opostos, tampouco para uma suave e sustentável transição entre eles.

O preto e o branco, o liberal e o fundamentalista, o civilizado e o selvagem, todos somos confrontados direta e constantemente. Observamos uns aos outros tão proximamente que mais parecemos afrontarmo-nos mutuamente. Em meio a esse intenso e inescapável atrito entre opostos, e órfãos de um projeto de sociedade que contivesse elementos que amortecessem tal atrito, a civilização responde à selvageria de forma igualmente selvagem. Conectamos pessoas e lugares; fizemos do mundo um único vernissage; no entanto, depois de suspender todas as fronteiras, físicas e virtuais, essa civilização globalizante é surpreendida pelo medo e pelo ódio ao estrangeiro invasor. Somos, hoje, vítimas da esquizofrenia que de um lado convida o indivíduo a circular pelo mundo, mas de outro, deseja mais do que nunca ter fechadas as suas fronteiras escancaradas.

O civilizado burguês acredita piamente que a resolução das contradições decorrentes da interação sobressaturada de sete bilhões de homens ao redor do mundo deve seguir os passos da diplomacia tediosa, despótica, e não menos burguesa, que se desenrola em torno da mesa de jantar das tradicionais famílias nucleares. Esquece-se, contudo, que tais núcleos sequer existem mais, solapados que foram pela individualidade pressuposta por essa mesma civilização. Esse lugar ideal, onde as maiores contradições são resolvidas de acordo com um roteiro prévio e acordado, e no espaço de poucas horas, existe apenas nos filmes de Hollywood – essa camelô capitalista de falsificação barata de vida real. Hoje em dia, para um ocidental típico, lidar com a selvageria e com o fundamentalismo significa, antes de tudo, compartilhar “slogans” pré-prontos nas redes sociais, prostrar-se diante da TV ou arrastar seu corpo coberto de mercadorias e desejos insatisfeitos pelos corredores lotados dos “shopping centers”, sem com isso perceber que apenas troca um fundamentalismo selvagem por outro, porém de grife e com nota fiscal.

Salta aos olhos, no corte de pele da civilização, um dispositivo usado sistematicamente, com o qual acreditamos nos livrar da selvageria ameaçadora do mundo, convencendo-nos de que estamos definitivamente protegidos, mesmo que o efeito resulte justamente o contrário do esperado: eleger para nossos governantes indivíduos ricos, que nos prometem proteção contra a selvageria perigosa, mas que na verdade apenas defendem a si mesmos e enriquecem ainda mais. O modo de assegurarmo-nos contra as intempéries indesejadas da extrema proximidade do Outro selvagem nos fez eleger e sustentar um modelo de Estado que, sob o pretexto de nos representar, representa sobretudo o perfeito estado do capital – essa besta selvagem -, utilizando-nos, sórdida e consensualmente, ora como alimento, ora como boi-de-piranha.

Com o Estado, de certa forma, voltamos à vida selvagem cuja proteção se dá através da eleição de um macho alfa, porém, nessa versão sofisticada, tal macho veste Prada e seu falo são cifrões. Nisso nos igualamos aos fundamentalistas religiosos que seguem um Deus onipotente e pleno de ditames que muitas vezes ceifa dos seus crédulos seguidores inclusive suas vidas. A diferença, no entanto é que o fundamentalista não elege novos Líderes a cada quatro anos, o que, paradoxalmente, parece mais lógico do que o hábito laico-democrático de substituir incessantemente um representante do capital por outro.

Mergulhando mais fundo no corte exposto da nossa sociedade, em relação à atual, entretanto recente, “fundamentalismofobia” – o novo “TOC” ocidental -, nem parece que até bem pouco tempo tínhamos um Deus tão onipotente como, digamos, Alá, perpassando todas as nossas instituições e volições. Liberalizamo-nos há pouco, a partir de um projeto europeu de morte de Deus desenhado por meia dúzia de cientistas que nada mais fizeram do que limpar o solo até então sagrado para as antiecológicas e gentrificantes doutrinações capitalistas. Talvez seja a catástrofe ecológica, talvez a social, ou ainda o fato de, na ausência do mandamento de Deus contra a ganância, ser permitido a pouquíssimos indivíduos o acúmulo inimaginável de riqueza – ou provavelmente isso tudo e muito mais -, vá lá: os defeitos do nosso projeto de civilização, antes de serem assumidos e sofridos por nós, devem ser repetidos e sofridos pelo lado do mundo que não matou os seus deuses ainda.

Por conseguinte, exigimos dos fundamentalistas que laicizem-se e se percam, como nós, na selva agnóstica que, entretanto, até hoje, não nos ensinou a lidar com a selvageria. Exigimos a laicização do fundamentalismo menos pela radicalidade de sua relação com o seu objeto fundamental representar uma ameaça a nós do que pela necessidade de vermos esse Outro repetir nosso erro, para assim, quem sabe, observando a sua performance, aprendermos o que não sabemos, isto é, lidar com o lado selvagem substantivo da vida.

