Resistência à educação da pátria

Resistência à educação da pátria

Menos de vinte e quatro horas depois de a presidenta reempossada dizer ao país o lema do seu novo governo, “Brasil, pátria educadora”, muitas recepções negativas e precipitadas já demagogizam histericamente na superfície da ideia tornada meta nacional, mas que, tomada comprometida e positivamente, pressupõe uma profundidade rica e democrática capaz de absorver a todos os brasileiros.

Pois bem, alguns, como o admirável Jean Wyllys, estão dizendo que o lema deveria ser algo do tipo “uma nação quer educação”, mais atentos que estão ao fato da falta de educação ainda existente no país. Entretanto, um lema que se preze não deve ser a expressão da análise que levou até ele, mas, antes, a assunção de um ideal que, quando realizado, torna desnecessária a afirmação daquilo que levou à sua aplicação. O futuro do lema perfeito é a afirmação do objetivo realizado.

Sendo assim, em respeito a sugestão de Wyllys, fazer da realidade deficitária o próprio lema é, sobremaneira, contraproducente no que tange revolucionar essa mesma realidade. O lema, por conseguinte, deve ser algo de certa forma alienígena a essa realidade, não obstante contemplando-a, como que contrapondo-a. A virtude de um lema é ser capaz de modificar e de revolucionar a realidade, não epitetá-la. Ora, Jean, fazer do lema aquilo que ele deveria superar é não sair do lugar.

Como acredito que o jovem político tem boas intenções para com o Brasil, sua precipitação em criticar o novo lema presidencial revela muito mais um enovelamento demagógico em suas ideias, na esteira do é melhor criticar do que se comprometer com a experiência proposta e, portanto, se tornar passível da crítica que ele mesmo desfere.

É óbvio que somos uma nação que quer educação, Jean Wyllys! O problema, na verdade, é que os nossos políticos sempre fingiram escutar tal clamor, governando, contudo, para outros lados, no mais das vezes os seus. A despeito do povo que há muito exige e merece educação para si, ela sempre existiu, boa, forte e disponível, no entanto, apenas às minoria privilegiadas e empoderadas. Nesse sentido, o Brasil, para uma fatia muito seleta, sempre foi uma pátria educadora.

Entretanto, ao propor uma pátria educadora “e” um contexto de maior igualdade e democracia, o que o governo de Dilma introduz no cenário futuro, a contragosto de muitos, é que o Brasil seja uma pátria que eduque a todos os brasileiros, e não somente os que historicamente monopolizaram tal benefício.

Sendo assim, os que de imediato se colocaram contra essa “pátria educadora”, desenhada e projetada através do lema de Dilma, não entendem que, como colocou Gaston Bachelard, “o desenho é mais ativo com relação ao que ele encerra do que a respeito do que ele desprende”. Dando destaque especial para um dos sentidos da palavra encerrar, o de dar dar cabo de algo, o que precisa findar é a pátria que apenas educa as minorias privilegiadas.

Por outro lado, o que se “desprende” do lema oficial do novo governo, preterido aqui com a ajuda do filósofo, são interpretações mais fracas e inócuas, não obstante compradas pelos que não visualizam a positividade revolucionária de tal meta. A educação está, finalmente, colocada como escopo primeiro do governo brasileiro, num ato de comprometimento público declarado. Agora, mais do que nunca, podemos cobrá-lo, porquanto um expressão compromete fortemente quem a expressa com aqueles a quem ela é expressada.

Devemos atentar para o fato de que não é a frase-veículo do lema o meio, nem o instrumento fundamental da revolução. Antes, um lema é apenas um tótem, uma metáfora de algo muito maior e muito mais complexo, impossível de ser expresso de forma tão econômica e icônica. Como salientou Bachelard, “a metáfora é relativa a um ser diferente dela”. Levá-la ao pé da letra, portanto, é alienar-se do sentido forte que toda metáfora, no significado original da palavra, em grego, “transporta”.

Um projeto de solução é tornado um edifício problemático já arruinado porque, diante de um objeto novo – no caso o lema objetivo anunciado por Dilma – alguns não visualizam, ou não querem visualizar, uma distância possível e transponível entre os fatos passados e presentes, carentes de revolução, e um futuro revolucionado; dificultando, assim, ativa e/ou propositadamente, a mudança.

Todavia, se é a alegação dos fatos o que invalida o valor do lema da nossa presidência para alguns, seria bom estes terem em mente a afirmação de Bachelard: “os fatos não explicam os valores”. Ao contrário, são os valores que explicam, e por que não dizer, constroem os fatos. Resta, então, avaliar os valores de quem resiste ao fato de o Brasil propor-se ser, oficial e universalmente, uma pátria educadora.

Não há nada de errado em questionar os valores do novo governo, bem como o seu novo lema. Isso é inclusive salutar e político! No entanto, precipitar-se em ajuizar tal lema, antes mesmo de verificar seu devir, fala mais dos valores de quem ajuíza do que do objeto ajuizado.

Bachelard disse que “uma pitada de valor muda tudo”. Disso podemos ver, de um lado, o que os valores dos inimigos do recente lema presidencial fazem dele; e de outro, os valores do governo que o anuncia, na assunção pública de que a educação ainda falta ser democratizada, apesar de existente e historicamente reservada às minorias; valores tornados públicos na forma de lema.

Se Bachelard está certo em dizer que uma pitada de valor muda tudo, podemos, portanto, temperar essa pátria educadora insistida por Dilma com valores que mudem – positiva, e não negativamente – o que está mal e o que deve ser mudado, e não justamente o “transporte” que se propõe a nos afastar do problema em questão.

Que os brasileiros consigam construir, conjunta e paulatinamente, um futuro liberto das vicissitudes do passado. Para tanto, a educação tornada lema da pátria é veículo essencial. Em função disso, a crítica intempestiva, que nas redes sociais e nos veículos de comunicação em massa faz do crítico algo maior que o objeto criticado, tal crítica deve deixar de ser a senhora de suas próprias verdades, mas sim educar-se patrioticamente, e doravante colocar-se como operária-meio-veículo-metáfora da mudança cuja direção está iconicamente apontada pelo novo lema: “Brasil, pátria educadora”.

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