O desejo de Adão

Apesar do movimento incessante das pessoas no sentido de evoluírem, será que é mudança mesmo o que elas querem em suas vidas? Mudança é o que urge quando algo não vai bem, dado que quando estamos felizes queremos tudo menos que esse estado mude. Ora, se ninguém aventa mudança sem ter um ideal seguro, e se este éden é tão concreto a ponto de se tornar objeto de desejo, é porque sua concretude já foi experimentada empiricamente e por garantir a felicidade desejada. Ademais, a ideia de um “melhor do que agora” não se sustenta diante de um “depois desconhecido”, mas apenas contraposta à situações concretas – e concreto, em relação ao presente, só mesmo o passado. Portanto, se há algo subsistente por trás de uma mudança almejada, trata-se da ideia um restauro no sentido de um paraíso perdido qualquer – mais do que uma aventura a um novo desconhecido.

Entretanto, dado que o homem não escapa de desejar, e que este desejo esteja sempre atado ao nome “mudança” – ainda que tal desejo vise um retorno a uma circunstância venturosa concretamente sabida – que paraíso perdido seria este que leva as pessoas a desejarem algo melhor do que o agora? Algo de primordialmente comum entre os humanos – talvez o que há de mais comum entre todos nós – é o fato de nascermos; de abandonarmos o útero materno para habitarmos o chão árido do mundo. É somente neste último que as particularidades tornam-se vestes, diferenciando-nos e caracterizando de forma exclusiva os nossos desejos. Porém, a vida intrauterina é a coisa mais parecida com o paraíso que experimentamos na vida.

A força dessa experiência pré-mundana, aonde toda falta é acompanhada se sua satisfação imediata, por mais inconsciente que se perpetue, pode muito bem ser o motor subconsciente a gerar os nossos desejos por uma situação na qual as coisas que nos faltam sejam-nos dadas ao toque do seu aparecer. No útero paradisíaco não há fome sem alimentação, cansaço sem repouso nem solidão sem companhia constante. De certo modo, no ventre materno inexiste a ideia de necessidade; ou antes, ela significa a mesma coisa que sua supressão. Logo, entre todas as ideias que temos ao longo da vida acerca de uma satisfação gratuita e constante, não há outra cujo conteúdo, ainda que inconsciente, seja mais promissor.

Esse imanente paraíso primordial encontrou transcendência mitológica entre os pagãos e entre os cristãos. O ancestral mito de Prometeu, e a entrega por ele da chama da sabedoria de Zeus aos homens, cujo castigo imputado a nós, humanos, foi a condenação à sobrevivência através do esforço individual; bem como o posterior mito de Adão caindo do paraíso por ter consumido o fruto da sabedoria divina de que foi advertido a não provar, doravante recebendo tanto a mortalidade quanto o esforço ingrato de cuidar de sua sobrevivência; ambos os mitos falam, de modos alegóricos distintos, porém análogos, da epopeia a que todos nós nos submetemos ao deixar o paraíso uterino para cairmos no mundo da contingência.

A humanidade, seja ela pagã ou cristã, encarnou a angústia de viver atada à roda da necessidade e envolta a desejos que, não obstante, apontam no sentido maior do paraíso primordial perdido. É aqui que a ideia de restauro sobrepõe-se absolutamente sobre a de mudança, visto que não há situação melhor a desejar que aquela mítica aonde nossas necessidades de mudança sequer existiam. Não que não mudássemos no ventre materno, porém, éramos a mudança desacompanhada do desejo.

Queremos que o Brasil mude, por exemplo, através da escolha do novo presidente. Entretanto, quem viveu o suficiente sabe muito bem que qualquer situação mundana alcançada é tudo menos o paraíso, pois a população de novas contingências que todas elas trazem em si são a maternidade de novos desejos de mudança. Ou seja, nenhum estado do homem no mundo encontra a perfeição daquele estado pré-mundano aonde ele mesmo e a perfeição eram uma coisa só. Sendo assim, a remissão ao infinito de todos os desejos humanos, e por conseguinte todas as necessidades de mudança, são maximamente a necessidade de restauro do, e retorno ao, paraíso concretamente experienciado por todos nós na incontingência inconsciente de antes de cairmos no mundo.

Procurando o motivo que levou-nos todos a abandonar tal paraíso materno nos mitos prometeico e adâmico encontramos a questão do desejo irrefreável pela sabedoria. Afinal, ainda que pareça paradoxal, foi ela que causou a expulsão humana da perfeição divina. Desse modo, essa sabedoria de que falam os mitos deve ser o objeto, concreto e imperioso, que todo pré-nato toma posse para fazer a trasladação ao mundo dos homens natos. Hobbes disse-nos que “saber é poder”, portanto, uma vez donos da mínima sabedoria podemos tudo, inclusive nascer, ainda que esta sabedoria leve-nos apenas ao mundo da contingência no qual desejaremos eterna e inadvertidamente a mudança que, entretanto, significa nada mais que o restauro daquele paraíso perdido.

Em relação à posse dessa sabedoria indevida que nos torna impróprios ao paraíso primordial, o mito cristão conta-nos que foram dois seres femininos, quais sejam, a serpente e a mulher Eva, os que colocaram na virgem cabeça de Adão o desejo por tascar o fruto do saber. Possivelmente tenham sido representados dois seres femininos como os promotores de tal expulsão edênica por conta de ser sempre uma mulher que pari, ou seja, pelo fato de ser a mãe que expulsa todo adão do útero primordial. Caso o próprio adão tivesse desejado mudar-se do éden para o mundo, seu desejo seria genuinamente de mudança. Todavia, por ser uma mulher que desejou e causou tal migração, a primeira coisa que adão soube, de fato, foi que estava sendo expulso definitivamente do seu paraíso perfeito.

Em Adão, portanto, restou o único desejo de retornar ao mundo ideal aonde não havia morte nem necessidade. Esse desejo, de realização impossível, é conscientemente representado no palco do mundo, por atores e cenários mundanos. Entretanto, o drama é sempre o mesmo, isto é, o imperioso e inconsciente desejo de restaurar a perfeição perdida; muito mais que mudá-la; visto que não há por que mudar o que é sabidamente bom, apenas retornar a esse bem. Por conseguinte, a sabedoria que primeiro recebemos, e que é contemporânea ao nosso abandono do paraíso, é a sabedoria da perda desse paraíso mesmo – saber primordial que vive miticamente no cerne de cada homem nascido, porém, representado historicamente enquanto a sucessão de desejos de mudança que, não obstante, são nada mais que a permanência mítica do desejo universal de restauro da situação mais favorável que experimentamos na nossa finita existência.

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