Uma anatomia do arrependimento

É impossível se arrepender de um arrependimento. Esse sentimento é protegido de si mesmo, foi feito para ficar, pois querer que ele desapareça é desejar a recorrência do erro e, portanto, a reaparição do mesmo arrependimento. Arrepender-se é manter friamente o ato que o gera em sua própria esfera de cometimento; é, simultaneamente, o espelho, a face do erro e a reflexão de um no outro.

O arrependimento é o desejo de não ter feito algo, encurralado, por um lado, pelo fato desse algo ter sido feito, e por outro, pelo incontestável desejo de não mais fazê-lo. Arrependidos, comprimimos estreitamente passado, presente e futuro através de uma angusta e inalienável casuística cuja responsabilidade é totalmente do sujeito arrependido. O arrependimento, portanto, nunca é imposto a partir de fora. Caso fosse assim, a aceitação do erro encontraria um subterfúgio, e poderia ser encoberta através da polidez. Arrepender-se é viver um agora que, verdadeira e intimamente, sofre o antes em função do depois. Senda demasiado próxima do real, onde o desvio identifica-se com o atalho.

Todavia, há certos gozos no arrependimento. Primeiro, a descoberta de limites livremente autoimpostos, mas que são evidenciados somente retrospectivamente, depois de ultrapassados; daí, em segundo lugar, a consciência de não ter ficado aquém do possível – o que pode ser um outro tipo de angústia -; e por fim, a antevisão de um horizonte livre daquilo que, no momento, o macula através da desagradável forma de um arrependimento.

A gravidade do arrependimento torna-se graça à medida da transformação que provoca no agir do sujeito que o sente. Entretanto, tal gravidade pode perdurar indefinidamente, o que colore o arrependimento com suas piores tonalidades. Isso procede da não aceitação do erro quando ele é evidente, pois essa resistência gera uma angústia suplementar: a de poder ser surpreendido pelo mesmo erro futuramente. Ou, talvez, porque a lição não tenha impresso, ainda, no pensamentos desse sujeito, um plano exequível de futuro livre de tal erro e, por conseguinte, livre desse arrependimento.

O arrependimento é a anatomia de uma evolução em forma de sentimento. É excesso de certeza; aliás, uma certeza cuja insistente presença chega a ser indesejada. O arrependimento, que a esta altura deve ser visto como a certeza inalienável de um erro, leva, no mínimo, para além de sua esfera de acontecimento. Arrependidos, somos melhores do que aquele sujeito imediatamente anterior que cometeu um ato do qual o sujeito presente, verdadeiramente arrependido, trabalha para não mais cometê-lo.

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