A contemporânea obsolescência da Filosofia

Mergulhar profundamente nas águas da Filosofia, depois da modernidade, traz o conhecimento nada animador de que este oceano está seco, subsistindo em seu “volume morto”, contra o qual a aventura metafísica se choca no instante em que o mergulho se revela queda-livre. A vida da Filosofia ao longo da História humana é análoga à vida de um homem singular: nasceu viçosa na antiguidade, portadora de um novo futuro à humanidade; adolesceu errante e controversa entre o Deus e a razão medievais; amadureceu “antropocentrada” sob o signo do sujeito moderno; e finalmente, na contemporaneidade, envelhece às custas de um aparato tecnológico que ainda permite alguns batimentos cardíacos seus.

Todavia, a obsolescência da Filosofia não se deu por incapacidade sua de realizar-se conforme o seu propósito original, mas por uma radical mudança de paradigma na evolução da humanidade. Enquanto o homem desejava saber o que havia de eterno e essencial no universo, a “ciência primeira” teve um lugar ao sol, porém, quando a imediatez e a inessencialidade tornaram-se a realidade desejada e realizada pela pós-modernidade, o tempo fechou para a metafísica.

Na Grécia antiga a Filosofia prometia revelar ao homem a constituição intrínseca da realidade, por isso figurava como o saber mais elevado. O escopo essencial dessa “Ciência Mater” era o desvelamento à razão do que era real e eterno no universo, ou seja, “necessário”, recusando-se, por conseguinte, a tratar do efêmero, do relativo ou do acidental, isto é, do “contingente”. Tudo o que dependesse das circunstâncias, como por exemplo, a ética, a estética e a política, era tratado como algo menor; como objeto não essencial da Ciência Metafísica. Inclusive as investigações filosóficas de Platão e Aristóteles a respeito desses objetos contingentes se davam no intuito de desvelar algo perene e “necessário” neles, porém, sem sucesso.

A busca pelo eterno e pelo universal extrapolou a era grega, adentrando com propriedade no medievo. Entretanto, essa aventura metafísica se dava sob a tutela de, e com o fim último em Deus. Teologizando-se, a Filosofia é furtada daquela liberdade grega de buscar as causas desconhecidas do universo. Diante de Deus, o filósofo medieval seria queimado vivo caso revelasse uma verdade discordante da verdade dEle. Para não descolorir totalmente o matiz filosófico da Idade Medieval, podemos entender essa constrição à razão humana provinda de Deus enquanto o questionamento racional – inventado pelo homem! – acerca da validade e da capacidade da própria razão do homem na sua empresa filosófica. O que Deus foi dizer, com todas as letras, que era Ele, e não o filósofo – muito menos o homem – o Ser capaz de conhecer o universo em sua verdade; até porque Ele era essa verdade.

A aurora da modernidade brilhou traumatizada por conta da verticalidade das verdades divinas. Portanto, de início, Deus foi trocado pela matemática, pois ela continha em si mesma uma verdade irrefutável, capaz de revelar, racionalmente, a estrutura do universo ao homem, sem com isso apequená-lo sob o jugo da onipotência divina. Os filósofos, então, puderam descobrir livremente o que era o descobrir filosófico. Todavia, não como fizeram os antigos gregos que acreditavam que a verdade era eterna e independente do homem, mas cientes de que a verdade era a criatura do homem criador. Tampouco repetiram os medievais que fizeram da verdade e da eternidade o corpo inviolável de Deus. Os modernos acreditavam que a verdade, a realidade, e inclusive a natureza, desejavam e deveriam ser violadas e dominadas pela mente humana, e isso em benefício exclusivo da humanidade. No lugar do cosmos incólume grego, e no do Deus onipresente, o filósofo moderno colocou a si mesmo, ou seja, o sujeito. Esse sujeito, entretanto, precisava apenas de “esclarecimento” para ocupar o mais alto posto do universo, anteriormente ocupado por Deus.

Chegamos à Idade contemporânea com um mundo possuído por sujeitos instituídos e esclarecidos, aonde a metafísica, desde a modernidade estruturada no sujeito, insistia em dizer o que é o homem; porém, em um estágio da humanidade no qual o que realmente interessa – e o que efetivamente faz o mundo – é o que “pode” e o que “deve” ser o homem, não o que ele já é ou sempre foi. O filósofo metafísico, por conseguinte, torna-se um tolo a proferir juízos de pretensa validade eterna em um mundo que deseja mais do que tudo a obsolescência instantânea. A Filosofia deixa de ser ciência porque não consegue ser tecnologia, dado que esta é, até então, o único produto histórico capaz de atender ao universo de sujeitos oniscientes, onipotentes, onipresentes e, mais condicionante ainda, “onidesejantes” – tal qual o Deus medieval.

No entanto, seja o cosmo antigo, seja o Deus medieval, ou ainda o sujeito moderno – enquanto essência do homem -, todos eram objetos unos para a Filosofia de cada uma dessas Idades. Já na pós-modernidade, herdeira e socializadora absoluta da instituição do sujeito moderno, os objetos filosóficos são, no mínimo, em número igual ao de sujeitos. Se nas Idades pregressas a Filosofia não conseguiu esclarecer definitivamente o que era o universo, Deus ou o homem, na Idade do progresso, povoada por sete bilhões de deuses universais humanos, essa tarefa é tão impossível quanto dispensável. Fazendo uma analogia entre os produtos filosóficos e os tecnológicos, a produção de um Iphone, por exemplo, que tivesse validade eterna e universal, ou seja, fosse suficiente para “todo o sempre”, quebraria o mundo atual, além de desagradar sobremaneira os universais deuses humanos consumidores de obsolescências. Da mesma forma, hoje em dia, verdades filosóficas eternas apenas acorrentam o homem a algo do qual ele, criador e criatura da histeria contemporânea, desejará instantaneamente livrar-se, para então consumir outra verdade qualquer, como quem troca de Iphone, dispensando qualquer tipo de eternidade.

A filosofia, portanto, não tem mais lugar no mundo. Como foi dito antes, parafraseando uma afirmação de Auguste Comte acerca da necessidade da morte da metafísica, a história da filosofia pode ser representada pela história de um único homem: mítica na infância antiga, teológica na adolescência medieval, metafísica na maturidade moderna e tecnológica na velhice contemporânea. Entrementes, a velhice contemporânea é coetânea da juventude contemporânea, pois o mundo não acaba diante da velhice, mas recomeça através dessa juventude simultânea. A obsolescente metafísica, aposentada forçosamente pelo contemporâneo devir tecnológico, jaz impotente diante do futuro como a velha e sedentária mãe diante do filho jovem e dinâmico, o verdadeiro dono desse futuro. A senhora Filosofia tem a sua glória no passado, mas não no presente. Terá ela futuro? Antes, o futuro da Filosofia será a obra do seu rebento tecnológico presente que, não obstante, só segue pujante enterrando-a.

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