Relações topofílicas

A topofilia é nada mais que o amor pelo lugar, porém, mais especificamente, por um lugar carregado de imagens felizes; ou seja, pelos espaços que nos fizeram, ou ainda nos fazem felizes. A topofilia, portanto, diz respeito aos espaços que louvamos. Para o filósofo Gaston Bachelard, somente alcançamos o conhecimento topofílico através de uma “fenomenologia do habitar”, pois só ela traz, ao modo de nos relembrar, os momentos de verdade da nossa aventura habitante.

Se, como diz o filósofo, “o ser é imediatamente um valor”, e também que “o ser reina numa espécie de paraíso terrestre da matéria, fundido na doçura de uma matéria adequada [parecendo] que nesse paraíso material o ser é cumulado de todos os bens essenciais”, o ser topofílico de valor absoluto é, sem erro, a casa material mais presente na nossa memória. Nela, pela primeira vez, percebemos a divisão do universo em dois: a nossa casa e o resto; muito embora casa e universo não sejam dois espaços justapostos, mas uma única e mesma coisa. Segundo Bachelard, o que divide o universo em dois é a ideia de que “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz”.

Essa fenomenologia do habitar de que fala Bachelard, que encontra na casa natal o seu espaço excelente, trata o espaço como necessário, e o tempo, porém, como contingente, dado que, segundo ele, “mais urgente que a determinação das datas é, para o conhecimento da intimidade, a localização dos espaços da nossa intimidade”. Isso porque a memória não registra a duração concreta, real, o que nos impede sobremaneira de revivermos as durações expiradas conforme as suas cronologias. Contudo, é a memória, em forma de espaço habitado, que estabelece uma dialética com os delimitados espaços de nossas felicidades íntimas, e, por conseguinte, gera a “philia” (amor) por esse “topos” (lugar).

“Em seus mil alvéolos, o espaço mantém o tempo comprimido. É essa a função do espaço”, coloca Bachelard. Então, o espaço seria o Senhor do tempo, e este, escravo daquele; isto é, o tempo estaria sujeito às necessidades do espaço, pois, de acordo com o filósofo, “o inconsciente permanece nos locais”. Se as lembranças são imóveis, elas não acompanham o devir temporal. Aliás, qualquer lembrança é o desafio absoluto em respeito ao tempo, insistindo o passado presente-adentro com uma fidelidade que, deixada apenas nas mãos do tempo, desgastar-se-ia. A memória é uma espécie de anti-tempo, espacialmente entrincheirada, que faz de todos os lugares historicamente habitados o espaço único do ser.

Adentrando o espaço topofílico essencial, definido por Bachelard em vias da fenomenologia do habitar, estamos no interior da casa natal que está, física e geograficamente, construída em nós, figurando insubstituível como o espaço dos hábitos orgânicos mais primitivos. Nas palavras do filósofo, “a casa natal gravou em nós uma hierarquia das diversas funções de habitar. Somos o diagrama das funções de habitar aquela casa; e todas as outras não passam de variações de um tema fundamental”. Dessa forma, as felicidades que experimentamos em quaisquer lugares subsequentes à casa natal – ao longo do tempo corrompedor – são felicidades que, não obstante, intentam recolocar-nos naquele espaço feliz primordial, em cuja segurança os nossos sonhos estavam em paz, resguardados do resto do universo.

Por mais que a civilização faça do espaço universal cada vez mais a nossa casa, Bachelard adverte-nos de que “o inconsciente não se civiliza”, ou seja, não encontra espaço feliz fora das “paredes” entre as quais habita desde o seu “nascimento”. Ora, essa reclusão necessária do inconsciente dentro de sua própria morada faz com que a casa primordial deva, de alguma forma, resguardar-se do mundo através de paredes simbólicas; entrementes abrindo-se ao exterior também através de portas e janelas simbólicas. Por isso Bachelard diz que a casa natal “pertence à literatura de profundidade, isto é, à poesia, e não à literatura eloquente, que tem necessidade do romance dos outros para analisar a intimidade”.

A partir da soleira da nossa casa primitiva estende-se o universo restante, o tempo cronológico, a realidade impiedosa e, mais traumatizante ainda, os outros. Lá fora encontramos mais caminhos que refúgios. Entretanto, Bachelard reconhece o espaço universal além-casa de forma generosa, afirmando: “que lindo objeto dinâmico é um caminho!” Esse dinamismo dos caminhos universais apontado pelo filósofo reitera, portanto, que o tempo fica do lado de fora das quatro paredes natais que, não obstante, resguardam nada além da nossa topofilia original.

Podemos pensar o exterior da nossa casa primitiva como o deserto do real ou como o jardim de contingências através do qual desenvolvemos a nossa promenade existencial. Porém, feliz mesmo é aquele que não se esquece de que tal caminho serve também para reconduzir, ainda que sob os passos geográficos da memória, ao sítio primordial de onde, um dia, nos sentimos seguros a ponto de podermos sonhar em paz. Longe de exaurir todos os fenômenos da habitação, a casa natal, no entanto, evidencia, ao modo de não nos deixar esquecer, a figura mais marcante dessa fenomenologia do habitar; pois, em respeito a ela, temos a relação topofílica por excelência.

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