A maestria egoísta do inconsciente

Levando em consideração a afirmação de Freud de que os sonhos são realizações de desejos, porém, que eles não têm capacidade para agir logicamente sobre o material que são – pois a lógica pertence à consciência – pode-se postular, de pronto, que sonhar é realizar incoerentemente tais desejos. Ora, o fato de crermos que os desejos são feitos para serem realizados é uma dedução lógica-racional, demasiado humana, que, no mais das vezes, não é – e talvez não exista para ser – corroborada pela realidade, apesar de a consciência fazer vista grossa a respeito isso.

Todavia, a lógica da realização dos nossos desejos, na incapacidade de vingar totalmente no plano racional-consciente, recorre ao seu oposto, ou seja, à irracionalidade onírica inconsciente atuante nos sonhos, para assim dar conta dos desejos até então órfãos de realização. Talvez, como percebeu Freud, esse apelo aos sonhos se dê porque “o ‘não’ não parece existir no que diz respeito aos sonhos. Os sonhos se sentem livres”. Logo, esse éden permissivo do mundo da inconsciência é um chão fértil no qual se pode plantar e imediatamente colher frutos suculentos e saciantes indisponíveis na aridez do deserto da realidade consciente.

De acordo com o psicanalista, os sonhos não trabalham com tolices. O trabalho do sonho, portanto, é sério e busca alcançar objetivos psíquicos não menos sérios. Portanto, mesmo em sonhos de aparência tola temos dificuldade em entender a seriedade e a necessariedade do trabalho inconsciente que os realiza. Isso porque, para Freud, “sentimo-nos tentados a crer que os sonhos possuem uma capacidade de produção independente”. Porém, “o sonho nada mais faz do que entrar em sintonia com nosso estado de espírito”, completa o filósofo Fichte. Sendo assim, o inconsciente e as suas produções oníricas, embora independentes da esfera consciente do nosso espírito, estabelece uma dialética necessária com ela. O sonho contempla, por conseguinte, a parte do espírito que não encontra espaço entre os desejos conscientes que não alcançam realização no tempo da vigília.

Freud, relembrando-nos de que “Platão considerava que os melhores homens são aqueles que apenas sonham com o que os outros fazem em sua vida de vigília”, ou seja, com trivialidades, assegura-me aqui o compartilhamento de um sonho banal, cujo roteiro, no entanto, intrigou-me profundamente. Pois bem, nesse sonho, um homem estava a uma mesa vazia, nada mais. Pensei, então, o que ele estaria fazendo ali de mãos abanando. Imediatamente o homem já estava rasgando, com as suas mãos e com certa dificuldade, uma laranja. Achei que ele poderia usar uma faca para isso. Eis que, súbito, ele descascava suavemente a fruta com o talher, para em seguida espremer a laranja descascada, colhendo o líquido com a sua boca aberta. Lá de dentro da fábrica do inconsciente, novamente impliquei com o labor onírico: por que tanta dificuldade em tomar o suco? A esta altura, não foi surpreendente ver que o homem já estava com um copo cheio do sumo, sorvendo-o, do jeito que eu recém havia imaginado.

O sonho não foi muito mais longo do que isso, nem mais profundo. Diria que foi tolo. Entrementes, a despeito dos desejos reprimidos que ele, psicanaliticamente falando, intentava contemplar, o que chamou atenção foi o fato de o sonho atender, pronta e subservientemente, aos desejos-imaginações dessa não sei que parte minha que permanecia consciente e observadora dentro dele. Se é verdade que os sonhos têm como função a tarefa de eliminar tensões excessivas, como analisou Freud, outrossim, o meu sonho tolo atarefou-se em eliminar as tensões que eu ia percebendo nele, fazendo do produto onírico que ali era gerado algo absolutamente de acordo com a minha necessidade – consciente ou semiconsciente. Bem, interpõe-se o psicanalista, “não precisamos investigar agora o sentido integral do sonho. Isso, pelo menos, está bem claro: ele tinha um sentido, e este estava longe de ser inocente”, ou tolo, como eu o havia tomado inicialmente.

Ora, se não havia inocência alguma no fato de o homem do meu sonho ter todas as suas dificuldades-tensões suprimidas no passo em que eram percebidas por mim, trata-se de uma espécie de exibição de poder da inconsciência. Por um lado, ela se esmerava em trazer à arena onírica justamente o que nela “era faltado” por mim, suprimindo magicamente as tensões que a minha observância consciente lançava sobre o fazer inconsciente. Por outro, zombava dos pressupostos através dos quais eu tentava compreender o sonho, manipulando a cena e desdramatizando, imediata e absolutamente, a existência onírica daquele homem sentado à mesa. A realidade daquele sonho, produzida pelo inconsciente mediante a observação crítica de algo consciente nela presente, era a exibição impertinente da sua liberdade, bem como da sua capacidade e, não menos, da sua diferença em relação à contingente realidade pressuposta pela consciência.

