A filosofia do agora

A busca da Filosofia pelos universais é tão antiga quanto ela própria, afinal, enquanto ciência que se preze, ela deve ter por objeto algo que valha universal e eternamente. Do contrário, tais verdades filosóficas valem apenas circunstancialmente, e para determinados indivíduos; ou seja, valem tanto quanto as múltiplas opiniões particulares. Desse modo, uma filosofia que tenha apenas o agora como objeto, tem sua pertinência limitada pela extensão desse objeto, isto é, pelo o tamanho deste agora. Por isso, tradicionalmente, o pensar filosófico contempla o que existe sempre.

Todavia, a filosofia não pode deixar de fazer-se dentro do agora, tampouco evitar tomar por objetos coisas que existam apenas agora; até por que quem a faz, ou seja, o ser humano, está sempre preso a um agora específico. Logo, a despeito dos sobrevalorados e abstratos universais eternos, subsistem os fortes, concretos, sensíveis e inegáveis particulares, presentes exclusivamente agora. De maneira que é o agora o “lugar”, tanto das questões mais pertinentes quanto das respostas mais necessárias, sobre o qual deve debruçar-se a Filosofia.

Caso ela se volte exclusivamente para o que há de perene através de todos os “agoras”, deixará de fora o absolutamente concreto, que só existe no pungente instante presente. Os legítimos dilemas dos antigos, por exemplo, em cuja investigação a Filosofia tradicional dedica-se sobremaneira, tiveram substância concreta e válida apenas naqueles dias – passados – nos quais estiveram locados. Por conseguinte, quando a filosofia insiste neles enquanto substanciais, ela é mais História do que propriamente Filosofia.

Portanto, se a filosofia pretende ter validade universal, obviamente não deve desconsiderar o universo, porém, seu escopo essencial deve ser o universo que há agora. Entretanto, o que é o agora? O agora é eu escrevendo; já o agora é eu sendo lido por você; agora há pensamento… O Agora há, inegavelmente! Interessante é perceber que ao tornar a filosofia o absolutamente presente, ela reencontra o seu mais ancestral objeto de desejo, isto é, o Ser em sua essência absoluta – que, não obstante, só é no agora; pois fora dele não é, apenas foi.

Caso seja dito que o agora é bom ou ruim, ou qualquer outra predicação que ele efemeramente nos sugira, em outro agora no qual tais predicados não sejam pertinentes, caem os predicados, mas nunca o agora. Pois só o agora é, e não os seus predicados. Em relação ao agora, outrossim, ao Ser, todas as predicações são apenas História, mas de modo algum Filosofia. Embora o filósofo se utilize dos predicados para iniciar uma relação com seus objetos, o respeito ao Ser demanda que tais predicações desapareçam ao longo do processo, ou do contrário o que permanece são apenas as predicações, mas não o Ser, pois ele já está, sempre, em outro agora, livre das velhas vestes dos predicados humanos.

Não é o caso de a Filosofia reencarnar o ceticismo de Pirro de Élis, cujo radicalismo o impedia de pronunciar qualquer juízo acerca das coisas, o que o levou ao silêncio absoluto. A filosofia pirrônica via pertinência na silenciosa percepção da existência presente, e no exercício sistemático de não predicá-la. Pois este ceticismo, por um lado, dizia que a mente não tinha como saber o que as coisas são em si, e isso foi chamado de “acatalepsia”; e por outro, que qualquer predicação estabelecida desvanece já no instante seguinte em que é dita.

Podemos, portanto, eleger Pirro de Élis como o primeiro filósofo do agora, ou seja, aquele que recusou aceitar o antes e o depois como terreno de seu filosofar e como resposta às questões presentes. Seu objeto de preocupação era o exato agora, porém, para ele, tal postura significava “despreocupação” absoluta com tudo o que o Ser não é, ou seja, as suas predicações efêmeras – atribuídas pelas ainda mais efêmeras opiniões humanas – provindas de “agoras” alienígenas. Essa despreocupação metódica, chamada de “ataraxia”, era o genuíno envolvimento de Pirro com o espetáculo da existência, cuja essência consiste precisamente na ausência da necessidade de precisão.

Ora, se a Filosofia busca voltar o homem à verdade da existência e à constituição da realidade, para que assim ele seja a existência real, em conformidade com tudo que é realmente, essa busca visa nada além da paz entre homem e universo, porquanto  ambos são uma única coisa. Todavia, homem e universo são cindidos por conta das muitas predicações através das quais o homem pretende, “pré-ocupadamente”, entender o universo do qual ele mesmo é parte essencial. Logo, predicar partes do universo nada difere de produzi-las através dessas predicações mesmas, o que dificulta sobremaneira o entendimento universal.

No intuito de alcançar o Ser, mais vale a pirrônica filosofia do agora, pois só ela não separa deste agora parte alguma sua. Isso porque, levantar um juízo acerca do que quer que seja, só aumenta a distância que a Filosofia terá de percorrer para retornar esta desgarrada parte predicada à sua eterna consonância com o todo. Se filosofar é compreender o universo, mesmo depois de ele ter sido particularizado predicativamente, uma Filosofia inteligente, portanto, deve ser a economia desse processo; seja evitando cindir o universo em muitas partes, cada qual dona de um conjunto improvável de predicações distintivas, seja não retirando esse universo do exato agora, o único “lugar” aonde ele pode, de fato, ser. “Ataraxia” para as mentes filosóficas! Pois nenhuma questão fora deste preciso agora é essencial, apenas histórica.

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