Em respeito à liberdade, tão capitalizada nos bulevares ocidentais, há algo de errado na civilização cujo projeto a preconiza, mas que, no entanto, no edifício pronto, ela é sempre insuficiente. Cortemos essa civilização exatamente nesse nó nevrálgico e olhemo-la de face. Por ventura a liberdade invejável e inédita que a maioria dos ocidentais contemporâneos desfruta só se tornaria suficiente se vivida por todos? Ora, “dizer ‘só serei livre quando todos os seres humanos forem livres’ é simplesmente enfurnar-se numa espécie de estupor de nirvana, é abdicar da nossa própria humanidade, é definirmo-nos como fracassados”, responde Hakim Bey. O que podemos espremer dessa resposta? Primeiro, que a liberdade parece funcionar como o capital, ou seja, só tem valor enquanto alguns têm e outros não. Como sabemos, não basta imprimir dinheiro suficiente e distribuí-lo a todos para que impere a riqueza. Afinal, a riqueza só se materializa através de doses maciças de pobreza.

Da mesma forma, a liberdade precisa ser objeto exclusivo de alguns para que seja um valor universalmente reconhecido por quem a possui e por quem não. A falha que o presente corte revela é a seguinte: ao exigir que todos tenham a liberdade de que poucos desfrutam, estes afortunados nada mais fazem do que gerar, nos que carecem dela, esperança e necessidade de tê-la. Mas não para que a possuam de fato. Antes, os que já desfrutam de liberdade precisam que os não-livres, pelo simples fato de desejá-la, capitalizem-na, pois só assim os que já a possuem reconhecem o seu valor. Segundo, baseado numa ideia de Zizek, no momento em que todos os indivíduos tiverem garantia de liberdade, aqueles que já desfrutam dela não correm risco algum de ficar sem esse tesouro, pois, mesmo perdendo-o acidentalmente, ele seria reconquistado, pois garantido a todos.

Pois bem, na dificuldade cortar a pele, isto é, de fatiar o palácio da civilização de cabo a rabo para vascular em suas entranhas em busca de falhas estruturais – seriamos chamados de vândalos por isso -, ao menos podemos olhar para esse interior através das rachaduras provenientes dos seus ferimentos de guerra. De soslaio, uma ferida interna que nunca cicatrizou, porque nunca houve anticorpos que dessem conta dela, chama atenção: a selvageria que subsiste tanto nos cortesões salões da civilização quanto nos seus arrabaldes. E, de acordo com Hakim Bey, reconhecer a selvageria é um ato de desnudamento, o que não pega bem no baile de debutantes liberal, afinal, a nudez expõe o lado horrendo da obesidade burguesa. Sempre que um nobre habitante do condomínio californiano-versailleano revela o roto de suas vestes, ele é imediata e sigilosamente conduzido aos subsolos dos alcoólicos ou narcóticos anônimos, ou aos caros divãs psicanalíticos, mas de forma alguma é livre para ostentar o “botton” da civilização plena.

Todavia, o próprio processo de marginalizar faz com que a margem adquira uma aura mágica, libertária, pois somente nessa excentricidade há a possibilidade de ser aquilo que de fato somos, ou seja, ao mesmo tempo selvagens e civilizados. Ora, não é isso que buscamos nas “Raves” clandestinas? Claro, concorda Bey: “vamos admitir que temos frequentado festas onde, por uma breve noite, realizamos um império inteiro de desejos gratificantes. Não devemos confessar que a política daquelas noites têm mais realidade e força para nós do que, digamos, todo o governo dos Estados Unidos?”. Todavia, a dialética irredutível entre civilização e barbárie, encerrada em nós pelo projeto civilizatório mesmo, e que só aparece depois de um corte de pele ou de uma rachadura profunda, rouba-nos a liberdade de escolher livremente somente a “Rave” lisérgica.

Antes, somos obrigados a comparecer e a nos comportarmos civilizadamente no tedioso baile de máscaras do Rei para quiçá sermos homeopaticamente liberados à selvageria gratificante das festas clandestinas. Essa é a normalidade esquizofrênica do nosso meio-ambiente cultural civilizado. Entrementes, se o traslado entre civilização e selvageria dos Outros foge das regras do nosso, pronto, selvagens são eles e civilizados somos nós! Difícil é perceber que “no momento que a humanidade for obrigada, toda ela, a seguir uma regra geral, estabelece-se automaticamente uma escravidão igualmente generalizada”, assegura Hakim Bey. Se a contradição selvageria-civilização pudesse chegar a uma síntese, logicamente já teria feito. Se não fez até hoje é porque não pode. Então, vale a pena seguir exigindo dos Outros que erijam arquiteturas de vida livres dessa contradição se nós mesmos somos incapazes disso?

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