A poesia no divã

O homem põe no mundo coisas que antes não existiam. Os gregos chamaram tal atividade de “poiesis”, e os que melhor a realizavam eram os “poiétés”, ou seja, os poetas; pois, para os antigos helenos, poeta era o fazedor excelente. Ora, ao pôr no mundo algo que antes não existia, o homem conecta-se não consigo mesmo nem com seu passado, mas com o futuro a que se destina tal obra poética. Gaston Bachelard afirma que “o ato poético não tem passado”, pois “o poeta fala do limiar do ser”. Logo, no limiar do ser – no corpo-a-corpo com o não-ser – o poeta é o artista que faz de um o outro; do não-ser, ser; seres a partir de nadas; nadas a partir de seres.

O poeta Pierre Jean-Jouvre diz que “a poesia é uma alma inaugurando uma forma”. Talvez a inaugure para habitá-la, comprazer-se nela, quem sabe? Como, então, “ler” o ato poético enquanto abertura desbravada pelo poeta virgindade-da-existência-adentro? Bachelard nos adverte de que o leitor de poemas não deve encarar a imagem poética como um objeto, muito menos como um substituto do objeto. Essa disposição para com a poesia, contudo, é tarefa árdua ao psicanalista, visto que, para este, “a imagem poética tem sempre um contexto e, interpretando a imagem, ele a traduz para uma outra linguagem que não o ‘logos’ poético”, aponta Bachelard.

Em relação ao impulso poético defendido por Bachelard, “a menor reflexão crítica detém esse impulso, colocando o espírito em posição secundária, o que destrói a primitividade da imaginação”. É aí que o psicanalista solapa, criticamente, a graça dessa “poiesis” presente-futura com a gravidade do passado-presente que, dizem os psicanalistas, o “poiétés” carrega obra-adentro. Carl Jung disse que, na psicanalise, “o interesse desvia-se da obra de arte para se perder no caos inextricável dos antecedentes psicológicos, e o poeta torna-se um caso clínico, um exemplar que porta um número determinado de ‘psychopathia sexualis”. Eis, pois, a incapacidade da psicanálise a transformar a abertura mais saudável e profícua desbravada pelo homem no mundo em indício sintomático de doença!

Por certo que a psicanálise, enquanto “poiesis” humana, esforça-se em ser artista, ou seja, em fazer de forma excelente o seu fazer. A percepção de Jung evidencia que, ao menos ele, lidava com a dificuldade relacional entre a sua arte a Arte propriamente dita. Propor-se abandonar hábitos intelectuais é relativamente fácil. Abandoná-los, todavia, é que são elas! Bachelard, em respeito aos psicanalistas, insiste que “não lhes vem à mente que tais imagens [poéticas] têm exatamente [e tão somente] uma significação poética”; da mesma forma como Freud, embora pregasse que o cigarro era um substituto da masturbação, peremptoriamente disse que “às vezes um cigarro é apenas um cigarro”. O problema incontornável, para Bachelard, é que “o psicanalista explica a flor pelo adubo”, e não pela gratuidade sublime da sua forma, perfume e cor.

A poesia, e por conseguinte as imagens que ela põe no mundo, em suas simplicidades essenciais, não têm necessidade de um saber. Segundo Bachelard, as imagens poéticas são dádivas de uma consciência ingênua; são forças que não passam pelo circuito do saber; não foram feitas para o crivo crítico nem para o dissecar psicanalítico. Isso porque a imagem vem antes do pensamento. Para o filósofo, o psicanalista perde a repercussão poética, “ocupado que está em desembaraçar o emaranhado de suas interpretações. Por uma fatalidade de método, o psicanalista intelectualiza a imagem”. Ora, investigar os antecedentes de uma imagem, quando se está na existência presente da imagem, é sinal de que senão de psicologismo ou de historicismo? Bachelard reitera que “a imagem poética é um acontecimento psíquico de menor responsabilidade”. Em respeito a isso o psicanalista resiste terminantemente.

A poesia é o símbolo de um novo ser; e esse novo ser não é outra coisa que o homem feliz depois de pôr imagens suas no mundo. No entanto, como objetariam os psicanalistas: feliz no poema, infeliz na realidade. Conforme Bachelard, para os psicanalistas “a sublimação não passa de uma compensação vertical”, uma capitalização, o que rouba sobremaneira a horizontalidade comunista da poesia. No divã, a imagem poética não é interpretada em sua novidade essente, mas como ocasião de liberação de alguma pulsão psiquicamente reprimida no passado. Entrementes, e felizmente, “a poesia tem uma felicidade que lhe é própria, independente do drama que ela seja levada a ilustrar”, coloca Bachelard, libertando a poesia do “psicopassado” do poeta.

A poesia é ao mesmo tempo vivência do não vivido e experiência através de uma trilha até então insondada na selva da linguagem. O psicanalista, no entanto, permanece tentando inscrever tal aventura poética no mapa prévio do sujeito, esquecendo-se de que a poesia é a linguagem em estado de emergência, e não a sua permanência em uma linha histórica prévia. Se, como disse o filósofo e psicanalista J.B. Pontalis, “o sujeito falante é o próprio sujeito”, é somente no exato instante em que a poesia fala, através de suas imagens, que ela é, ou seja, que encontra seu ser. Qualquer psicologismo ou passadismo é o não-ser da poesia.

A imaginação poética é a um só tempo liberdade em relação ao passado e à realidade. A poesia é a arte de pôr no mundo o novo, o imprevisível, não obstante através de velhos signos, quais sejam, as palavras. E, porventura, pergunta-nos Bachelard, “tornar imprevisível a palavra não será uma aprendizagem da liberdade?” Talvez seja esta a liberdade máxima, dado que somos seres linguísticos. Entretanto, ao condicionar as novas combinações de palavras postas no mundo pela poesia ao “psicopassado” do poeta, o psicanalista, confundindo a flor com a semente, impede-a de florescer como a revolução libertária que é.

Bachelard disse que a “imaginação poética não pode ser entregue à mensuração do geômetra”; pois, talvez, convertido em metros ou milímetros, o ser imagético perca a potência de ser do tamanho do universo. Tampouco a imagem poética “é” no divã do psicanalista, porquanto historicizada e psicopatologizada, a saúde da poesia é lida como história morta e/ou doença vivente, coisa que, definitivamente, a poesia não é. O saber psicanalítico não apreende o saber poético, pois, nas palavras de Bachelard, “é preciso que o saber seja acompanhado de um igual esquecimento do saber. O não-saber não é uma ignorância [nem uma fuga], mas um ato de difícil superação do conhecimento”. Ainda que haja uma raiz psicossomática em cada verso poético, como querem os psicanalistas, o poeta, atentando para isso, deixa de ser “poiété” para tornar-se um historiador ou um detetive de “psychopathias sexualis”.

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