O fenômeno da imagem

O que é uma imagem? Pensemos. Entretanto, como dar uma resposta precisa se a imagem vem antes do pensamento? Então, como saber disso se, de acordo com Gaston Bachelard, “em sua simplicidade, a imagem não tem necessidade de um saber”, não quer resumir conhecimentos. Isso porque a imaginação, quando se interessa por uma imagem, acrescenta-lhe valor, modifica-a, torna-a outra, embaralha qualquer saber prévio. As imagens resistem ao dimensionamento e à quantificação; isso é parte de sua natureza. A outra parte é que elas são feitas apenas para serem vividas, pois “a verificação faz as imagens morrerem. Imaginar será sempre maior que viver”, disse o filósofo.

Então, primeiro imaginamos, depois vivemos tais imagens, e isso é tudo acerca do fenômeno da imagem. Até as maiores obras de arte são simplesmente subprodutos tardios e parciais de um ser imaginante. É inútil insistir numa imagem, fixá-la, pois ela não substitui um objeto; não é cópia de um fato. É suficiente que a imagem exista; supérfluo que seja verdadeira: ela é! O importante, segundo Bachelard, é estar “presente à imagem no minuto da imagem; no próprio êxtase da novidade da imagem”. Como, então, pergunta-nos o filósofo, “viver os abalos que o ser recebe das imagens novas, das imagens que são sempre fenômenos da juventude do ser?” Como dar a nós mesmos, diante de uma mesma imagem, a oportunidade de novos choques?

Ora, o melhor jeito para viver o fenômeno da imagem – por mais tautológico que pareça, é fenomenologicamente. Isso porque a fenomenologia, sobretudo, abandona o passado para viver exclusivamente a novidade do fenômeno, de forma alguma reencenando espetáculos que já pertencem ao passado. Bachelard nos adverte de que, “para um fenomenólogo, procurar os antecedentes de uma imagem, quando se está na própria existência da imagem, é sinal inveterado de psicologismo”. O fenomenólogo da imagem, portanto, deve buscar a efemeridade de tudo o que passa pela sua imaginação, orientar-se pela brevidade das imagens que brotam incessantemente.

Se um átimo da imagem já é toda ela, isto é, tudo o que importa, o fenomenólogo da imagem, por conseguinte, não precisa se colocar em tocaia até que a imagem adentre totalmente na clareira do pensamento. Basta apenas que viva o ponto exato em que se encontra no fluxo de produção desta imagem, dado que “a imagem é a superação de todos os dados da sensibilidade”, aponta Bachelard. Especular demais sobre uma imagem é roubar-lhe o ser. Aí reside a diferença entre o fenomenólogo e o filósofo, pois este, com o seu afã lógico-dedutivo, perde da efemeridade essencial do ser imaginado.

A imagem é uma relação entre o real e o irreal, entre o ser e o não ser – não obstante já sendo. Cada imagem é ela mesma e outra coisa que não ela mesma. Bachelard diz que a “imagem tem um fundo onírico insondável. É preciso perder o paraíso terrestre para vivê-la verdadeiramente”; é aí que o fenomenólogo sabe lidar melhor com a imagem do que o filósofo, até mesmo do que o artista. “Imagens muito claras tornam-se ideias gerais. Bloqueiam a imaginação. Vimos, compreendemos, dissemos. Tudo está terminado”, completa Bachelard. A partir de então, só o fenomenólogo para perceber e trazer à luz uma particularidade nova e verdadeira da mesma imagem, para revivificá-la em sua a efemeridade necessária, cuja suspensão foi imposta pela racionalidade filosófica ou pela criatividade artística.

O metafísico está preocupado demais com o ser para lidar com o necessário e efêmero devir da imagem. Para ele, a imagem ainda é um nada, um vazio a ser ulteriormente preenchido. “O vazio, essa matéria da possibilidade de ser!” (Bachelard), nas mãos do filósofo, já deve ser; do contrário, não sendo plenamente, nada há que possa ser precisado a seu respeito. Quando Bachelard diz que a imagem não precisa ser confrontada com a realidade objetiva, é fácil entender por que a essência da imaginação escorre entre os dedos do pensamento filosófico. Entretanto, por ser um entremeio entre o ser e o não-ser – todavia já sendo -, “a imagem torna-se um novo ser da nossa linguagem. […] É um devir do nosso ser”, completa Bachelard. E é esse ser que deveio, isto é, o corpo de linguagem que doravante expressará o que primeiro foi imaginado, o objeto sobre o qual trabalhará o filósofo. Como “no reino das imagens, não pode haver contradição”, como assegurou Bachelard, os seres provenientes desse reino, por conseguinte, não serão alienígenas à lógica filosófica.

