A linguagem é do Ser

Ao enunciarmos uma frase desejamos, basicamente, atribuir um predicado a um sujeito, e que essa atribuição tenha pertinência tanto para nós quanto para os nossos interlocutores, ou seja, que contenha uma verdade. Ainda que uma construção linguística seja voltada à ficção, aonde o objetivo é iludir, a intenção é fazer com que os ouvintes ou os leitores creiam verdadeiramente no que se está comunicando. Portanto, damo-nos por satisfeitos quando, depois do ponto final, aqueles que nos ouvem entendem, da forma como desejamos, o sujeito enunciado através do predicado que a ele atribuímos.

Entretanto, embora a linguagem se preste corriqueiramente a predicar sujeitos de acordo com as ideias que deles fazemos, Tomás de Aquino, já no século XIII, dizia ser este o escopo imperfeito e colateral da linguagem humana. De acordo com a teoria do filósofo medieval, quando dizemos, por exemplo, “a parede é branca”, ou “o homem é um animal”, buscamos apenas dizer o que uma coisa é, ou como ela é; e acreditamos que através da construção linguística tocaremos a verdade da coisa da qual falamos.

Inclusive enunciados mais difíceis de serem decifrados se verdadeiros ou falsos, qual seja, “o baldrame é egrégio”, se esclarecido que o sujeito é uma “pedra de alicerce”, e o predicado significa “proveniente do mar Egeu”, o enigma se desfaz e doravante nos assenhoramos disso como uma verdade. Ora, a linguagem tem o poder de transformar o insondável em algo dado porque os nomes, uma vez dispostos em torno de um verbo, parecem ser verdades tácitas que dispensam qualquer perscrutação ulterior. A única coisa que resta a verificar é se a relação entre os nomes feita pelo verbo é correta, mas não os nomes eles mesmos.

É precisamente por conta dessa eficaz ilusão com que as palavras se nos parecem verdades absolutas que São Tomás diz ser a linguagem, do modo como a usamos, uma ferramenta inócua. No exemplo acima citado, “o homem é um animal”, nossa razão nos leva apenas a verificar se a coisa chamada “homem” é a coisa chamada “animal”. Entretanto, se buscarmos as definições do que é “homem” e “animal”, o tempo de investigação ontológica necessária a uma conclusão segura pode ser o mesmo da idade da própria filosofia.

É só tentar definir o que é “homem” para perceber que a miríade semântica que se oferece à correta significação da palavra gradativamente solapa o seu significado até então dado. O mesmo aconteceria com a palavra “animal”, pois por trás do seu conceito ordinariamente manuseado por nós se esconde um mistério inversamente proporcional à nossa certeza acerca dele. Portanto, o nosso trabalho de verificar se o predicado corresponde ao sujeito – e isso estando cientes de que ambos são mais desconhecidos do que a relação que entre eles fazemos através de um verbo -, não nos aproxima da verdade das coisas que falamos, mas afasta-nos dela.

Percebendo que na maior parte das vezes as pessoas usam as palavras mesmo sem saber as suas significações universais; outras tantas usando-as apenas tocando superficialmente a sua verdadeira significância; e ainda utilizando-se delas ao passo que para cada interlocutor as mesmas palavras têm outros e outros significados; Tomás de Aquino intuiu que não era nos sujeitos nem nos predicados que residia o ser da linguagem, já que eles eram seres inconclusos nas nossas ideias. O que sobrava? O verbo que os reunia. Apenas as relações feitas pelos verbos entre estes entes misteriosos é que poderiam ser verdadeiramente conhecidas, mas não as partes conectadas pelo verbo.

Para melhor entender a residência da substância da linguagem no verbo, o princípio da identidade formulado por Parmênides pode ser de grande ajuda. O filósofo pré-socrático estipulou haver referência verdadeira sempre que a=a, mas não em a=b. Ora, se “a” é “a”, e isso é inquestionável, independente do que “a” signifique, podemos intuir que a verdade da linguagem – que diz que uma coisa é aquilo que ela é – não existe nos significados dos sujeitos nem dos predicados, mas no verbo de cujo poder relacional depende a verdade.

Dessa forma, sendo o verbo o ser da linguagem, resta dizer que por trás de todos os verbos há outro, sempre o mesmo, que lhes serve de substância, e este é o verbo “ser”. Ao dizermos, por exemplo, “a mulher casou com o homem”, dizemos essencialmente que “a mulher ‘é’ casada com o homem”; também em “o homem envelheceu” significa que “o homem ‘é’ velho”; e por aí vai. Portanto, todo verbo esconde em si o verbo “ser”, porquanto toda e qualquer ação “é” antes de receber alguma predicação que defina de que tipo ela é.

O verbo “ser” no mais das vezes se oculta atrás de formas substantivas, particípias ou adjetivas, como quando “casou” substitui “é casada”, ou “envelheceu”, “é velho”. No entanto, apenas o verbo “ser” é, e somente ele pode fazer com que um sujeito seja o predicado que a linguagem lhe atribui; pois, de acordo com Parmênides – o fundador do princípio da identidade -, se “a” é “a”, não importando o que “a” venha a ser, apenas o ser é! Agora podemos voltar a Tomás de Aquino e à essência da linguagem humana afirmada por ele.

Se não podemos ter certeza absoluta do que significam ontologicamente os sujeitos e os predicados, mas mesmo assim temos certezas a partir de suas apresentações linguisticamente estruturadas, e isso sendo possível apenas através do verbo que os liga – sem esquecer que sob todos os demais verbos trabalha exclusivamente o verbo “ser” – a linguagem não existe para predicar sujeitos, ou para sujeitá-los aos predicados. Porém, faz dos sujeitos e dos predicados forças, ainda que essencialmente desconhecidas, com as quais testa exclusivamente a potência e a valência  do verbo “ser” que tudo relaciona.

O que São Tomás disse, portanto, foi que em qualquer frase que construamos a única coisa que se predica de fato é o verbo “ser”. Pois ao dizer “a parede é branca”, ou “o homem é um animal”, independente da verdade ou falsidade das sentenças, é só verbo “é” que se arrisca a ser verdadeiro ou falso; apenas ele é definido e redefinido a cada vez que se encontra encurralado por dois nomes. Logo, a linguagem serve muito menos para expressarmos as coisas do modo como as pensamos do que para dizermos o que é o “ser” ele mesmo, incólume de quaisquer sujeitos e predicados. Talvez para, quem sabe, no dia em que o “ser” estiver tacitamente definido por e para nós, podermos então esclarecer o que são, em verdade, os tantos sujeitos e predicados com os quais enchemos as nossas frases.

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