Uma filosofia sobre o Natal

O nascimento de Jesus é um mito improvável que, há exatos dois mil e catorze anos, insiste realidade-adentro. A concretude do mito do nascimento de Jesus, contraposta à abstração que tal nascimento é, mantém um espaço de tensão mítica no qual o homem aliena-se da falta de sentido do seu próprio nascimento através do sentido absoluto do nascimento do filho de Deus. Isso se dá, conforme colocou Adorno, porque “a vida acha-se polarizada segundo o totalmente abstrato e o totalmente concreto”; isto é, que ela só existe na tensão irredutível entre os dois. Entrementes, para tocarmos a verdade do mito do Natal, façamos conforme sugeriu o filósofo, resistindo e negando a todo seu conteúdo particular.

Então, a negação do conteúdo do nascimento de Jesus deve ser a radical negação de um nascimento. No caso de Jesus, aliás, negação dupla, dado que, por um lado, foi um nascimento a partir de uma virgem, e por outro, fruto de uma fecundação proveniente de um espírito. Na natureza como a conhecemos, ambos os progenitores de Jesus seriam incapazes de gerar um filho. Porém, o mito do nascimento de Jesus nega o concreto natural, colocando o abstrato mítico em seu lugar. Tal estratégia mítica, entretanto, é mais um atalho que um desvio! Como afirmou Adorno, “o sujeito é a figura tardia do mito e, no entanto, ao mesmo tempo, a figura mais similar à sua forma mais antiga”. Desse modo, a existência do mito do nascimento de Jesus tem por finalidade não Deus nem o Seu filho, mas o homem mesmo em sua forma mais antiga, qual seja, a sua forma primeira, a de um recém-nascido.

Ora, se uma criança que não tinha como nascer nasce, e mais, esse nascimento torna-se o mais importante de todos, é na ilusão mítica, e não na realidade concreta, que o sentido acerca do nosso nascimento encontra um meio de ser. Todavia, que sentido seria esse simbolizado pelo nascimento de uma criança que, a despeito da natureza, rompe a barreira da realidade e nasce? Bem, Adorno reitera que “o sujeito recria o mundo fora dele a partir dos vestígios que o mundo deixa em seus sentidos”, o que, de imediato, condiciona a instituição do mito do nascimento desafiador de Jesus à sensações provenientes do nascimento de todos os sujeitos.

Seria a estrebaria na qual o Filho dEle nasceu simbolização á primeira impressão de todo neonato em respeito ao mundo no qual adentra? E a virgindade da mãe Maria, por sua vez, não seria a crença necessária de todo recém-nascido de que a mãe e o sexo dela foram inaugurados por ele, no ato do nascimento, porquanto é somente depois de nascida que a criança descobre a existência da mãe enquanto um sexo determinado, em contraposição a outro, o do pai? Tal virgindade materna não decorreria, antes, da necessidade do bebê de que a mãe fosse, e por todo o sempre tenha sido, só dele, e de ninguém mais? E, por conseguinte, a ideia do progenitor enquanto um ser imaterial não seria a percepção do bebê da não necessariedade da existência material do pai?

Independente das respostas a estes questionamentos, as idealizações do mito do nascimento de Jesus falam, sem erro, embora abstratamente, de experiências sensíveis e concretas presentes no nascimento de todos os homens. Porém, os que cultuam tal mito têm nesse culto um funcional exercício de alienação em relação à sensações ancestrais, provavelmente desagradáveis, oriundas de suas chegadas ao mundo, bem como da falta de sentido percebida nos seus nascimentos. Se, como disse Adorno, “a necessidade de dar voz ao sofrimento é condição de toda verdade”, a voz dada ao sofrimento presente em todo nascimento encontra algo de sua verdade no mito do nascimento de Jesus, porém, ao modo de alienar-se desse sofrimento. Entrementes, é aí que reside a verdade desse mito!

O mito do nascimento do filho de Deus, portanto, é a tentativa humana de dar um novo nascimento à humanidade; de pôr no mundo uma humanidade parida de uma virgem e de um pai etéreo, liberto das vicissitudes materiais, mas,por outro lado, dono do universo. Porém, como Adorno não nos deixa esquecer, “um novo começo […] é a máscara de um intenso esforço por esquecimento”. Ora, o esquecimento que o mito do nascimento de Jesus promove é o da certeza desagradável de que a mãe já fora abusada pelo mundo, e mais ainda, pela presença concreta e material do pai e do seu falo. Entrementes, enquanto nascer Jesus, todos os anos, miticamente, o homem pode voltar a nascer de uma mãe virgem; eternamente sua; sem a contribuição do falo egoísta do pai. Parece confuso? Pois bem, “a falsa clareza é apenas uma outra expressão do mito”, relembra-nos Adorno.

O sentido do nascimento de Jesus atende à sensação inquietante nos homens de que não há sentido algum em nenhum nascimento, dado que, aquilo que possui sentido não pergunta sobre ele. Então, sempre que perguntamos por sentido, é porque ele nos falta. O sentido do nosso nascimento, ainda que inexistente, é dado por quem pergunta: ou por não haver sentido algum mesmo, ou, do contrário, havendo um sentido, este ser incompatível com a expectativa de sentido característica do homem. Sendo assim, diante da impossibilidade concreta de nos apossarmos do sentido do nosso próprio nascimento, fazemos mão de histórias abstratas que nos alienem dessa impossibilidade; pois, sem tais mitos, o improvável permaneceria mudo enquanto as nossas expectativas tagarelam em torno dele.

Não devemos duvidar de que, conforme Adorno, “o sujeito está no centro, e o mundo é uma simples ocasião de seu delírio”. O mito do nascimento de Jesus, portanto, é a ocasião mitológica de conviver com delírios provenientes da aurora primordial do nascimento. Devaneios produzidos, não obstante, pela percepção de que tal centralidade pressuposta pelo ser que nasce nunca existiu, pois nascer é perceber que o mundo não tem centro, e que este nunca o pertenceu. Sobremaneira, a falta de sentido nos nascimentos dos homens é motriz de muitos outros delírios, porém, todos racionalizados nas formas – funcionais e entretenedoras – dos nossos muitos mitos.

Se, como disse Adorno, um membro normal da sociedade substitui a sua paranoia pela participação na paranoia coletiva, agarrando-se às formas objetivadas, coletivas e comprovadas, ou seja, ao delírio coletivo; a aderência ao mito do nascimento de Jesus, como ideal do nascimento humano, portanto, é o abandono da paranoia ocasionada pela falta de sentido do nosso próprio nascimento. É em Jesus nascente que reside o sentido que todo o nascimento deveria ter em si, mas que, de acordo com a realidade que estamos carecas de conhecer, só existe negativamente, ou seja, na necessidade insuperável de que assim fosse. Nosso nascimento individual é, contragosto nosso, desnecessário. Todavia, podemos dar a volta nessa contingência incontestável através de mitos que insistam nascimentos necessários. No Natal, o mito do nascimento de Jesus.

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