# s o m o s t o d o s j e s u i s c h a r l i e ?

Em poucos instantes as manifestações de solidariedade às vítimas do atentado contra o jornal Charlie Hebbo tornaram-se massivas. Assim também foi depois de o futebolista Daniel Alves ser simbolicamente chamado de macaco pelo arremesso de uma banana. Entretanto, manifestações de massa, ainda que objetivamente concatenadas em torno de objetivos únicos e legítimos, pela simples multiplicidade de seus agentes, guardam um universo de significados outros que, no calor e na imediatez das hashtags que as conduzem à constelação social, passam batidos.

A massiva replicação do “Je suis Charlie”, por sua vez, também oculta um desserviço, pois, de acordo com a dramática afirmação do psicólogo e sociólogo Gustave Le Bon, “pelo simples fato de pertencer a uma massa, o homem desce vários degraus na escala na civilização. Isolado, ele era talvez um indivíduo cultivado, na massa é um instintivo, e em consequência um bárbaro”. Se Le Bon está certo em dizer que há uma “diminuição da capacidade intelectual experimentada pelo indivíduo que se dissolve na massa” – ideia reiterada ulteriormente por Freud -, a primeira evidência provém justamente da frase-ícone que sucede as hashtags e que reúne essas massas solidárias.

Ora, ninguém que se solidarizou com o Alves era de fato macaco. Aliás, afirmar algo para negá-lo, embora irônico, é trabalho dobrado que não atinge diretamente o objetivo principal, se é que atinge. Tampouco os que hoje se dizem Charlie diminuem a gravidade da situação sofrida pelos doze funcionários do jornal com tal afirmação. Entretanto, através dessas afirmações impertinentes é que tais massas se formam, pois, “as massas nunca tiveram a sede da verdade. Requerem ilusões”, realizou Freud. Todavia, essas ilusões são verdadeiras, dado que cimento dessas mesmas massas.

A força dos “#somostodosmacacos” e dos “#jesuischarlie se utiliza de uma fraqueza nossa: “primeiro cedemos nas palavras, e depois, pouco a pouco, também na coisa”, afirma Freud. Depois de vermos e repetirmos que somos macacos ou Charlies, na medida em que vemos outros fazendo o mesmo, restam no mundo menos indivíduos indignados com o racismo e com o terrorismo e mais macacos e Charlies. “Tendo perdido a sua personalidade consciente, [o indivíduo massificado] obedece a todas as sugestões do operador que as fez perdê-la”, assegura Le Bon. Isso porque, completa o sociólogo, o indivíduo na massa adquire, pelo simples fato do número, uma ideia de poder revolucionário. Todavia, apenas uma ideia.

Sucumbindo à abstrata histeria coletiva que convence de que só em massa é possível revolucionar uma situação indesejada, aquilo de concreto que levou uma consciência individual às portas das hashtags meméticas, e que imediatamente a coopta e massifica, é diminuído. A partir de então, mais forte é a performance coletiva, na qual o indivíduo facilmente aliena-se daquele germe genuíno que o levou a pertencer à massa performática. Entrementes, é na concretude única da indignação individual, na sua distinção em relação à indignação dos outros indivíduos – porém, ao lado destas, sem no entanto confundir-se com elas -, que vive o germe concreto que, justaposto coletivamente, produzirá frutos não menos concretos.

A massificação enterra os milhares de propósitos individuais que, juntos, porém distintos, formariam um corpo heterogêneo e complexo, para colocar nos seus lugares, sobre a terra vazia, um único corpo, abstrato e homogêneo, passível de sucumbir à força de qualquer outra abstração igual ou maior que ele. O indivíduo, na massa, aponta Freud, “embora deseje as coisas apaixonadamente, nunca o faz por muito tempo, é incapaz de uma vontade persistente”. Isso porque a massa obriga “o indivíduo sacrificar facilmente o seu interesse pessoal ao interesse coletivo. Eis uma aptidão contrária à sua natureza”, completa Le Bon. É dessa forma que a coletividade tira a força efetiva e perene dos impulsos individuais. Além do que, em se tratando de soluções desejadas, porém ainda não encontradas, “o rebanho rejeita tudo o que é novo, inusitado”, alega Freud.

Os interesses coletivos estão a pretexto dos nossos interesses individuais, sempre menos genuínos que eles. Coletivamente, “performamos” mais no sentido de aprender com os outros novas maneiras de resolver questões individuais, para as quais não temos solução, do que solucionarmos questões globais com as nossas individualidades sempre limitadas. O problema da individualidade é que ela resume o universo – seus problemas e soluções – na órbita do indivíduo. Então, para aprendermos com os outros algo que nos escapa, devemos observá-los, conviver com eles até as suas diferenças nos parecerem habituais, nossas. Como disse Freud, “somente em massa os indivíduos suportam a especificidade dos outros”. Por conseguinte, é através das especificidades dos outros que encontramos soluções específicas para as nossas questões individuais.

