A liberdade de expressão do inimigo

O ocidente é apaixonado por liberdade. “Liberté, égalité, fraternité”. “America is a free country”. Entretanto, no escopo desse objeto tão prezado jazem também liberdades funestas, como a liberdade para explorar outros seres humanos, para destruir a natureza, outras culturas e religiões. Depois do atentado ao Jornal Charlie Hebbo, em Paris, a liberdade de expressão está em voga devido à retaliação que os jornalistas-cartunistas sofreram por se expressarem livremente sobre o profeta muçulmano Maomé. Porém, o ocidente parece se esquecer de que toda expressão tem um efeito sobre quem ela atinge, iniciando assim uma dialética que escapa às cercanias inicialmente pensadas. Ao menos devemos tentar entender, quiçá aceitar, a liberdade de expressão daqueles que se confrontam com a nossa. Ainda mais se formos difamar a crença daqueles que têm por lei escrita a seguinte, presente no Alcorão: “Ai de todo o difamador, caluniador Sem dúvida que ele será precipitado naquilo que consome”.

Ao condenar imediata e livremente os jihadistas que atuaram em resposta à “livre expressão” jornalística do jornal francês, é negado que eles tenham direito a um modo próprio de expressão, pois em desacordo com os valores ocidentais, dado que a liberdade e a forma com que se expressaram são diametralmente distintas das aceitas por nós. Entrementes, em nome da liberdade de expressão ocidental, é prudente passar por cima do fato de que as leis que regem os combates políticos, culturais e espirituais muçulmanos são exatamente as mesmas da virtude e da ação militar, considerando que, quando a porca aperta o rabo, o ocidente não se roga em agir da mesma forma? No caso de Hebbo, expressar-se livre e jocosamente sobre Maomé, sabendo que este disse aos seus fiéis: “Uma vez em combate, ide até o fim. Morte ou vitória deverá ser o lema de todo o Soldado”; e ainda assim esperar que esses fiéis não agissem com igual liberdade, porém com a seriedade com que as suas leis sagradas exigem, não seria, no mínimo, uma ingenuidade do ocidente?

Maomé, no Alcorão, elogiava os seus fieis: “essa gente é viril, leal e contente, e pronta a sair a campo contra qualquer inimigo”. Outrossim, nós, ocidentais, também nos consideramos uma gente viril, leal e contente, pronta a sair a campo contra qualquer inimigo. Onde, então, está a diferença que faz com que nós possamos nos expressar livremente, a nosso bel-prazer, e eles não? No fato de “eles” matarem inocentes? Ora, por ventura o ocidente já não matou – e ainda mata – milhares de inocentes em suas ações militares por conta de petróleo e mercado; milhares de africanos em prol de empreendimentos farmacológicos; isso sem falar da natureza, morta sistematicamente em nome do bem-estar do “american way of life”? Ou seria pelo fato de “eles” apologizarem o terror? Sim, no livro sagrado dos muçulmanos está escrito: “infundiremos terror nos corações dos incrédulos […]. Sua morada será o fogo infernal”. Entretanto, apesar de o ocidente não colocar tais admoestações nos seus livros, isso não quer dizer que ele não aja assim, e sistematicamente, inclusive com os seus. Basta ver o terror que os EUA imputa ao seu próprio povo.

Depois da morte dos doze “Charlies”, nós, ocidentais fizemos deles ídolos imediatos de uma unilateral liberdade de expressão ameaçada, no intuito de garantir a permanência dessa mesma liberdade de expressão que, entretanto, gerou tais mortes. A instantânea idolatria solidária à Charlie Hebbo, simbolizando o apego a uma liberdade de expressão da qual o indivíduo ocidental não se imagina sem, em vez dessa idolatria amenizar a tensão, só a aumenta, pois, para os radicais que assassinaram os jornalistas, vale o que Maomé disse: “os piores inimigos dos fiéis, entre os humanos, são os idólatras. Enquanto os ocidentais idolatram as suas próprias vítimas, além de dar munição ao inimigo, criam assim ícones-ídolos, sempre novos, que se sucedem e se e esmaecem sob a sombra um do outro. Maomé, por sua vez, no projeto de reforçar o foco e o objetivo dos seus, disse: “Ó fiéis, quando vos enfrentardes com o inimigo, sede firmes e mencionai muito Deus, para que prospereis”. Caso os muçulmanos repetissem os nomes dos muitos guerreiros muçulmanos individuais que sucumbem nas muitas batalhas que historicamente desenrolam em vez do nome de Alá, esses guerreiros seriam tão taticamente disléxicos como nós, ocidentais, que ora dizemos o nome de um, ora o de outro.