Já o artista, em oposição ao filósofo, trata as imagens com demasiada realidade, como se já fossem objetos – ou pior, substitutos de objetos – conduzindo-as ao mundo, materializando-as apressadamente. No entanto, como disse Bachelard, até “a imagem mais simples se duplica”; portanto, a realização – artística – de uma imagem é apenas parte do fenômeno, não todo ele. Disso o fenomenólogo não se esquece. O artista é seduzido por suas imagens! Mas, apesar de elas o seduzirem tardiamente, “não são fenômenos de uma sedução”, garante Bachelard. Seduzida, a criatividade artística enxerga na imagem mais do que ela mesma, modifica-a; pois, além de uma pitada de valor mudar tudo, uma imagem modificada perde suas virtudes iniciais.

O fenomenólogo, por sua vez, exagera não as imagens com as quais lida – objetos incólumes que devem ser as imagens -, mas o exagero que ele mesmo coloca sobre elas, a fim de não alterá-las, pois só assim perceberá o fenômeno que são. Para Bachelard, “a fenomenologia da imaginação não pode transformar as imagens em meios subalternos de expressão”, como faz o artista. Tampouco o fenômeno da imagem é uma ferramenta à verdade, como querem os filósofos, dado que a imagem dispensa tal qualidade – ela “é” inclusive quando falsa! O fenomenólogo da imagem, antes, deve viver as suas imagens diretamente, como um acontecimento súbito da vida. E mais: notar o que une e o que separa o imaginador do mundo já imaginado.

Aqui é fundamental perceber a diferença entre imaginar e rememorar imagens passadas, pois a imaginação, para Bachelard, “desprende-nos ao mesmo tempo do passado e da realidade”, enquanto a rememoração, como bem sabemos, nos ata diretamente a ambos. Relembrar é, sobretudo, reapresentar algo anterior; é representar! Porém, se a imaginação é necessariamente a súbita presença de uma evanescência, como quer Bachelard, uma representação é tudo menos o fenômeno da imaginação. Antes, “a representação é dominada pela imaginação, […] não é mais que um corpo de expressões para comunicar aos outros nossas próprias imagens”, reforça o filósofo. De forma alguma o fenômeno da imagem em sua súbita vida. A representação veio para ficar.

Schopenhauer, todavia, disse: “o mundo é a minha imaginação”. Ora, isso só pode ser uma verdade para a fenomenologia da imagem bachelardiana, enquanto esse mundo imaginado pelo filósofo alemão for absolutamente contemporâneo à imaginação que o imagina. No instante seguinte, ou seja, na próxima imagem, o mundo de Schopenhauer deve ser necessariamente outro, seguindo a efemeridade do fluxo imaginativo. De outro modo, ele estaria relembrando um mundo passado, fruto de uma imagem igualmente passada. Entretanto, este filósofo parecia saber disso, pois no título de sua obra mais importante, “O mundo como vontade e representação”, ele não sustentou a imaginação a constituinte do mundo, mas sim a representação.

Por outro lado, ainda que uma imagem não possa construir nem carregar consigo o mundo todo, pois sempre mais jovem e fugidia que ele, “uma imagem por vezes singular pode revelar-se como uma concentração de todo um psiquismo”, isto é, de todo um mundo interior; lembrando que, para Bachelard, “no reino das imagens, o jogo entre o exterior e a intimidade não é um jogo equilibrado”. Os maiores fantasmas e angústias, portanto, também podem ganhar vida através das nossas imagens. No entanto, tranquiliza-nos o filósofo, “todas as imagens são boas desde que saibamos nos servir delas”.

Qual é, por conseguinte, o melhor jeito de nos servirmos dos fenômenos que são as imagens? Imaginando-as, ora bolas, e vivendo-as imediatamente enquanto efemeridade que são; até o limite de se tornarem memória. A partir dessa fronteira, encerra-se o fluxo da imaginação, e a insistência de uma especulação, ou a permanência de uma opinião, já significam impertinências diante da imaginação; funcionam mais como estrangeiras colonizadoras, oprimindo o frescor da imagem à representação de algo outro que não a sua subitez essencial. A imagem não é meio para nada além dela mesma! Qualquer coisa posterior à imaginação, para ela, já é artificialidade, isso porque, para Bachelard, “a imaginação é a faculdade mais natural que existe”.

Então, para sermos exímios fenomenólogos da imaginação, quando diante do fenômeno residente em cada imagem, devemos lembrar de que o trabalho é sempre mais leve e mais curto do que parece. Tudo o que foi dito aqui acerca da imagem e da imaginação, na verdade, deve figurar mais como um totem, indicando que qualquer ideia, conceito, utilidade ou verdade já significa redução do fenômeno em questão. Afinal, inclusive estas recentes palavras já são passado, já foram imaginadas! Aliás, para bem fruir a essência de uma imagem, é indicado deixar o mundo todo para trás. A imagem que imaginamos agora é uma; agora já é outra; e outra; e outra. Por que perder tempo atrasando esse fluxo natural com cristalizações? A imagem é!, todo resto é outra coisa, outras imagens. Não as misturemos, não as confundamos. Assim, a um só tempo, ao passo que sabemos o que é a imagem, sabemos o que é o fenômeno.

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