Então, o que buscamos individualmente na adesão solidária e coletiva aos #somostodos e aos #jesuis, considerando que, segundo Freud, o egoísmo é a força que nos move? O psicanalista tem a resposta: a ideia da “mudança do egoísmo em altruísmo”, ou seja, a ilusão de que os outros importam tanto ou mais do que nós mesmos. A necessidade de esquecer, ainda que temporariamente, do nosso egoísmo estrutural é ancestral, dado que o homem primitivo “não amava ninguém exceto a si mesmo, ou amava os outros apenas enquanto satisfaziam as necessidades dele”, colocou Freud. Envergonhamo-nos dessa barbárie que insiste evolução-adentro, por isso o altruísmo nos faz sentir tão bem, mesmo que contrário aos nossos imperiosos interesses individual.

O filósofo Slavoj Zizek também sustenta que o altruísmo aponta para nada além de um egoísmo que não sabe se assumir, condenando inclusive os atos humanitários internacionais. Pois, apesar da “mise-en-scène” filantrópica, o que os ricos querem ao ajudar os pobres necessitados é, na verdade, a garantia, para si mesmos, de tal assistência em caso de, futuramente, sofrerem dos mesmos revezes. Eles, portanto, garantem, através da ajuda presente aos outros, ajuda futura a si próprios. Daí levam internet wi-fi a quem carece de água potável e bombas para onde a tensão social já é insuportável. Por conseguinte, de acordo com a ideia desse filósofo, a adesão humana e solidária à tragédia de um outro, por exemplo, às vítimas do jornal Charlie Hebbo, através do “hashtáguico” “je suis Charlie”, seria antes um clamor individual no sentido de garantir a quem o repete o seu próprio direito de expressão e de vida. Mas para enxergar isso é preciso aceitar que o egoísmo é a raiz dos nossos atos, ainda que, acima de sua superfície, ele tome reflexões altruístas.

No entanto, o corpo altruísta que devém desse egoísmo substancial pode gerar, e inclusive gera frutos positivos. Há um universo incontestavelmente bom na solidariedade, pois nela superamos esse egoísmo, ao modo de esquecê-lo. O problema é que, solidarizando-nos em massa, esquecemos demais do egoísmo individual, e nestes momentos nos iludimos de que o homem é um ser altruísta por natureza, o que não procede. Aliás, tal ilusão é o berço de novos e perigosos egoísmos. Como, então, aproveitar a positividade da massa sem que ela aliene o indivíduo de sua negatividade? O psicólogo William McDougall responde: “dotar a massa com os atributos do indivíduo”, isto é, “prover a massa daquelas mesmas qualidades que eram características do indivíduo e que nele foram extintas pela formação da massa”. Assim, o indivíduo, esse tijolo concreto, não desaparece na abstrata parede formada pela coletividade.

O indivíduo não deve, portanto, alienar-se de sua individualidade, pois nela, além de um egoísmo pernicioso a ser devidamente tratado, há uma indignação e um potencial únicos que, não obstante, é facilmente preterido e perdido em função da luta coletiva que se desenrola a partir dos #somotodosmacacos ou dos #eusoucharlie. A memória dos que morreram no atentado contra o jornal Charlie Hebbo ontem, em Paris, estaria mais solidarizada caso os milhares de indivíduos que se massificaram na sequência das hashtags, em vez de abstraírem-se nelas, ressaltassem as suas concretas individualidades e as colocassem, não menos concretamente, em solidariedade às vítimas de tal atentado. Por exemplo: eu, fulano, me solidarizo com beltrano, pelo mal imputado a ele por sicrano; ainda que, de acordo com Freud, o subtexto fosse: eu, fulano, me solidarizo comigo mesmo, no sentido de evitar que eu sofra de sicrano o mesmo que beltrano sofreu.

Para Freud, “a compaixão surge somente a partir da identificação”. Então, forçando a palavra “identificação” para além dos sentidos de reconhecimento e aceitação intencionados pelo psicanalista, e buscando o sentido de apontamento, de admissão que a palavra também possui, a compaixão, verdadeiramente, só viria após uma identificação inequívoca de quem a sente. Portanto, ao dizer “eu sou aquele com quem me solidarizo”, deixo de identificar quem verdadeiramente se solidariza, e o pretenso solidário se abstrai. Ora, há algo menos solidário que uma solidariedade abstrata, sem nome e sem rosto? Até parece que ela se esconde por saber do egoísmo que a move. Inversamente, mesmo que fossem em menor número, meia dúzia de fulanos, sicranos e beltranos individuais, devidamente identificados, portanto assumidos, seriam mais solidários. Aliás, por ventura há maior solidariedade do que a assunção da transposição do egoísmo imanente ao altruísmo transcendente?

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