Querendo perpetrar-se imperiosamente, o ocidente espera, ao modo de já agir nesse sentido, que seus inimigos, radicais ou não, tornem-se iguais a ele, de uma forma ou de outra. O ocidente, portanto, persegue os seus inimigos. Já a lei islâmica ditada pelo profeta prega algo diferente, mais radical, porém, sob determinado ponto de vista, bem mais eficaz: ”Matai-os onde quer se os encontreis […], porque a perseguição é mais grave do que o homicídio”. Diante da guerra, os líderes brancos-cristãos-ocidentais dizem aos seus o mesmo que Maomé aos dele: “Mobilizai tudo quando dispuserdes, em armas e cavalaria, para intimidar, com isso, o inimigo de Deus e vosso”. Entretanto, devido a sua afeição à vida mundana, o ocidental não frui de uma vantagem que Maomé garantiu aos seus fiéis em caso de adversidade máxima: “não desfaleçais na perseguição ao inimigo; porque, se sofrerdes, eles sofrerão tanto quanto vós; porém, vós podeis esperar de Deus o que eles não esperam”. Na morte de ambos, portanto, o muçulmano é sempre o vencedor.

Embora seja usual o ocidente escolher os seus inimigos – geralmente por motivos econômicos que só ulteriormente se desdobram em políticos, sociais, culturais, religiosos, etc. -, inimigos não se escolhe. Uma vez em “combate, muni-vos das melhores armas contra o vosso inimigo, a ponto de lhes imprimirdes inteiriço respeito, por vós e pela Causa por que lutais”, disse Maomé aos seus; o que, em outras palavras, é o mesmo dito dos ocidentais. O desdobramento mais recente na guerra entre ocidente e o islã, sob a tagarela ótica ocidental, é a ameaça à liberdade de expressão, simbolizada pela morte dos jocosos cartunistas do Charlie Hebbo. Por outro lado, do ponto de vista dos assassinos jihadistas, significa apenas a punição prevista em suas leis sagradas a quem desrespeita Alá ou Maomé. É fundamental abarcar a irredutibilidade dessa dialética, entendendo que, de um lado, o ocidental tem o seu direito em crer que a liberdade de expressão é um deus seu a ser defendido e preservado acima de tudo, enquanto o muçulmano radical, de outro, também tem o seu direito de lutar até à morte pelo seu Deus.

Podemos momentaneamente reduzir a última página da relação conflituosa entre ocidente e Islã, o caso Charlie Hebbo, como uma disputa de deuses: Alá, o deus muçulmano “versus” a liberdade de expressão, a atual deusa ocidental. Notemos que para “eles” o deus é sempre o mesmo, enquanto para “nós” poderia muito bem ser outro. Percebendo isso, então, qual dos dois objetos é mais valioso, perene, e por que não dizer, necessário? Embora não seja uma solução elevar as leis de Alá acima das contingentes e muitas vezes confusas necessidades ocidentais, “nós” temos de considerar um espaço de igualdade para elas. Do contrário, só a expressão ocidental será realmente livre, o que, absolutamente, não representa liberdade alguma, mas sim a falta de liberdade dos outros em se expressarem. Se for assim, me desculpe, o ocidente merece sofrer a ira do inimigo até aprender que não deve ser mais livre do que ninguém.

