Revoluça x reaça = Brasil

Há cinquenta anos a elite brasileira interveio militarmente, acabando com a abertura das organizações sociais e populares, bem como com o merecido espaço que os trabalhadores estavam ganhando através das canetadas de Jango contra a histórica oligarquia brasileira. Às vésperas da comemoração dos trinta anos do fim daquela ditadura, cerca de duas mil pessoas de uma pretensa elite sai às ruas de São Paulo pedindo nova intervenção militar no país. Essa triste performance contemporânea, encenada nas avenidas paulistas, oferece, contudo, uma oportunidade “sui generis” para os diferentes e antagônicos “Brasis” haverem-se diante do espelho.

Nas manifestações de junho de 2013, a “Sociedade de direito” assistiu “estarrecida” ao radicalismo “black bloc” quebrando agências do Itaú como o sintoma incontrolável do grito um pouco menos radical, porém não menos genuíno, de parte da população que clamava por um Estado que não se esquecesse dos seus cidadãos. Na atual manifestação pró-militar de novembro de 2014 são os outrora “estarrecidos” que “estarrecem” àqueles “estarrecedores” juninos de 2013. Porém, para os “Chique Blocs” oligo-VIP-paulistas a depredação de agências bancárias parece não ser suficiente, dado que o que eles pretendem vandalizar mesmo é o Estado brasileiro por completo.

No intervalo de pouco mais de um ano tivemos revolucionários horrorizando reacionários em rede nacional, numa luta que desejava fazer do Brasil algo mais dos brasileiros. Agora, reacionários horrorizam revolucionários em rede social, na tentativa de tirar dos cidadãos os desígnios do país para novamente legá-los às elites históricas, fazendo assim do capital bélico o verdadeiro presidente da nação. Mediante esse “estarrecimento” generalizado, tanto os “reaça” quanto os “revoluça” podem experimentar o absurdo ameaçador que um é para o outro na livre arena democrática brasileira – o que jamais seria possível num círculo militar!

Entretanto, o objeto de desejo dos manifestantes de 2013 e dos de 2014 é o mesmo, ou seja, o poder. Porém, cada um tem uma ideia diversa de como esse poder deve ser possuído e administrado. O que os “Revoluça Black Blocs” queriam era socializar o poder, clamando por seus direitos furtados. Já os “Reaça Chique Blocs” querem colocar o poder em ainda menos mãos – nas militares, obviamente; não nas do povo – exigindo, através da solicitação de uma intervenção militar, que sejam confiscados direitos civis, pois assim acreditam que não perderão o podre poder que atualmente detêm.

Graças à deusa grega Democracia, o Brasil pode performar e assistir às suas contraditórias insatisfações, sejam revolucionárias, sejam reacionárias. Em um Estado democrático ninguém é melhor do que ninguém; por conseguinte, tanto o direito de “estarrecer” os outros com as nossas pertinências, quanto o dever de estar “estarrecido” com as impertinências dos outros, ambos devem ser igualmente socializados. Só assim “reaças” e “revoluças” encontram um solo comum e farão desse antagonismo chamado Brasil algo com valência sinônima universal.

No entanto, por mais tensa e temporariamente desagradável que possa figurar a nossa arena democrática, essa tensão é a sua maior virtude, pois só nela todas as insatisfações podem permanecer em pé de igualdade. A democracia não tem o poder de eliminar os antagonismos sociais, mas é a única forma de alternar as insatisfações e de fazer com que os insatisfeitos não sejam sempre os mesmos. Já a arena militar atualmente ressolicitada a partir de São Paulo, cuja seletiva centralidade deverá ser ocupada por uma elite ameaçada pela alternância do poder, é a injusta e mesma área VIP que a elite dos ’60 do século passado reservou para si, na qual todo revolucionário torna-se um criminoso torturado e todo reacionário um militar armado. Que a história não se repita!

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