Freud, contudo, afirmou que todos os sonhos são inteiramente egoístas, e que quando em um sonho aparece algum altruísmo, estamos apenas sendo enganados pelas aparências. Então, em respeito à aparente subserviência do meu inconsciente diante das observações da minha consciência sobre o seu trabalho – ou seja, as imediatas soluções que ele dava ao que faltava àquele homem à mesa -, tudo aquilo visava apenas o próprio inconsciente. O homem do sonho, ao ser “salvo de estar à mesa vazia – depois, da dificuldade em descascar a laranja; e, por último, do mirrado suco que escorria da fruta apertada pela mão -, tal “salvação” era o inconsciente trabalhando exclusivamente em função de si, e não em favor da minha observância crítica, embora ela pensasse ser o foco ativo da representação.

Agora, se os sonhos se utilizam mesmo de sensações de natureza desprazerosa, provenientes de fontes somáticas, das quais o trabalho do sonho faz mão para representar a realização de desejos reprimidos, como disse Freud, o trabalho do meu sonho tolo, isto é, o de resolver a toque de caixa as faltas percebidas naquele sujeito onírico, tal trabalho não evidencia outra coisa que a solução do inconsciente para o desprazer que é saber que, na realidade desperta, isso é impossível. Comprando a afirmação do psicanalista de que o material psíquico que foi reprimido durante o dia torna-se a força motriz dos sonhos durante a noite, o roteiro do meu sonho, que imediatamente oferecia o que faltava àquele sujeito, atesta que, na minha realidade desperta, há latente o desejo não atendido de ter o atendimento instantâneo dos meus desejos; pelo menos não com tanta facilidade e instantaneidade como aquele sujeito onírico experimentava diante do meu observar, ao modo de exibir-se para mim.

A realidade inconsciente e o seu laborar onírico riem das limitações percebidas e sofridas pela consciência, resolvendo-as, sem esforço, no ritmo de suas representações. Freud defende que o sonho se vale não dos elementos da realidade, apesar de usá-los. Mas seu valor está no estabelecimento de “pontes” só suas com as quais liga estes elementos que, na realidade desperta, nunca se conectariam. Assim as impossibilidades são suprimidas inconscientemente. Já as limitações não podem deixar de serem vistas, sobretudo, como realidade da consciência, com as quais o inconsciente só se relaciona ao modo de resolvê-las, dialeticamente.

Para Freud, o sonho só consegue produzir essa nova versão da realidade, liberta e libertadora de repressões, abandonando o sentido com o qual a realidade repressora-reprimida chega às portas do espaço onírico. O sonho, portanto, gera novos sentidos, todos, no entanto, à prova de repressão. Ora, diante da repressão ativa não estamos mais em solo onírico, mas no deserto entrópico da realidade consciente produtora de repressões. O espetáculo do inconsciente, a saber, o sonho, de acordo com as ideias do psicanalista, não funciona para entreter, preencher ou remendar a realidade consciente, sempre rota e faltante, mas sim no sentido de estabelecer uma dialética irredutível com ela, sustentando que, em se tratando da arena psíquica, ele, o inconsciente, é a estrela.

O trabalho do sonho é a sua finalidade, disse Freud; e em tal finalidade está embutida a evidência descarada de uma maestria natural em lidar com tudo aquilo que para a consciência em vigília é impossível realizar. A consciência, ao reprimir as suas irrealizações, na esperança de alienar-se delas, para assim restaurar a sua dignidade, defronta-se com o inconsciente que não se mixa diante do que, para ela, é impossível. Ao contrário, esfrega na cara dela, no mais das vezes pesando a mão, isto é, exagerando no onirismo, a facilidade com que supera as repressões geradas pela consciência.

Se no meu sonho o homem permanecesse à mesa, de mãos vazias e entediado; ou se, ainda que com uma laranja na mão, porém, sem o talher adequado, permanecesse na dificuldade de descascá-la; sem que oniricamente essa problemática fosse resolvida, talvez aí a minha consciência observante não tivesse se intrigado, pois veria nada mais que o prolongamento de si inconsciente-adentro. Entretanto, como Freud insiste em sustentar, “nenhum sonho é instigado por moções que não sejam egoístas”. Disso decorre que, no Odeon onírico, o espetáculo é encenado pelo, e direcionado para o próprio inconsciente, e para ninguém mais – mesmo que alguma consciência penetra se esgueire pelos bastidores. Os elementos da esfera consciente presentes no palco do sonho figuram, então, apenas como adereços ou cenários temporários, isto é, como objetos funcionais, todos coadjuvantes da grande diva do sono: o inconsciente sonhador que todas as histórias pode contar, inclusive aquelas impossíveis à consciência.

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