O quadro é o seguinte: ocidentais fizeram livremente uma charge com valores muçulmanos sagrados “e” muçulmanos – radicais – fizeram a sua, em retaliação, não menos livremente, contra um valor ocidental sagrado, a liberdade de expressão. No entanto, a eleição da charge legal e admissível deve ser somente a que atende às necessidades e aos valores ocidentais? Claro, temos que considerar que a feitura de uma não envolve mortes, enquanto a outra, sim. A síntese das duas, não obstante, gerou mortes. Não seria o caso, então, de rever como esses valores se relacionam entre si, e aonde um pode respeitar o limite do outro? Pois, se é retaliação o que os radicais jihadistas alegam em respeito à charge que jocosamente “profanou” Maomé, e se isso é irredutível para eles, seria o fim do mundo ocidental privar-se de fazer troça de valores que para outros são sagrados? Maomé disse que se os inimigos os Islã infringissem tal conceito, os muçulmanos ficariam livres para, igualmente, o infringirem. Aqui, a palavra “reciprocidade” expressa melhor essa conjuntura.

A liberdade de expressão que o ocidente quer manter, a despeito mesmo da resposta recebida através do atentado parisiense, precisa, para existir, cruzar os limites daqueles que não podem ter seus limites cruzados? Os muçulmanos, mais ainda os seus radicais, não foram condicionados, como os ocidentais, a esquecerem de suas questões mais fundamentais na frente da TV ou sob pilhas de mercadorias e gordura. Para um muçulmano que se preze, “uma vez a luta iniciada, participai dela como todo o vigor e desferi os vossos golpes nos pontos mais vitais. Não podeis manipular a guerra com luvas de pelica”, conclamou Maomé, em pleno desacordo com a diplomacia moderna; até porque, segundo o profeta muçulmano, “nestes passageiros ensejos terrenos, a providência e a justiça de Deus nem sempre se apresentam evidentes aos nossos olhos”, por isso, para ele, “alguma destruição se faz necessária para se pressionar o inimigo, e por isso é permitida”.

Por mais radicais que pareçam as leis do Alcorão, há também nesse livro sagrado lições de moderação, muitas delas bastante parecidas com as ocidentais, como por exemplo: “Nosso dever é sermos tolerantes, dentro dos limites da tolerância”. Esse limite, no entanto, parece ser igualmente problemático, tanto a um muçulmano radical quanto a um ocidental, inclusive ao mais democrático; todavia, para aquele, tal limite é bem mais claro. O radicalismo ocidental, por sua vez, esquece-se de coisas que os muçulmanos, por lei, são obrigados a cumprir, como por exemplo, a advertência maometana de que “nem tampouco a paz deve ser negada quando o inimigo a propõe”, afinal “é possível que Deus restabeleça a cordialidade entre vós e os vossos inimigos, porque Deus é Poderoso, e porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo”. Mas, diante dos ditames ocidentais, quase nunca a voz do inimigo tem lugar, ainda que seja um clamor por paz.

Para encerrar, em contraposição à sagrada e ameaçada liberdade de expressão ocidental, essa que quer ter o direito de seguir atropelando livremente valores, sejam os seus próprios, sejam os alheios aos seus, vale a pena colocar uma singela referência à expressão humana contida no Alcorão, boa de um cartunista ter em mente no caso de desenhar profetas sagrados: “o rosto é a principal expressão da real essência do próprio homem; ele constitui, também, o índice da sua fama e estima”. Charlie Hebbo distorcia os rostos de quem caia em suas charges. Poderia, entretanto, ter evitado fazer o mesmo com o de Maomé, em respeito, ou até mesmo em precaução, afinal, há quase 1400 anos todos sabemos que tal ato obriga os seguidores do profeta a uma retaliação. De qualquer forma, considerando que a liberdade de expressão ocidental deva ser assegurada, qual o tamanho dessa liberdade? Deveria ser ilimitada, mesmo que dessa falta de limites decorra retaliações que roubem vidas ocidentais? Ou, antes, a liberdade mais importante a ser construída e compartilhada entre ocidentais e muçulmanos não seria, por ventura, aquela que os liberte finalmente da profanação daquilo que para cada um deles é mais sagrado, seja Maomé, seja a liberdade de expressão?

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