Solidão offline

Fui assistir ao último debate entre os presidenciáveis com meus amigos. Socializávamos tradicional e despojadamente, regados a um bom vinho tinto, quando nos colocamos diante da televisão. Logo no primeiro diálogo entre os candidatos as pessoas com as quais eu desejava compartilhar presencialmente aquele momento já estavam mergulhadas no intenso mundo que se estende entre o ‘twitter’ e o ‘Facebook’ através das suas telas ‘smartphonadas’. Doravante o interesse deles pela ‘virtuália’ foi maior que pela ‘reália’ imediata.

Eu olhava solitariamente para a televisão enquanto os demais, com um ouvido no que era dito pelos candidatos digladiadores, permaneciam com a cabeça baixa – portanto cabisbaixos -, com seus olhos atentos aos ‘tweets’ e às postagens ‘facebookianas’ e com os dedos deslizantes sobre as ‘touchscreens’ luminosas. Eles ignoravam não só a mim, que estava “desconectado”, mas também a si mesmos. Lembrei-me do que a mitológica Penélope disse ao seu amado, o aventureiro Ulisses: “você me destrói com a sua vontade de ausência”.

No entanto, “a tão chorada ameaça de perda de Ulisses”, psicanalisada por Guattari, “era a ameaça de perda de si” que Penélope temia. Portanto, para não denunciar a minha insegurança existencial, evitei solicitar as atenções dos meus amigos ao espaço físico que compartilhávamos. Tive medo de ouvir deles o que Penélope ouviu do seu amado aventureiro: “você me destrói com essa sua vontade de presença”. Pensei que no intervalo comercial poderíamos conversar sobre o debate; pois, recordando-me do que disse Penélope à Ulisses, “cada volta tua há de apagar o que essa ausência tua me causou”.

Nada! Quando o primeiro intervalo chegou, aí sim que a ‘virtuália’ solicitou-os mais ainda. Assim foi ao longo de todo o debate. Cheguei a desejar ter o meu celular em mãos para poder trocar com eles, ou apenas para saber o que estavam pensando e dizendo aos seus “followers”, apesar de estarmos fisicamente na mesma sala, à distância de uma fala. Foram raros os momentos em que olhávamos para o mesmo ponto e falávamos sobre a mesma coisa. No mais das vezes todos estavam nos seus buracos virtuais, entretidos com os seus mundos sociais privados; seguros, como Ulisses, de que em cada ausência deles eles existiam na minha espera chorosa por eles, que constatariam e reconstatariam a cada volta.

Apesar de aquela solidão “offline” ser surpreendentemente desconfortante, somente a partir dela é que pude observar, à distância, a distância dos meus amigos em relação ao que presencialmente encenavam. Do outro lado das “touchscreens” que roubavam os meus amigos do nosso encontro estavam outras milhões, roubando simultaneamente a atenção das pessoas de outras milhões de salas. A ágora virtual que reunia todos os conectados era, sem comparação, mais intensa e esquizofrênica do que a ambiência contingente, temporal e muitas vezes silenciosa daquela sala com meia-dúzia de pessoas. Em relação a isso eu nada poderia fazer.

O modo de os meus amigos experienciarem a realidade daquele debate era através do espetacular curto-circuito entre o ‘twitter’ e o ‘Facebook’, fazendo, por conseguinte, da própria realidade imediata algo a não ser genuinamente experienciado, mas sim o pretexto para experienciar o próprio curto-circuito virtual. Então, acrescentando gravidade à situação, Guattari sussurrou-me: “sem território fixo, as maquinas celibatárias erram pelo mundo, […] nascem de cada estado fugaz que consomem”.

Por conseguinte, tanto fazia o que acontecia “no” debate entre os candidatos à presidência. Mais importante era a reflexão imediata das milhares de opiniões que acotovelavam-se nos “feeds” escravizadores. A realidade material, portanto, era só o trampolim para o mergulho no espetacular mar virtual de suficiência instantânea. Já no mundo presencial havia menos pessoas e menos opiniões entretendo-os, e neste, seriam obrigados a encarnar, imediata e temporalmente, mais as suas próprias opiniões e ideias que as dos outros.

A torrente prolixa que jorrava do ‘twitter’ e do ‘Facebook’ era, por certo, um entretenimento sem igual. Entretanto, mediante essa tagarelice toda, que para Guattari significa “uma situação de alienação que funciona como obstáculo aos verdadeiros processos analíticos”, ninguém se deparava mais com os silêncios essenciais dos diálogos autênticos em cuja suspensão retórica reside a verdade do andamento do diálogo mesmo. Os silêncios, isto é, os ecos vazios que ressoam quando não se têm o que falar nem o que ouvir, são, sobremaneira, os raros momentos de verdade, precisamente porque neles opiniões não são colocadas, portanto, receptáculo impossível ao erro e à mentira.

Já o barulho virtual não ajuda a separar o joio do trigo nem a vivenciar o solitário existencialismo das ideias, apenas atiça a babilônia informacional que sobeja sobre elas. Nesse alarde virtual, afirma Guattari, “os indivíduos são reduzidos a nada mais do que engrenagens concentradas sobre o valor de seus atos”. Estando cá e lá, ou melhor, mais lá do que cá, meus amigos dividiam-se entre “duas cenas, dois perigos, um só dano”, advertiu-me o filósofo, pois, segundo ele, desse modo “quem sai perdendo é o amor”. Recoloco-me a pergunta de Guattari: “então o amor anda impossível?” Ele responde imediatamente que “nem tanto”. Eu, todavia, tive de esperar o debate, as postagens e os ‘tweets’ acabarem para poder concordar com ele e voltar a estar e a amar estar com meus amigos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s